Pular para o conteúdo principal

Questão de Medicina — Endocrinologia — VUNESP 2025

MedicinaEndocrinologia
Código
vu092837
Banca
VUNESP
Órgão
FAMEMA
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico I - Especialidade: Endocrinologia e Metabologia
Assinale a alternativa correta com relação ao hipogonadismo masculino.
  1. AOs níveis de testosterona total e livre se elevam a partir do décimo dia de aplicação diária do gel de testosterona no tratamento do hipogonadismo.
  2. BA fração da testosterona não ligada ou livre, que é a biologicamente ativa, representa apenas 1% a 4% da testosterona circulante.
  3. CDevido ao risco de eritrocitose, não se recomenda iniciar terapia de reposição com testosterona em pacientes com valores basais de hematócrito acima de 40%.
  4. DO undecilato de testosterona é a melhor opção para homens jovens hipogonádicos que desejam preservar a fertilidade.
  5. EAs formulações com cipionato de testosterona ou a combinação de diferentes ésteres de testosterona são consideradas de longa duração.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — A fração da testosterona não ligada ou livre, que é a biologicamente ativa, representa apenas 1% a 4% da testosterona circulante.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Hipogonadismo masculino: fisiologia da testosterona e terapia de reposição

Gabarito: letra B. A fração livre (não ligada) da testosterona é a biologicamente ativa e corresponde a apenas 1% a 4% da testosterona circulante total — dado clássico de fisiologia endócrina. As demais alternativas erram ao afirmar prazos de ação do gel, contraindicações por hematócrito, indicação de preservação de fertilidade ou classificação de duração das formulações.

O hipogonadismo masculino é a síndrome decorrente da deficiência de testosterona e/ou de espermatogênese, podendo ser primário (falência testicular, com LH/FSH elevados) ou secundário (disfunção hipotalâmico-hipofisária, com gonadotrofinas baixas ou inapropriadamente normais). A testosterona circula no sangue em três frações: ligada à SHBG (globulina ligadora de hormônios sexuais), ligada à albumina e livre. A fração livre — e, em menor grau, a ligada à albumina (que se dissocia facilmente) — é a que penetra nas células-alvo e exerce ação androgênica. Por isso, a dosagem da testosterona livre é útil em situações de alteração da SHBG, mas a diretriz prática recomenda iniciar a investigação pela testosterona total, confirmando com segunda dosagem matinal.

No tratamento, a terapia de reposição de testosterona (TRT) visa restaurar níveis fisiológicos e aliviar sintomas como disfunção erétil, redução da libido, fadiga e perda de massa óssea. As formulações disponíveis incluem injetáveis de ação intermediária (enantato e cipionato, aplicados a cada 2–4 semanas), géis e adesivos transdérmicos (uso diário), pellets subcutâneos de liberação prolongada e formulações orais. Cada via tem perfil farmacocinético próprio: os géis elevam a testosterona de forma gradual, atingindo níveis estáveis em poucos dias, e não em dez dias como afirma a alternativa A. Os injetáveis de ésteres de testosterona, por sua vez, são considerados de ação intermediária, não de longa duração — essa classificação é reservada aos pellets e ao undecilato de testosterona injetável de depósito.

Um ponto crítico da TRT é o impacto na fertilidade: a testosterona exógena suprime o eixo gonadotrófico, reduzindo a produção de espermatozoides. Por isso, em homens jovens que desejam preservar a fertilidade, a TRT não é a primeira escolha — recomenda-se avaliação com medicina reprodutiva e, se possível, uso de gonadotrofinas (hCG) ou outras estratégias. A alternativa D inverte exatamente essa lógica. Outro ponto é o monitoramento do hematócrito: a TRT pode causar eritrocitose (policitemia), especialmente com formulações injetáveis, e o hematócrito basal deve ser verificado antes do início. Contudo, a contraindicação não se dá com valores acima de 40% — esse é um valor fisiológico normal; a preocupação surge com hematócrito acima de 52% a 54%, quando se deve evitar ou ajustar a terapia.

