Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — VUNESP 2025
Medicina›Clínica Médica Humana
Código
vu092817
Banca
VUNESP
Órgão
FAMEMA
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico I - Especialidade: Clínica Médica
Em relação ao efeito do consumo de bebidas alcoólicas no sistema cardiovascular, é correto afirmar:
Aa cardiomiopatia dilatada devido ao consumo de álcool é irreversível.
Ba probabilidade de desenvolver cardiomiopatia dilatada se correlaciona com a quantidade de álcool consumida ao longo da vida.
Cmulheres são menos suscetíveis do que os homens à cardiomiopatia associada ao álcool.
Do consumo crônico intenso/pesado de álcool está associado à baixa pressão arterial.
Eo consumo em baixas doses (moderado) de álcool está associado a uma maior taxa de morte súbita.
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GabaritoB — a probabilidade de desenvolver cardiomiopatia dilatada se correlaciona com a quantidade de álcool consumida ao longo da vida.
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Cardiomiopatia alcoólica: relação dose-dependente e reversibilidade
Gabarito: letra B. A probabilidade de desenvolver cardiomiopatia dilatada correlaciona-se diretamente com a quantidade total de álcool consumida ao longo da vida — quanto maior o consumo cumulativo, maior o risco. As demais alternativas invertem ou distorcem fatos consolidados: a cardiomiopatia alcoólica é potencialmente reversível com abstinência, as mulheres são mais suscetíveis que os homens, o consumo crônico pesado associa-se a hipertensão (não a hipotensão) e o consumo moderado associa-se a menor risco de morte súbita.
A cardiomiopatia alcoólica é uma forma de miocardiopatia dilatada não isquêmica, causada pelo efeito tóxico direto do etanol e de seu metabólito, o acetaldeído, sobre o miocárdio. O álcool interfere na síntese proteica dos cardiomiócitos, na homeostase do cálcio e na função mitocondrial, levando a disfunção contrátil progressiva e remodelamento ventricular. O diagnóstico é essencialmente clínico: paciente com consumo crônico significativo de álcool que desenvolve insuficiência cardíaca com dilatação ventricular e fração de ejeção reduzida, na ausência de outra causa identificável (doença coronariana, hipertensão grave, valvopatia).
A relação entre álcool e coração é dose-dependente e cumulativa. Estudos epidemiológicos demonstram que o risco de cardiomiopatia dilatada aumenta progressivamente com o consumo total de álcool ao longo da vida, medido em gramas de etanol acumulados. Não há um limiar seguro absoluto: mesmo consumos moderados, quando mantidos por décadas, podem contribuir para disfunção ventricular em indivíduos suscetíveis. Essa relação linear é o fundamento da alternativa correta.
O ponto mais importante para a prova — e o mais contraintuitivo — é a reversibilidade. Diferentemente de outras miocardiopatias dilatadas, a cardiomiopatia alcoólica pode regredir significativamente com a abstinência total e precoce. Estudos mostram melhora da fração de ejeção, redução das dimensões ventriculares e até recuperação funcional completa em pacientes que param de beber nos estágios iniciais da doença. A reversibilidade é tão característica que a resposta à abstinência é usada como critério diagnóstico: se o paciente melhora após cessar o álcool, confirma-se a etiologia alcoólica. Isso derruba a alternativa A.
Outro ponto que a banca explora é a suscetibilidade por sexo. As mulheres são mais vulneráveis aos efeitos cardiotóxicos do álcool do que os homens, mesmo com menor consumo cumulativo. Isso se deve a diferenças farmacocinéticas: menor volume de distribuição, menor atividade da álcool desidrogenase gástrica e maior biodisponibilidade do etanol. Assim, para uma mesma quantidade de álcool, a mulher atinge concentrações sanguíneas mais altas e sofre maior dano miocárdico. A alternativa C inverte essa relação.
Sobre a pressão arterial, o álcool tem efeito bifásico: doses agudas podem causar vasodilatação e leve queda pressórica, mas o consumo crônico e pesado está associado a hipertensão arterial sustentada. O mecanismo envolve ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona, aumento da atividade simpática e resistência à insulina. A hipertensão é, inclusive, um dos indicadores clínicos de consumo excessivo de álcool listados na literatura. Portanto, a alternativa D está invertida.
