Questão de Medicina — Endocrinologia — VUNESP 2025
Medicina›Endocrinologia
Código
vu092831
Banca
VUNESP
Órgão
FAMEMA
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico I - Especialidade: Endocrinologia e Metabologia
Considere um caso de amenorreia primária associada à genitália externa feminina, vagina em fundo cego, estruturas müllerianas (útero e trompas) ausentes, mamas bem desenvolvidas, pelos pubianos e axilares escassos e hérnia inguinal.Qual o diagnóstico correto desse caso?
ASíndrome de Morris.
BSíndrome de Kallmann.
CSíndrome de Turner.
DHiperplasia adrenal congênita por deficiência de 17-α-hidroxilase.
EHiperplasia adrenal congênita por deficiência de 21-hidroxilase.
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GabaritoA — Síndrome de Morris.
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Síndrome de Morris (Insensibilidade Androgênica) e Amenorreia Primária
Gabarito: letra A. O quadro descrito — genitália externa feminina, vagina em fundo cego, ausência de estruturas müllerianas (útero e trompas), mamas bem desenvolvidas, pelos pubianos e axilares escassos e hérnia inguinal — é a apresentação clássica da síndrome de insensibilidade androgênica completa (síndrome de Morris), condição em que um indivíduo com cariótipo 46,XY e testículos funcionantes apresenta fenótipo feminino por resistência periférica à ação dos andrógenos. O diagnóstico é eminentemente clínico, e a tríade "mamas desenvolvidas + ausência de útero + vagina em fundo cego" é o achado que a distingue das demais causas de amenorreia primária.
A amenorreia primária é definida como a ausência de menstruação em meninas que nunca apresentaram fluxo menstrual espontâneo, devendo ser investigada após os 14 anos em adolescentes sem desenvolvimento de caracteres sexuais secundários e sempre após os 16 anos. A investigação começa com anamnese e exame físico completos, e a presença ou ausência de caracteres sexuais secundários é o ponto de partida para a classificação das causas. Quando há mamas bem desenvolvidas (indicando níveis estrogênicos adequados), as principais causas relacionam-se a defeitos müllerianos, e a ausência de útero ao exame de imagem aponta para duas possibilidades: agenesia mülleriana (cariótipo 46,XX) ou insensibilidade androgênica (cariótipo 46,XY). A presença de pelos pubianos e axilares escassos é o diferencial crucial: na síndrome de Morris, a resistência ao andrógeno impede o desenvolvimento da pilificação, enquanto na agenesia mülleriana os pelos são normais, pois o eixo hormonal está preservado.
A síndrome de insensibilidade androgênica (SIA) é uma condição ligada ao cromossomo X, causada por mutações no gene do receptor de andrógeno. No fenótipo completo, o indivíduo 46,XY possui testículos que produzem testosterona e hormônio antimülleriano (HAM) normalmente. O HAM promove a regressão das estruturas müllerianas (útero, trompas e 2/3 superiores da vagina), resultando em vagina em fundo cego. A testosterona, por sua vez, não exerce seus efeitos por defeito no receptor, de modo que a genitália externa se desenvolve no padrão feminino e os pelos pubianos e axilares são escassos ou ausentes. As mamas, no entanto, desenvolvem-se plenamente, pois o estrogênio, produzido pela aromatização periférica da testosterona, atua normalmente. Os testículos podem estar localizados no abdome, no canal inguinal (manifestando-se como hérnia inguinal) ou nos grandes lábios.
A hérnia inguinal em uma paciente com fenótipo feminino é um sinal de alerta importante: em meninas com hérnia inguinal, a possibilidade de SIA deve ser considerada, pois o conteúdo herniário pode ser um testículo. Na prática, a presença de "hérnia inguinal" em uma adolescente com amenorreia primária e mamas desenvolvidas é um forte indício de SIA, e a palpação de uma gônada no saco herniário confirma a suspeita. O diagnóstico é confirmado pelo cariótipo 46,XY e pela dosagem de testosterona e hormônio antimülleriano, que estarão em níveis masculinos ou elevados.
A distinção entre a SIA e a agenesia mülleriana (síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser) é essencial, pois ambas cursam com ausência de útero e vagina em fundo cego, mas diferem no cariótipo e na pilificação. Na agenesia mülleriana, o cariótipo é 46,XX, os ovários são funcionantes e os pelos pubianos e axilares são normais, pois a produção de andrógenos ovarianos e adrenais está preservada. Na SIA, o cariótipo é 46,XY e a pilificação é escassa ou ausente, justamente pela resistência ao andrógeno. Essa diferença na pilificação é o achado clínico que permite a distinção antes mesmo do cariótipo.
