Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — VUNESP 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
vu092983
Banca
VUNESP
Órgão
FAMEMA
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico I - Especialidade: Medicina Intensiva Pediátrica
Criança de 1 ano e 11 meses, 12 kg, com histórico de tosse persistente há cerca de 15 dias, deu entrada no pronto-socorro. A partir da hipótese diagnóstica de estado de mal asmático, a criança recebeu salbutamol em nebulização três vezes sem melhora, metilprednisolona 2 mg/kg e sulfato de magnésio 50 mg/kg em 30 minutos. Como não houve melhora, optou-se por instalar cateter nasal de alto fluxo, 20 litros/minuto com FiO₂ de 50%; com isso, manteve-se saturação de oxigênio de 92%. O paciente foi encaminhado para a UTI com desconforto respiratório moderado, frequência respiratória de 55, retração intercostal e subdiafragmática, estável hemodinamicamente. A família nega broncoespasmo pregresso e infecção de vias aéreas superiores – mas a irmã mais velha, de 5 anos, teve gripe há uma semana – e relata que a criança teria melhorado após uso de prednisolona por cinco dias, mas depois voltou a tossir e, de ontem para hoje, apresentou piora do desconforto respiratório. Relata ainda que a criança sofreu um engasgo durante o almoço há cerca de 15 dias, comendo arroz integral. Já havia passado em consulta com o pediatra e também fez uma avaliação com um pneumologista, que a medicou com salbutamol e prednisolona .A figura a seguir apresenta a radiografia de tórax dessa paciente:(Arquivo pessoal; imagem usada com autorização)Nesse caso, a hipótese diagnóstica e a conduta corretas são, respectivamente:
Ainsuficiência respiratória por aspiração de corpo estranho; solicitar broncoscopia de urgência.
Binsuficiência respiratória por crise asmática; realizar ataque de salbutamol endovenoso (10 mcg/kg a 15 mcg/kg em 10 minutos) e iniciar infusão contínua (0,1 mcg/kg/minuto), titulando rapidamente – se não houver melhora clínica, realizar intubação e iniciar ventilação mecânica invasiva.
Cinsuficiência respiratória por bronquiolite; tentar ventilação não invasiva – se não houver melhora, realizar intubação e iniciar ventilação mecânica invasiva.
Dinsuficiência respiratória por crise asmática; tentar ventilação não invasiva – se não houver melhora, realizar intubação e iniciar ventilação mecânica invasiva.
Einsuficiência respiratória por crise asmática; tentar uso de salbutamol contínuo utilizando o dispositivo Aerogen, que consegue atingir melhores níveis do beta-agonista no pulmão.
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GabaritoA — insuficiência respiratória por aspiração de corpo estranho; solicitar broncoscopia de urgência.
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Aspiração de corpo estranho em pediatria
Gabarito: letra A. A hipótese diagnóstica é insuficiência respiratória por aspiração de corpo estranho e a conduta correta é solicitar broncoscopia de urgência. O quadro clínico — criança de 1 ano e 11 meses com tosse persistente há 15 dias, engasgo prévio com arroz integral, melhora transitória com corticoide e piora progressiva, além de radiografia de tórax compatível — é clássico de corpo estranho em via aérea, e não de crise asmática ou bronquiolite. A broncoscopia rígida é o padrão-ouro tanto para diagnóstico quanto para tratamento.
A aspiração de corpo estranho é uma emergência pediátrica comum, especialmente em crianças entre 1 e 3 anos, fase em que exploram o mundo pela boca e ainda não têm dentição molar completa para mastigar adequadamente. Alimentos como amendoim, milho, feijão e grãos — como o arroz integral do caso — são os principais agentes. O mecanismo fisiopatológico envolve a obstrução parcial ou total da via aérea, levando a um quadro de tosse, sibilância e desconforto respiratório que pode mimetizar asma, bronquiolite ou pneumonia de repetição.
A apresentação clínica é marcada por três fases clássicas: (1) fase inicial — episódio agudo de engasgo, tosse e cianose, que pode passar despercebido ou ser subestimado pelos pais; (2) fase assintomática — o corpo estranho se aloja e os sintomas diminuem, criando uma falsa sensação de melhora; (3) fase de complicações — surgem tosse persistente, sibilância localizada, pneumonia de repetição ou atelectasia, dias a semanas após o evento inicial. No caso descrito, a criança teve o engasgo há 15 dias, apresentou melhora com prednisolona (provavelmente pelo efeito anti-inflamatório sobre a mucosa irritada), mas voltou a tossir e piorou — exatamente o padrão de evolução em três fases.