Por fim, o consumo moderado de álcool (definido como até 1 dose/dia para mulheres e até 2 doses/dia para homens) tem sido associado a menor risco de eventos cardiovasculares, incluindo morte súbita, em estudos observacionais — o chamado paradoxo francês, atribuído a efeitos benéficos sobre o HDL, a função endotelial e a agregação plaquetária. Esse efeito protetor é controverso e não justifica recomendar álcool a abstêmios, mas a associação com maior taxa de morte súbita, como afirma a alternativa E, é incorreta. O consumo pesado, sim, aumenta o risco de arritmias fatais, especialmente fibrilação ventricular.
Guarde o tripé que decide esta questão: dose cumulativa determina o risco (B correta), abstinência reverte (A errada) e mulher é mais suscetível (C errada). É exatamente nesses três eixos que as alternativas se dividem.
Cardiomiopatia alcoólica: Relação dose-dependente (Risco ↑ com consumo cumulativo, Correlação linear (gabarito)); Reversibilidade (Abstinência reverte, Melhora da fração de ejeção); Suscetibilidade por sexo (Mulheres mais vulneráveis, Menor volume de distribuição, Menor álcool desidrogenase gástrica); Efeitos pressóricos (Consumo agudo → vasodilatação, Consumo crônico pesado → hipertensão); Consumo moderado (Menor risco de morte súbita, Efeito protetor (HDL, endotélio))
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a cardiomiopatia dilatada alcoólica é irreversível. É o oposto do que a literatura demonstra: a abstinência alcoólica é capaz de reverter ou melhorar substancialmente a disfunção ventricular, especialmente quando instituída precocemente. A melhora da fração de ejeção após a cessação do álcool é um critério diagnóstico e prognóstico fundamental. A irreversibilidade é característica de outras miocardiopatias, como a doença de Chagas em fase avançada, mas não da cardiomiopatia alcoólica.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A correlação entre a quantidade total de álcool consumida ao longo da vida e o risco de cardiomiopatia dilatada é o achado central da literatura. O dano miocárdico é cumulativo e dose-dependente: quanto maior o consumo acumulado (em gramas de etanol), maior a probabilidade de desenvolver disfunção ventricular. Essa relação linear é o que torna a alternativa B a única correta.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Inverte a suscetibilidade por sexo. As mulheres são mais suscetíveis que os homens à cardiomiopatia alcoólica, não menos. Isso decorre de diferenças farmacocinéticas — menor volume de distribuição, menor atividade da álcool desidrogenase gástrica e maior biodisponibilidade do etanol — que fazem a mulher atingir concentrações sanguíneas mais altas para a mesma dose consumida, resultando em maior cardiotoxicidade.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O consumo crônico intenso/pesado de álcool está associado a hipertensão arterial, não a baixa pressão. O efeito pressórico do álcool é bifásico: doses agudas podem causar vasodilatação, mas o uso crônico e pesado ativa o sistema renina-angiotensina-aldosterona, aumenta a atividade simpática e eleva a pressão arterial de forma sustentada. A hipertensão é, inclusive, um indicador clínico clássico de consumo excessivo de álcool.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O consumo moderado de álcool está associado a menor risco de morte súbita e de eventos cardiovasculares em estudos observacionais, não a maior. O efeito protetor é atribuído a melhoras no perfil lipídico (aumento do HDL), na função endotelial e na agregação plaquetária. O aumento do risco de morte súbita está associado ao consumo pesado, que predispõe a arritmias fatais, não ao consumo moderado.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora três inversões clássicas neste tema: (1) troca reversível por irreversível na alternativa A — a abstinência é a chave da reversibilidade; (2) troca a suscetibilidade entre sexos na alternativa C — a mulher é a mais vulnerável, não o homem; (3) troca o efeito pressórico na alternativa D — consumo crônico pesado eleva a pressão, não a reduz. Reconhecer essas inversões é o que separa o candidato preparado. 💪
PEGA ESSA DICA!
Para questões sobre álcool e coração, memorize o tripé: dose cumulativa → risco (correlação linear), abstinência → reversão (diferencial da cardiomiopatia alcoólica) e mulher → mais suscetível (farmacocinética). Se a alternativa contrariar qualquer um desses três, está errada. Essa tríade cobre a maioria das questões do tema.