Questão de Medicina — Doenças Infecto-Parasitárias — VUNESP 2025
Medicina›Doenças Infecto-Parasitárias
Código
vu092962
Banca
VUNESP
Órgão
FAMEMA
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico I - Especialidade: Infectologia
Paciente de 64 anos, jardineiro, refere ferimento perfurocortante na mão esquerda há 5 dias, com saída de secreção purulenta e dor local; febre não aferida . Foi atendido na unidade básica de saúde, onde fez uso de penicilina benzatina, 1.200.000 UI, dose única, intramuscular, e dose de reforço da vacina antitetânica. Devido à piora do quadro e febre há 24 horas, deu entrada na unidade de emergência, trazido pelos vizinhos. Na entrada, estava em mau estado geral, descorado, desidratado, acianótico, taquipneico, febril, anictérico e confuso. Escala de Glasgow de 13. Frequência cardíaca de 124 batimentos por minuto, frequência respiratória de 28 respirações por minuto, pressão arterial de 80 por 50 mmHg, saturação de oxigênio de 94%, temperatura de 38,8 ºC. Ausência de rigidez de nuca e déficits motores. Aparelho cardiovascular: bulhas rítmicas normofonéticas com sopro sistólico em foco aórtico. Aparelho respiratório com murmúrio vesicular presente com estertores subcrepitantes em bases bilaterais. Abdome plano, flácido, fígado palpável a 4 cm e baço percutível. Ruídos hidroaéreos presentes. Petéquias nas mãos e membros inferiores. Realizado hemograma na entrada, que evidenciou hemoglobina de 10,2 mg/dl (valor de referência de 12 a 16), hematócrito de 30,6% (valor de referência de 35 a 45), leucócitos: 22.400, neutrófilos de 94% e linfócitos 6% (valor de referência de 4.500-11.000), plaquetas: 102.000 (valor de referência de 150.000 a 450.000), proteína C reativa: 184 (normal até 1).A principal hipótese diagnóstica para o caso é:
Apericardite.
Bleptospirose.
Cpneumonia adquirida na comunidade.
Dmeningite.
Eendocardite bacteriana.
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GabaritoE — endocardite bacteriana.
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Endocardite Infecciosa: diagnóstico sindrômico na emergência
Gabarito: letra E. O quadro é de endocardite bacteriana — sepse com sopro cardíaco novo, petéquias, esplenomegalia e anemia em paciente com porta de entrada (ferimento perfurocortante) e bacteremia. A tríade febre + sopro + fenômenos embólicos/imunológicos, somada ao hemograma com leucocitose e trombocitopenia, fecha o diagnóstico sindrômico. As demais alternativas não explicam o conjunto de achados.
A endocardite infecciosa é a infecção do endocárdio, mais comumente das valvas cardíacas, por microrganismos que atingem a corrente sanguínea. O paciente tem um fator de risco clássico: ferimento perfurocortante na mão, que serve de porta de entrada para bactérias da pele (como Staphylococcus aureus). A bacteremia resultante coloniza a valva — aqui sugerida pelo sopro sistólico em foco aórtico — e desencadeia uma resposta inflamatória sistêmica que explica febre, taquicardia, taquipneia, hipotensão e confusão mental (sepse).
Os achados periféricos são a chave do raciocínio. As petéquias em mãos e membros inferiores são manifestações cutâneas clássicas, decorrentes de microembolização ou vasculite imunomediada. O baço percutível (esplenomegalia) e o fígado palpável a 4 cm (hepatomegalia) refletem a ativação do sistema reticuloendotelial na resposta à infecção prolongada. A anemia (Hb 10,2) e a trombocitopenia (plaquetas 102.000) são achados laboratoriais frequentes na endocardite, por consumo, sequestro esplênico e supressão medular. O leucograma com desvio à esquerda (22.400 leucócitos, 94% neutrófilos) e a PCR de 184 confirmam o processo infeccioso-inflamatório grave.
O diagnóstico definitivo é feito pelos critérios de Duke modificados, que combinam critérios maiores (hemocultura positiva, ecocardiograma com vegetação) e menores (febre, fenômenos vasculares, fenômenos imunológicos, fatores predisponentes). Na emergência, porém, o reconhecimento sindrômico é o que importa: febre + sopro cardíaco + fenômenos embólicos/imunológicos + porta de entrada em paciente séptico é endocardite até prova em contrário. A conduta imediata é coletar hemoculturas e iniciar antibioticoterapia empírica, além de ecocardiograma transtorácico.
A pegadinha da questão está em não se fixar no sintoma respiratório (taquipneia, estertores) ou no neurológico (confusão), que são inespecíficos e comuns a qualquer sepse. O que diferencia é a combinação de sopro + petéquias + esplenomegalia + anemia, que aponta diretamente para o coração como foco infeccioso. Guarde o mnemônico dos achados periféricos da endocardite — petéquias, esplenomegalia, anemia, sopro — e a fronteira com as outras hipóteses fica clara.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A pericardite cursa com dor torácica pleurítica, atrito pericárdico e, em casos de tamponamento, hipotensão com bulhas hipofonéticas e estase jugular. O paciente tem sopro sistólico (não atrito) e não há referência a dor torácica ou sinais de tamponamento. A pericardite não explica petéquias, esplenomegalia ou anemia na mesma proporção.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A leptospirose é uma zoonose que cursa com febre, mialgia, sufusão conjuntival e, nas formas graves, icterícia rubínica, insuficiência renal e hemorragia pulmonar. O paciente é anictérico (sem icterícia), não tem mialgia descrita nem sufusão conjuntival, e o sopro cardíaco não é explicado pela leptospirose. A profissão de jardineiro poderia sugerir exposição a água contaminada, mas o quadro clínico não fecha.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A pneumonia adquirida na comunidade explicaria febre, taquipneia, hipoxemia e estertores subcrepitantes, mas não explica o sopro sistólico, as petéquias, a esplenomegalia ou a anemia. Os estertores em bases bilaterais podem ser decorrentes de edema pulmonar por disfunção ventricular secundária à endocardite, ou mesmo de um foco pulmonar concomitante, mas não são o diagnóstico principal.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A meningite cursa com febre, cefaleia, rigidez de nuca e alteração do nível de consciência. O paciente está confuso (Glasgow 13), mas não há rigidez de nuca — sinal meníngeo clássico — nem déficits motores. A confusão mental é explicada pela sepse (encefalopatia séptica), não por infecção do sistema nervoso central. O sopro e as petéquias também não são explicados pela meningite.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A endocardite bacteriana explica todos os achados: porta de entrada (ferimento), bacteremia, sopro sistólico (vegetação em valva aórtica), petéquias (fenômenos embólicos), esplenomegalia (ativação reticuloendotelial), anemia e trombocitopenia (consumo e supressão), além da sepse com disfunção de múltiplos órgãos. O quadro é de endocardite aguda, provavelmente por Staphylococcus aureus, com evolução rápida e mau prognóstico se não tratada precocemente.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre os sintomas inespecíficos da sepse (taquipneia, confusão, estertores) e o foco infeccioso real. O candidato que se fixa no aparelho respiratório escolhe pneumonia; o que se fixa no neurológico escolhe meningite. O segredo é olhar o coração: sopro novo + petéquias + esplenomegalia + anemia em paciente séptico é endocardite até prova em contrário. Com treino, você enxerga essa combinação de longe 💪