Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — VUNESP 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
vu092998
Banca
VUNESP
Órgão
FAMEMA
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico I - Especialidade: Medicina Intensiva Pediátrica
Uma lactente de 5 meses, do sexo feminino, foi internada na UTI com uma hipótese diagnóstica de choque séptico. Apresenta síndrome de Down e defeito do septo atrioventricular com moderada repercussão. Está em uso de carvedilol, captopril e furosemida. Aguarda agendamento cirúrgico para correção total da cardiopatia. Vem apresentando febre, há três dias, de até 38 ºC. Realizou-se raio-X do tórax (figura a seguir), administrou-se a primeira dose de ceftriaxona, e a paciente foi encaminhada para a UTI.(Arquivo pessoal; imagem usada com autorização)Ao exame físico, encontra-se sonolenta, mas abre os olhos ao chamado. Frequência respiratória: 65; batimento de aleta nasal; retração intercostal e subdiafragmática; saturação de 91% com máscara não reinalante 15 L/minuto; FC: 175; tempo de enchimento capilar de 5 segundos; pressão arterial: 75 x 55. Ausculta cardíaca: bulhas rítmicas normofonéticas com sopro sistólico +++. Ausculta pulmonar: murmúrio vesicular presente bilateralmente com estertoração crepitante bilateral nas bases. Abdome: globoso, flácido, doloroso à palpação do hipocôndrio direito, com fígado palpável a 4 cm do rebordo costal direito.Com relação à hipótese diagnóstica e à conduta adequada, é correto afirmar que se trata de choque
Acardiogênico compensado, com classificação de insuficiência cardíaca congestiva classe C (frio e úmido). Deve-se introduzir droga inotrópica e vasodilatadora, como milrinona.
Bséptico hipodinâmico hipotensivo. Deve-se introduzir droga vasopressora, como norepinefrina.
Cséptico hiperdinâmico compensado. Deve-se introduzir droga inotrópica e vasodilatadora, como epinefrina.
Dcardiogênico compensado, com classificação de insuficiência cardíaca congestiva classe B (quente e úmido). Deve-se introduzir restrição hídrica e diurético de alça endovenoso.
Ecardiogênico hipotensivo, com classificação de insuficiência cardíaca congestiva classe D (a mais grave de todas). Deve-se introduzir dobutamina associada a epinefrina em dose baixa.
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GabaritoA — cardiogênico compensado, com classificação de insuficiência cardíaca congestiva classe C (frio e úmido). Deve-se introduzir droga inotrópica e vasodilatadora, como milrinona.
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Choque cardiogênico em lactente com cardiopatia congênita
Gabarito: letra A. A lactente apresenta choque cardiogênico compensado, classificado como classe C (frio e úmido) pela classificação de insuficiência cardíaca congestiva, e a conduta adequada é a introdução de droga inotrópica e vasodilatadora, como a milrinona. O diagnóstico se baseia na presença de cardiopatia estrutural (defeito do septo atrioventricular), sinais de baixo débito (tempo de enchimento capilar de 5 segundos, taquicardia, hipotensão) e congestão pulmonar (estertoração crepitante, desconforto respiratório), configurando um perfil hemodinâmico frio e úmido, típico de disfunção miocárdica primária, e não de choque séptico hiperdinâmico.
O choque cardiogênico é a síndrome de baixo débito cardíaco resultante de disfunção miocárdica primária, que compromete a perfusão tecidual e leva a hipóxia celular. Na criança, as causas mais comuns são as cardiopatias congênitas, miocardites e arritmias. A fisiopatologia envolve a falência da bomba cardíaca, com redução do débito cardíaco, ativação neuro-hormonal compensatória (taquicardia, vasoconstrição periférica) e, consequentemente, congestão venosa pulmonar e sistêmica. A lactente do caso tem um substrato claro: defeito do septo atrioventricular com moderada repercussão, em uso de medicações para insuficiência cardíaca (carvedilol, captopril e furosemida), o que indica disfunção miocárdica prévia. A febre e a suspeita de sepse são fatores precipitantes que podem descompensar um coração já comprometido, mas o quadro clínico predominante é de choque cardiogênico.
A classificação hemodinâmica do choque em crianças, baseada na avaliação clínica da perfusão periférica e da volemia, divide-se em quatro perfis: quente e úmido (vasodilatação com congestão), quente e seco (vasodilatação sem congestão), frio e úmido (vasoconstrição com congestão) e frio e seco (vasoconstrição sem congestão). A paciente apresenta tempo de enchimento capilar de 5 segundos (prolongado, indicando vasoconstrição periférica), extremidades frias (implícito no perfil frio), taquicardia, hipotensão, e estertoração crepitante bilateral com hepatomegalia (sinais de congestão pulmonar e sistêmica). Portanto, o perfil é frio e úmido, que corresponde à classe C da classificação de insuficiência cardíaca congestiva. A classe B seria quente e úmido, e a classe D é a mais grave, com choque cardiogênico refratário.
A conduta no choque cardiogênico com perfil frio e úmido visa melhorar o débito cardíaco e reduzir a congestão. A milrinona é um inibidor da fosfodiesterase III que possui ação inotrópica positiva e vasodilatadora, sendo particularmente útil nesse cenário, pois aumenta o débito cardíaco sem aumentar significativamente o consumo de oxigênio miocárdico. A norepinefrina é um vasopressor de primeira linha no choque séptico, mas não é a droga de escolha no choque cardiogênico compensado, onde o problema central é a contratilidade, não a resistência vascular. A epinefrina é um inotrópico com ação vasopressora, mas não é a primeira escolha no perfil frio e úmido. A restrição hídrica e diurético de alça são medidas adjuvantes para congestão, mas não tratam o baixo débito. A dobutamina associada à epinefrina é uma opção para choque cardiogênico refratário (classe D), não para o compensado.