A banca explora aqui o conhecimento de farmacocinética e de indicações clínicas da TRT. A pegadinha central está na alternativa A, que atribui ao gel um prazo de ação que não corresponde à realidade (o gel atinge níveis estáveis em dias, não em dez dias), e na alternativa C, que usa um valor de hematócrito normal (40%) como se fosse contraindicação. A alternativa B, por sua vez, é a única que reproduz fielmente um dado de fisiologia — a fração livre representa 1% a 4% da testosterona circulante.

Característica

Testosterona livre

Testosterona ligada à SHBG

Testosterona ligada à albumina

Proporção da testosterona circulante

1% a 4%

40% a 50%

50% a 60%

Atividade biológica

Ativa (penetra nas células-alvo)

Inativa (ligação forte)

Parcialmente ativa (dissocia-se facilmente)

Relevância clínica

Útil na investigação quando há alteração da SHBG

Aumenta em condições como hipotireoidismo

Aumenta em obesidade (menor SHBG)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Afirma que os níveis de testosterona total e livre se elevam a partir do décimo dia de aplicação diária do gel. Na prática, o gel de testosterona (uso diário) promove elevação gradual dos níveis, que se estabilizam em poucos dias (geralmente 2 a 5 dias), e não a partir do décimo dia. O erro está no prazo: a farmacocinética do gel é de absorção contínua, com pico em poucas horas e estado de equilíbrio em dias. A banca troca o tempo de ação de uma formulação de liberação prolongada (como pellets, que agem por meses) pelo do gel, que é de uso diário.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa reproduz o dado fisiológico correto: a testosterona livre (não ligada a proteínas) é a fração biologicamente ativa e representa apenas 1% a 4% da testosterona circulante total. A maior parte da testosterona circula ligada à SHBG (cerca de 40%–50%) e à albumina (cerca de 50%–60%), sendo a fração livre a que exerce ação nos tecidos-alvo. Esse é um conceito fundamental para entender por que a dosagem de testosterona livre é útil em situações de alteração da SHBG (como obesidade, hipotireoidismo ou uso de anticonvulsivantes), mas não deve ser o primeiro exame solicitado na investigação do hipogonadismo.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Afirma que não se recomenda iniciar TRT em pacientes com hematócrito basal acima de 40%. Esse valor é fisiológico e não contraindica a terapia. A preocupação real é com a eritrocitose (hematócrito > 52% a 54%), que pode ser induzida ou agravada pela testosterona, especialmente nas formulações injetáveis. A diretriz recomenda verificar o hematócrito basal antes de iniciar a TRT e monitorá-lo durante o tratamento, mas o limiar de contraindicação é bem mais alto. A alternativa troca o valor de alerta (52%–54%) por um valor normal (40%), configurando erro de conceito.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Afirma que o undecilato de testosterona é a melhor opção para homens jovens hipogonádicos que desejam preservar a fertilidade. Na verdade, qualquer formulação de testosterona exógena suprime o eixo gonadotrófico e reduz a espermatogênese, podendo levar a azoospermia. Para homens que desejam fertilidade futura, a conduta recomendada é avaliar a função reprodutiva antes de iniciar a TRT e considerar alternativas como gonadotrofinas (hCG, FSH) ou, em alguns casos, o uso de citrato de clomifeno. O undecilato de testosterona, por ser uma formulação de longa duração, não é exceção — também suprime a espermatogênese. A alternativa inverte a lógica: a TRT não preserva fertilidade, ela a compromete.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Afirma que o cipionato de testosterona e a combinação de diferentes ésteres são considerados de longa duração. Na classificação das formulações de testosterona, os ésteres injetáveis como enantato e cipionato são de ação intermediária, com aplicação a cada 2 a 4 semanas. As formulações de longa duração são os pellets subcutâneos (liberação por 3 a 6 meses) e o undecilato de testosterona injetável (aplicação a cada 10 a 14 semanas). A combinação de ésteres (como o Sustanon, que contém propionato, fenilpropionato, isocaproato e decanoato) também é considerada de ação intermediária, não de longa duração. A alternativa erra ao classificar essas formulações como de longa duração.

Gabarito: letra B

Link permanente: /questoes/vu092837