Cólica do Lactente: Diagnóstico Clínico e Diagnósticos Diferenciais
Gabarito: letra E. O quadro descrito — lactente de 6 semanas, choro intenso e inconsolável no final da tarde/noite, com flexão das pernas sobre o abdome, ganho ponderal adequado e exame físico normal — é o protótipo da cólica do lactente, um diagnóstico essencialmente clínico e de exclusão, caracterizado por episódios de irritabilidade e choro sem causa identificável, que se iniciam e cessam sem fator claro, sem critérios de tempo definidos (a alternativa E reproduz essa definição). A alternativa B, embora descreva a cólica, erra ao impor critérios de tempo rígidos (3 horas/dia, 3 dias/semana, 3 semanas), que não são necessários para o diagnóstico na prática clínica atual.
A cólica do lactente é um dos motivos mais comuns de consulta pediátrica nos primeiros meses de vida, gerando enorme angústia parental. Trata-se de um diagnóstico de exclusão: só pode ser afirmado quando outras causas orgânicas de choro excessivo — como alergia à proteína do leite de vaca (APLV), refluxo gastroesofágico (DRGE), intussuscepção, fissura anal, infecções, trauma ou erro de técnica alimentar — forem afastadas por anamnese detalhada e exame físico cuidadoso. O diagnóstico é puramente clínico, não existindo padrão-ouro ou exame complementar que o confirme.
A definição clássica de Wessel (1954) — choro por mais de 3 horas/dia, por mais de 3 dias/semana, por mais de 3 semanas — foi historicamente utilizada, mas critérios mais recentes (como os de Roma IV) abandonaram a rigidez temporal, priorizando a tríade: (1) lactente com menos de 5 meses; (2) episódios recorrentes e prolongados de irritabilidade, inquietação e choro, relatados pelos pais, sem causa aparente e que não podem ser prevenidos ou resolvidos pelos cuidadores; (3) sem evidência de baixo ganho ponderal, febre ou outro problema de saúde. É exatamente essa flexibilização que a alternativa E captura e a B distorce.
Na prática, o que diferencia a cólica benigna das causas orgânicas é a presença de sinais de alarme: febre, letargia, recusa alimentar, vômitos em jato ou biliosos, sangue nas fezes, distensão abdominal importante, ou ganho ponderal inadequado. A ausência desses sinais, somada ao exame físico normal, permite ao pediatra tranquilizar a família e manejar o caso com medidas de suporte — acolhimento, orientação e, em alguns casos, ajustes na técnica de amamentação. A investigação laboratorial ou de imagem só se justifica diante de sinais de alarme, nunca como rotina.
A banca explora aqui uma pegadinha clássica: o candidato que memorizou a "regra dos 3" (3 horas, 3 dias, 3 semanas) marca a alternativa B, mas a literatura atual — e a própria definição contemporânea — não exige esses critérios de tempo. A alternativa E é a mais correta justamente por descrever a cólica sem amarrá-la a um tempo mínimo, alinhando-se à prática clínica e aos critérios diagnósticos modernos. Guarde essa distinção: é ela que separa as alternativas B e E.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa sugere APLV como diagnóstico mais provável e indica exclusão da proteína do leite de vaca da dieta materna. Erro: o quadro descrito não apresenta sinais típicos de APLV, como sangue nas fezes, diarreia, vômitos persistentes, dermatite ou baixo ganho ponderal. A APLV é um diagnóstico diferencial importante, mas não o mais provável em um lactente com ganho ponderal adequado e sem sintomas gastrointestinais. A exclusão da proteína do leite de vaca da dieta materna é uma conduta reservada para casos com suspeita clínica forte de APLV, não para o quadro descrito.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa descreve a cólica do lactente, mas a define com critérios de tempo rígidos: "choro inconsolável em bebês acima de duas semanas de vida, por pelo menos 3 horas diárias, em três ou mais dias da semana, por pelo menos três semanas". Erro: embora essa seja a definição clássica de Wessel, os critérios diagnósticos atuais (Roma IV) não exigem esses parâmetros temporais. A definição moderna prioriza a tríade: lactente < 5 meses, episódios recorrentes de choro/irritabilidade sem causa aparente, e ausência de baixo ganho ponderal, febre ou outra doença. A alternativa B é uma armadilha para quem memorizou a "regra dos 3" sem atualização.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa sugere DRGE como principal hipótese e indica inibidor de bomba de prótons (IBP). Erro: o quadro descrito não apresenta sinais típicos de DRGE, como regurgitações frequentes, vômitos, irritabilidade após mamadas, arqueamento ou recusa alimentar. Além disso, a prescrição de IBP em lactentes com choro isolado não é recomendada — o uso de IBP em pediatria é restrito a casos de esofagite erosiva ou DRGE complicada, e o tratamento empírico para choro é desaconselhado. O diagnóstico de DRGE é clínico e exige sintomas compatíveis; a cólica é a hipótese mais provável.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o bebê apresenta "sinais de alarme" e indica investigação laboratorial e de imagem. Erro: o choro intenso e a flexão das pernas sobre o abdome são manifestações típicas da cólica do lactente, não sinais de alarme. Sinais de alarme seriam febre, letargia, vômitos em jato/biliosos, sangue nas fezes, distensão abdominal ou baixo ganho ponderal — todos ausentes no caso. A investigação complementar só se justifica diante desses sinais; no quadro descrito, o diagnóstico é clínico e a conduta é de acolhimento e orientação.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa descreve com precisão a cólica do lactente: "episódios de irritabilidade intensa e choro inconsolável sem causa identificável, que se inicia e cessa sem um fator claro, sem critérios de tempo definidos". Correta porque: (1) o quadro clínico é compatível — lactente de 6 semanas, choro no final da tarde/noite, flexão das pernas, ganho ponderal adequado, exame físico normal; (2) a definição moderna (Roma IV) não exige critérios de tempo rígidos, priorizando a tríade: idade < 5 meses, episódios recorrentes de choro/irritabilidade sem causa aparente, e ausência de sinais de alarme; (3) o diagnóstico é clínico e de exclusão, e a alternativa captura exatamente essa essência.
Gabarito: letra E