A banca explora a confusão entre as causas de amenorreia primária com caracteres sexuais secundários presentes. O candidato que memoriza apenas "amenorreia + ausência de útero" pode cair na alternativa de agenesia mülleriana, mas a presença de pelos escassos e hérnia inguinal direciona inequivocamente para a SIA. Guarde a tríade: mamas desenvolvidas + ausência de útero + pelos escassos = síndrome de Morris. É exatamente essa combinação que separa a alternativa correta das demais.
Amenorreia primária
1Com caracteres sexuais secundários (mamas)
Útero ausente
Síndrome de Morris (46,XY)
Pelos escassos
Hérnia inguinal
Agenesia mülleriana (46,XX)
Pelos normais
Útero presente
Defeitos müllerianos
2Sem caracteres sexuais secundários
Síndrome de Kallmann
Anosmia
Síndrome de Turner
Estigmas somáticos
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A síndrome de Morris (insensibilidade androgênica completa) é a única que explica todos os achados do enunciado. O indivíduo 46,XY tem testículos que produzem hormônio antimülleriano, levando à regressão das estruturas müllerianas (ausência de útero e trompas) e à vagina em fundo cego. A resistência ao andrógeno impede a pilificação (pelos escassos), mas o estrogênio, derivado da aromatização da testosterona, promove o desenvolvimento mamário normal. A hérnia inguinal ocorre pela localização ectópica dos testículos no canal inguinal. O fenótipo é feminino, com genitália externa feminina, e a amenorreia primária é a regra, pois não há útero para menstruar.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A síndrome de Kallmann é uma causa de hipogonadismo hipogonadotrófico, caracterizada por deficiência de GnRH associada a anosmia ou hiposmia. Nessa condição, há ausência de desenvolvimento de caracteres sexuais secundários (mamas ausentes, pelos escassos), pois o eixo hipotálamo-hipófise-gônada não é ativado. O útero e as trompas estão presentes, porém hipoplásicos, e a genitália externa é feminina, mas infantil. A hérnia inguinal não faz parte do quadro. A alternativa erra ao descrever mamas bem desenvolvidas, que são incompatíveis com o hipoestrogenismo da síndrome de Kallmann.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A síndrome de Turner (disgenesia gonadal, cariótipo 45,X) manifesta-se com ausência de desenvolvimento puberal, ou seja, mamas ausentes e pelos pubianos escassos, além de estigmas somáticos como baixa estatura, pescoço alado, tórax em sino e cúbito valgo. As gônadas são disgenéticas (streak gonads), não produzem estrogênio nem hormônio antimülleriano, de modo que o útero e as trompas estão presentes, porém hipoplásicos, e a vagina é normal. A hérnia inguinal não é característica. A alternativa erra ao descrever mamas bem desenvolvidas e ausência de útero, que não são compatíveis com a síndrome de Turner.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A hiperplasia adrenal congênita por deficiência de 17-α-hidroxilase é uma forma rara que cursa com hipertensão arterial e hipopotassemia, devido ao acúmulo de desoxicorticosterona (um mineralocorticoide). Em indivíduos 46,XY, há genitália externa feminina ou ambígua (pois a síntese de andrógenos está bloqueada), mas as estruturas müllerianas estão presentes (útero e trompas), pois o hormônio antimülleriano não é produzido em quantidade suficiente. As mamas podem se desenvolver na puberdade, mas os pelos pubianos e axilares são escassos. A hérnia inguinal não é característica. A alternativa erra ao descrever ausência de útero, que não ocorre nessa condição.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A hiperplasia adrenal congênita por deficiência de 21-hidroxilase é a forma mais comum (cerca de 95% dos casos) e cursa com excesso de andrógenos, levando à virilização da genitália externa em recém-nascidos do sexo feminino (aumento de clitóris, fusão labial e formação de seio urogenital). Na forma clássica perdedora de sal, há crise adrenal neonatal com hiponatremia e hiperpotassemia. As estruturas müllerianas (útero e trompas) estão presentes, e a vagina é normal, embora possa haver seio urogenital. As mamas podem se desenvolver, mas os pelos pubianos e axilares são excessivos (hirsutismo), não escassos. A hérnia inguinal não é característica. A alternativa erra ao descrever ausência de útero e pelos escassos, que são incompatíveis com o hiperandrogenismo da doença.
Gabarito: letra A — síndrome de Morris, pela tríade mamas desenvolvidas + ausência de útero + pelos escassos, com hérnia inguinal como pista adicional.