O diagnóstico diferencial com asma é o ponto central da questão. Na asma, espera-se história prévia de broncoespasmo, atopia, resposta consistente ao broncodilatador e sibilância difusa bilateral. Aqui, a família nega broncoespasmo pregresso, o quadro começou após um episódio de engasgo com alimento sólido, e a resposta ao salbutamol foi ausente — três pistas fortes contra asma. A radiografia de tórax, embora não descrita em detalhes, tipicamente mostra hiperinsuflação unilateral, atelectasia ou consolidação segmentar, achados que reforçam a suspeita de obstrução mecânica por corpo estranho.
A conduta diante da suspeita de aspiração de corpo estranho com insuficiência respiratória é a broncoscopia de urgência, preferencialmente rígida, que permite tanto a visualização quanto a remoção do objeto. A broncoscopia flexível pode ser utilizada em casos selecionados, mas a rígida é o padrão-ouro em crianças pela melhor capacidade de extração. Medidas como salbutamol, corticoide e magnésio — já administradas no caso — são ineficazes porque não resolvem a obstrução mecânica; servem apenas como suporte enquanto se prepara a broncoscopia.
A pegadinha da banca está em oferecer alternativas que tratam o quadro como asma refratária ou bronquiolite, quando a chave diagnóstica é o engasgo prévio com alimento sólido e a falta de resposta ao broncodilatador. O candidato que se fixa apenas nos sintomas respiratórios — tosse, sibilância, desconforto — pode cair na armadilha de escolher uma conduta para asma, ignorando o dado epidemiológico e a história clínica que apontam diretamente para corpo estranho.
1Fase inicial: engasgo, tosse, cianose
2Fase assintomática: sintomas diminuem
3Fase de complicações: tosse, sibilância, pneumonia
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa identifica corretamente a insuficiência respiratória por aspiração de corpo estranho e propõe a conduta adequada: broncoscopia de urgência. O quadro clínico é típico: criança na faixa etária de risco (1 a 3 anos), episódio de engasgo com alimento sólido (arroz integral) há 15 dias, tosse persistente, melhora transitória com corticoide e piora progressiva, sem história prévia de asma. A broncoscopia é o procedimento padrão-ouro para diagnóstico e tratamento, pois permite visualizar e remover o corpo estranho, resolvendo a obstrução mecânica que não responde a broncodilatadores ou corticoides.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa erra ao diagnosticar crise asmática e propor salbutamol endovenoso. O paciente não tem história de asma, não respondeu ao salbutamol inalatório e apresenta um episódio claro de engasgo com alimento sólido. O salbutamol EV é uma medida de exceção em asma grave refratária, mas aqui o problema é mecânico — um corpo estranho obstruindo a via aérea — e nenhuma dose de broncodilatador vai resolver. A conduta correta é a broncoscopia para remoção do objeto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa sugere bronquiolite, mas o quadro não se encaixa: bronquiolite é uma infecção viral aguda que acomete principalmente lactentes menores de 2 anos, com pródromo de coriza e febre baixa, e o diagnóstico é clínico, sem relação com engasgo prévio. A criança tem 1 ano e 11 meses, teve um episódio de engasgo com arroz integral e apresenta tosse persistente há 15 dias — história muito mais compatível com aspiração de corpo estranho. Além disso, a conduta proposta (VNI e intubação) não trata a causa, que é a obstrução mecânica.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa repete o erro do diagnóstico de crise asmática e propõe ventilação não invasiva como conduta. A VNI pode ser um suporte temporário, mas não resolve a obstrução por corpo estranho. O diagnóstico correto é aspiração de corpo estranho, e a conduta é broncoscopia de urgência. A criança não tem história de asma, não respondeu ao broncodilatador e teve engasgo com alimento sólido — dados que afastam a crise asmática e apontam para obstrução mecânica.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa também erra ao diagnosticar crise asmática e propõe o uso de salbutamol contínuo com Aerogen. O Aerogen é um dispositivo de nebulização que pode melhorar a deposição pulmonar do fármaco, mas é inútil diante de uma obstrução mecânica por corpo estranho. O paciente não tem asma, não respondeu ao salbutamol inalatório convencional e apresenta história de engasgo com alimento sólido — o que torna a broncoscopia a conduta obrigatória.