Homem, 54 anos, diagnóstico de diabetes mellitus há 4 anos, desconhecia o valor de sua glicemia antes do diagnóstico. Na consulta inicial, negou antecedentes patológicos. Exame físico: PA 135 x 80 mmHg e edema de membros inferiores ++/4. Exame de fundo de olho normal. Exames recentes: creatinina sérica = 1,3 mg/dL; exame de urina: proteína +++/4, hemácias = 80.000/mL (VR até 10.000), leucócitos = 8.000/mL (VR até 10.000); proteinúria 3,8 g/24horas; albumina sérica 3,1 g/dL. Realizada biópsia renal, na qual foi identificada a seguinte lesão glomerular na microscopia óptica:(Arquivo pessoal; imagem usada com autorização)Em face do exposto, assinale a alternativa correta.
AAs alterações presentes no sedimento urinário excluem os diagnósticos de nefropatia diabética e doenças por depósitos de cadeias leves.
BO diagnóstico etiológico desse caso só é possível por meio da microscopia eletrônica, que vai mostrar membrana basal glomerular adelgaçada no diabetes.
CAs alterações morfológicas são consistentes com nefropatia diabética, entretanto, esse diagnóstico está excluído pelos achados ao exame de fundo de olho.
DUm dos possíveis diagnósticos etiológicos dessa lesão glomerular pode ser confirmado por meio do exame à luz polarizada com o corante vermelho congo.
EA presença de um diagnóstico histopatológico glomerular alternativo é raro, e o esclarecimento desse diagnóstico sobreposto à doença renal do diabetes é pouco relevante.
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GabaritoD — Um dos possíveis diagnósticos etiológicos dessa lesão glomerular pode ser confirmado por meio do exame à luz polarizada com o corante vermelho congo.
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Nefropatia diabética e diagnóstico diferencial
Gabarito: letra D. A lesão glomerular descrita — nódulos de Kimmelstiel-Wilson na microscopia óptica — é típica da nefropatia diabética, mas o quadro clínico (hematúria importante, ausência de retinopatia, proteinúria nefrótica em paciente com DM há apenas 4 anos) levanta a suspeita de uma glomerulopatia sobreposta, como a amiloidose, cujo diagnóstico pode ser confirmado pela microscopia de luz polarizada após coloração com vermelho congo, que evidencia a birrefringência verde-maçã característica dos depósitos amiloides.
A nefropatia diabética é a principal causa de doença renal crônica no mundo e se desenvolve em cerca de 20 a 40% dos pacientes com diabetes. Histologicamente, caracteriza-se por espessamento da membrana basal glomerular, expansão mesangial e, nos casos mais avançados, pela formação dos nódulos de Kimmelstiel-Wilson, que são positivos na coloração com ácido periódico de Schiff (PAS) e metenamina de prata. O diagnóstico clínico é geralmente feito na presença de albuminúria em paciente com diabetes de longa duração, frequentemente acompanhado de retinopatia diabética. Entretanto, a ausência de retinopatia não exclui o diagnóstico, e a presença de achados atípicos — como sedimento urinário ativo, síndrome nefrótica franca, rápida perda de função renal ou diabetes de curta duração — deve levantar a suspeita de uma doença glomerular não diabética sobreposta.
No caso apresentado, o paciente tem diabetes mellitus há apenas 4 anos, não apresenta retinopatia diabética ao exame de fundo de olho e tem hematúria importante (80.000 hemácias/mL), achados que fogem do padrão clássico da nefropatia diabética, na qual o sedimento urinário costuma ser benigno. A proteinúria de 3,8 g/24h com hipoalbuminemia (3,1 g/dL) configura síndrome nefrótica, e a biópsia renal mostrou lesão glomerular que, embora possa ser consistente com nefropatia diabética, também pode ser causada por outras doenças que cursam com depósitos mesangiais nodulares, como a amiloidose e a doença por depósitos de cadeias leves. A amiloidose, em particular, pode ser diagnosticada pela coloração com vermelho congo, que confere aos depósitos amiloides uma birrefringência verde-maçã quando observados sob luz polarizada.
