Gestação ectópica rota: diagnóstico e conduta
Gabarito: letra D. O quadro clínico — dor abdominal súbita, sangramento vaginal escuro, colo impérvio, dor à descompressão brusca positiva, massa anexial heterogênea de 5 cm, líquido livre em cavidade pélvica e β-hCG de 1.600 mUI/mL sem gestação intrauterina — é clássico de gestação ectópica rota, e a conduta indicada é a videolaparoscopia para tratamento cirúrgico. O diagnóstico se apoia na combinação de β-hCG > 1.500 mUI/mL com ausência de saco gestacional intrauterino à ultrassonografia, conforme a literatura obstétrica.
A gestação ectópica (GE) é toda gravidez que se implanta e se desenvolve fora da cavidade endometrial, sendo a tubária a forma mais comum. A apresentação clínica varia desde quadros assintomáticos até dor intensa com choque. Os achados mais frequentes são dor pélvica/abdominal (>95%), sangramento (70–80%), amenorreia (60–70%) e massa anexial (50–60%). No caso, a paciente tem 9 semanas de amenorreia, dor súbita, sangramento escuro e massa anexial — tudo converge para GE.
O diagnóstico é firmado pela associação de β-hCG sérico e ultrassonografia transvaginal. Quando o β-hCG é > 1.500 mUI/mL e não se visualiza gestação intrauterina, a GE é o diagnóstico provável; líquido livre e massa anexial reforçam a suspeita. No caso, o β-hCG de 1.600 mUI/mL ultrapassa o limiar, e a US mostra massa heterogênea anexial esquerda com sangue na cavidade pélvica — configurando GE rota, especialmente pela presença de líquido livre e irritação peritoneal (descompressão brusca positiva).
A conduta depende da estabilidade hemodinâmica e da integridade da trompa. Na GE rota com instabilidade ou sinais de rotura (líquido livre, peritonismo), o tratamento é cirúrgico. A videolaparoscopia é a via preferencial na paciente estável, permitindo salpingectomia ou salpingostomia. A laparotomia fica reservada para instabilidade hemodinâmica grave. Conduta expectante ou clínica (metotrexato) só se aplica a GE íntegra, com β-hCG baixo e sem sinais de rotura.
A banca explora a confusão entre os diagnósticos diferenciais de dor pélvica aguda na gestação: torção anexial, cisto de corpo lúteo hemorrágico, GE íntegra, GE rota e mola hidatiforme. O critério decisivo é a presença de líquido livre na cavidade pélvica + irritação peritoneal + β-hCG elevado sem gestação intrauterina, que aponta diretamente para GE rota. Guarde essa tríade: é ela que separa a alternativa correta das demais.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Torção de ovário; laparotomia. A torção anexial cursa com dor súbita e intensa, geralmente em mulheres jovens, com massa anexial e náuseas/vômitos, mas não cursa com sangramento vaginal escuro nem com β-hCG elevado (a paciente está grávida). Além disso, a conduta na torção é cirúrgica, porém a via preferencial é a videolaparoscopia, não a laparotomia de primeira escolha. O erro está em ignorar o sangramento vaginal e o β-hCG positivo, que apontam para gestação ectópica.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Cisto de corpo lúteo hemorrágico; sintomáticos, controle de Hb, observação clínica. O cisto de corpo lúteo hemorrágico pode causar dor e massa anexial, mas não explica o β-hCG elevado sem gestação intrauterina nem o líquido livre com irritação peritoneal. A conduta expectante seria adequada apenas para cisto roto com paciente estável e sem sinais de abdome agudo — o que não é o caso, pois há descompressão brusca positiva e líquido livre, indicando rotura de GE.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Gestação ectópica íntegra; conduta expectante com controle de Beta HCG. A GE íntegra não apresenta líquido livre em cavidade pélvica nem irritação peritoneal. A presença de sangue na cavidade pélvica e a descompressão brusca positiva indicam rotura. A conduta expectante com controle de β-hCG é reservada para GE com β-hCG baixo e sem sinais de rotura; aqui, o β-hCG é 1.600 mUI/mL e há sinais de abdome agudo, exigindo cirurgia.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Gestação ectópica rota; videolaparoscopia. A combinação de β-hCG > 1.500 mUI/mL sem gestação intrauterina, massa anexial heterogênea, líquido livre em cavidade pélvica e descompressão brusca positiva é diagnóstica de GE rota. A conduta é cirúrgica, e a videolaparoscopia é a via de escolha na paciente hemodinamicamente estável (PA 100x70 mmHg, FC 90 bpm, BEG). A laparoscopia permite confirmar o diagnóstico, aspirar o hemoperitônio e realizar salpingectomia ou salpingostomia.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Mola hidatiforme; esvaziamento uterino. A mola hidatiforme cursa com β-hCG extremamente elevado (muitas vezes > 100.000 mUI/mL), útero aumentado para a idade gestacional e imagem em "cacho de uvas" à US, sem massa anexial heterogênea com líquido livre. O β-hCG de 1.600 mUI/mL é baixo para mola, e a presença de massa anexial com líquido livre aponta para GE rota. O esvaziamento uterino não tem indicação aqui.
Gabarito: letra D.