A distinção crucial entre choque cardiogênico e séptico reside na fisiopatologia e na apresentação clínica. No choque séptico, há um foco infeccioso que desencadeia uma resposta inflamatória sistêmica, levando a vasodilatação periférica (choque quente) e, posteriormente, a disfunção miocárdica (choque frio). No choque cardiogênico, a disfunção miocárdica é primária, e a vasoconstrição periférica é uma resposta compensatória. A paciente tem febre e recebeu ceftriaxona, mas os sinais de congestão (estertoração, hepatomegalia) e o perfil frio e úmido são mais sugestivos de choque cardiogênico descompensado por um fator estressante (infecção). A banca explora exatamente essa confusão: a presença de febre e a hipótese inicial de choque séptico podem induzir o candidato a escolher uma alternativa de choque séptico, mas a análise hemodinâmica detalhada aponta para o choque cardiogênico.
Guarde o critério decisivo: a presença de congestão pulmonar e sistêmica (estertoração, hepatomegalia) associada a sinais de baixo débito (TEC prolongado, taquicardia, hipotensão) em uma criança com cardiopatia estrutural define o choque cardiogênico com perfil frio e úmido (classe C). É nessa fronteira que as alternativas se dividem.
Critério
Choque Cardiogênico (Classe C)
Choque Séptico (Hipodinâmico)
Fisiopatologia
Disfunção miocárdica primária (baixo débito)
Resposta inflamatória sistêmica com vasodilatação e disfunção miocárdica secundária
Perfusão periférica
Fria (TEC prolongado, vasoconstrição)
Quente (fase hiperdinâmica) ou fria (fase hipodinâmica)
Congestão
Presente (estertoração, hepatomegalia)
Variável (pode haver, mas não é o achado central)
Droga de escolha
Milrinona (inotrópico + vasodilatador)
Norepinefrina (vasopressor)
Choque cardiogênico (perfil frio e úmido): Classe B (quente e úmido) (Vasodilatação + congestão, Conduta: diurético); Classe C (frio e úmido) (Vasoconstrição + congestão, Conduta: milrinona); Classe D (frio e seco) (Refratário, Conduta: dobutamina + epinefrina)
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa está correta ao identificar o choque cardiogênico compensado, classe C (frio e úmido), e indicar a milrinona como droga inotrópica e vasodilatadora. A paciente tem cardiopatia congênita (defeito do septo atrioventricular), sinais de baixo débito (TEC 5s, FC 175, PA 75x55) e congestão (estertoração crepitante, hepatomegalia a 4 cm). O perfil frio e úmido corresponde à classe C, e a milrinona é a droga de escolha por melhorar a contratilidade e reduzir a pós-carga, sem aumentar excessivamente o consumo de oxigênio miocárdico.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa erra ao classificar o quadro como choque séptico hipodinâmico hipotensivo. Embora a paciente tenha febre e hipotensão, os sinais de congestão (estertoração, hepatomegalia) e o perfil frio e úmido são mais compatíveis com choque cardiogênico. A norepinefrina é o vasopressor de primeira linha no choque séptico, mas não é a droga inicial no choque cardiogênico compensado, onde o problema é a contratilidade, não a resistência vascular. A hipótese de sepse pode ser um fator precipitante, mas o quadro hemodinâmico predominante é cardiogênico.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa erra ao classificar o quadro como choque séptico hiperdinâmico compensado. O choque séptico hiperdinâmico (quente) apresenta extremidades quentes, pulso amplo e TEC normal, o que não ocorre na paciente (TEC 5s, perfil frio). A epinefrina é um inotrópico com ação vasopressora, mas não é a primeira escolha no perfil frio e úmido do choque cardiogênico. A paciente tem sinais de congestão e baixo débito, típicos de choque cardiogênico, não de choque séptico hiperdinâmico.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa erra ao classificar o quadro como classe B (quente e úmido). A classe B é caracterizada por extremidades quentes, TEC normal e congestão, o que não se aplica à paciente, que apresenta TEC de 5 segundos (frio). A restrição hídrica e diurético de alça são medidas para congestão, mas não tratam o baixo débito cardíaco, que é o problema central no choque cardiogênico. A paciente necessita de suporte inotrópico, não apenas de diurético.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa erra ao classificar o quadro como classe D (a mais grave). A classe D é caracterizada por choque cardiogênico refratário, com hipotensão grave e disfunção de múltiplos órgãos, que não é o caso da paciente, que está compensada (abre os olhos ao chamado). A dobutamina associada à epinefrina é uma opção para choque cardiogênico refratário, não para o compensado. A paciente se beneficia de milrinona, que é a droga de escolha no perfil frio e úmido.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta confundir o candidato com a presença de febre e a hipótese inicial de choque séptico. O candidato pode ser induzido a escolher uma alternativa de choque séptico (B ou C), mas a análise hemodinâmica detalhada (TEC 5s, perfil frio, congestão) aponta para choque cardiogênico. A chave é reconhecer que a febre pode ser um fator precipitante de descompensação em uma criança com cardiopatia, mas o quadro clínico predominante é de disfunção miocárdica primária.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar choque cardiogênico de séptico, avalie o perfil hemodinâmico: frio e úmido (vasoconstrição + congestão) sugere cardiogênico; quente e úmido (vasodilatação + congestão) sugere séptico hiperdinâmico. Memorize a classificação: classe B (quente e úmido), classe C (frio e úmido), classe D (frio e seco, refratário). A milrinona é a droga de escolha no perfil frio e úmido.