A alternativa D está correta porque reconhece que, diante de um quadro atípico para nefropatia diabética, um dos possíveis diagnósticos etiológicos — a amiloidose — pode ser confirmado por meio do exame à luz polarizada com o corante vermelho congo. As demais alternativas apresentam erros conceituais ou afirmações incorretas sobre o diagnóstico e o manejo dessas condições. A banca explora a confusão entre os achados típicos e atípicos da nefropatia diabética e a importância de se considerar diagnósticos diferenciais quando o quadro clínico não é clássico.
Nefropatia diabética
1Achados típicos
Espessamento da membrana basal
Expansão mesangial
Nódulos de Kimmelstiel-Wilson
Sedimento urinário benigno
2Sinais de alerta (atípicos)
Hematúria importante
Síndrome nefrótica franca
DM de curta duração
Ausência de retinopatia
3Diagnóstico diferencial
Amiloidose
Vermelho congo
Birrefringência verde-maçã
Doença por cadeias leves
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que as alterações no sedimento urinário excluem os diagnósticos de nefropatia diabética e doenças por depósitos de cadeias leves. Isso é falso: a presença de hematúria e leucocitúria não exclui nenhum desses diagnósticos. Na nefropatia diabética, o sedimento urinário costuma ser benigno, mas a hematúria pode ocorrer, especialmente em fases avançadas ou quando há glomerulopatia sobreposta. Nas doenças por depósitos de cadeias leves, a hematúria também pode estar presente. O sedimento urinário ativo é um sinal de alerta para causas não diabéticas, mas não exclui a nefropatia diabética nem as doenças por cadeias leves.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que o diagnóstico etiológico só é possível por meio da microscopia eletrônica, que mostraria membrana basal glomerular adelgaçada no diabetes. Há dois erros: (1) a microscopia eletrônica não é o único método diagnóstico — a microscopia óptica e a imunofluorescência são fundamentais e, em muitos casos, suficientes; (2) no diabetes, a membrana basal glomerular está espessada, não adelgaçada. O adelgaçamento da membrana basal é característico da síndrome de Alport e da doença de membrana basal fina.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que as alterações morfológicas são consistentes com nefropatia diabética, mas que esse diagnóstico está excluído pelos achados ao exame de fundo de olho. Isso é falso: a ausência de retinopatia diabética não exclui o diagnóstico de nefropatia diabética. Embora a retinopatia seja frequentemente associada à nefropatia, sua ausência não descarta a doença, especialmente em pacientes com diabetes tipo 2, nos quais a nefropatia pode se manifestar antes da retinopatia.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Correta porque reconhece que, diante de um quadro atípico para nefropatia diabética, um dos possíveis diagnósticos etiológicos — a amiloidose — pode ser confirmado por meio do exame à luz polarizada com o corante vermelho congo. A amiloidose renal é uma causa de síndrome nefrótica e pode apresentar depósitos mesangiais nodulares na microscopia óptica, semelhantes aos da nefropatia diabética. A coloração com vermelho congo, seguida de observação sob luz polarizada, revela a birrefringência verde-maçã característica dos depósitos amiloides, confirmando o diagnóstico.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que a presença de um diagnóstico histopatológico glomerular alternativo é raro e que o esclarecimento desse diagnóstico sobreposto à doença renal do diabetes é pouco relevante. Isso é falso: diagnósticos alternativos ou sobrepostos à nefropatia diabética não são raros, especialmente em pacientes com achados atípicos, e o esclarecimento é de extrema relevância, pois pode mudar completamente o tratamento e o prognóstico. Por exemplo, a amiloidose e a doença por depósitos de cadeias leves têm tratamentos específicos que não seriam instituídos se o diagnóstico fosse apenas de nefropatia diabética.