Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — VUNESP 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
vu093122
Banca
VUNESP
Órgão
FAMEMA
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico I - Especialidade: Neonatologia
Com base no documento “Apneia da Prematuridade”, produzido pelo departamento de Neonatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, qual das seguintes afirmações sobre a fisiopatologia e o tratamento da apneia da prematuridade é correta?
AA apneia central ocorre devido à ausência de fluxo de ar nas vias respiratórias, apesar da contração diafragmática, sendo causada principalmente por refluxo gastroesofágico que provoca edema faríngeo.
BA cafeína é o tratamento farmacológico de primeira linha para apneia da prematuridade, pois atua bloqueando os receptores de dopamina no sistema nervoso central, reduzindo a incidência de bradicardia e dessaturação.
CA apneia da prematuridade pode ser devido ao refluxo gastroesofágico que ocorre pelo reflexo faríngeo exarcebado, então a prescrição de bloqueadores de bomba é indicada.
DA ventilação nasal com pressão positiva intermitente (NIPPV) é uma ferramenta útil para aumentar os efeitos benéficos da pressão contínua nas vias aéreas (CPAP).
EO diagnóstico da apneia da prematuridade é baseado na presença de, pelo menos, três episódios de apneia em 24 horas, acompanhados de bradicardia e dessaturação de oxigênio abaixo de 85%.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoD — A ventilação nasal com pressão positiva intermitente (NIPPV) é uma ferramenta útil para aumentar os efeitos benéficos da pressão contínua nas vias aéreas (CPAP).
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Apneia da Prematuridade: Fisiopatologia e Tratamento
Gabarito: letra D. A ventilação nasal com pressão positiva intermitente (NIPPV) é uma ferramenta útil para aumentar os efeitos benéficos da pressão contínua nas vias aéreas (CPAP), conforme o documento "Apneia da Prematuridade" da Sociedade Brasileira de Pediatria. As demais alternativas apresentam erros conceituais sobre a fisiopatologia, o mecanismo de ação da cafeína e o papel do refluxo gastroesofágico.
A apneia da prematuridade é definida como a pausa respiratória com duração superior a 20 segundos, ou pausas mais curtas acompanhadas de bradicardia e/ou dessaturação de oxigênio, em recém-nascidos prematuros. É um distúrbio do desenvolvimento do controle respiratório, não uma doença pulmonar primária. A fisiopatologia envolve a imaturidade dos centros respiratórios no tronco encefálico, a resposta ventilatória deprimida à hipóxia e à hipercapnia, e a tendência à obstrução das vias aéreas superiores devido à hipotonia da musculatura faríngea. Esses fatores se combinam para gerar os três tipos de apneia: central (ausência de esforço respiratório), obstrutiva (esforço presente, mas sem fluxo de ar) e mista (combinação de ambos).
O tratamento da apneia da prematuridade é escalonado. As medidas não farmacológicas incluem a estimulação tátil, a posição adequada (decúbito dorsal com leve extensão do pescoço) e o uso de pressão positiva contínua nas vias aéreas (CPAP), que atua como uma "prótese pneumática", mantendo as vias aéreas superiores abertas e reduzindo o trabalho respiratório. A ventilação nasal com pressão positiva intermitente (NIPPV) é uma modalidade que adiciona ciclos de pressão inspiratória ao CPAP, proporcionando um suporte ventilatório mais eficaz em casos de apneia mais frequente ou refratária. A NIPPV tem se mostrado superior ao CPAP isolado na redução da frequência de apneias e na necessidade de intubação, sendo uma ferramenta útil para potencializar os efeitos benéficos do CPAP.
A cafeína é o tratamento farmacológico de primeira linha, mas seu mecanismo de ação não é o bloqueio de receptores de dopamina. A cafeína atua como antagonista não seletivo dos receptores de adenosina no sistema nervoso central. A adenosina é um neuromodulador que inibe a atividade neuronal e a liberação de neurotransmissores excitatórios. Ao bloquear esses receptores, a cafeína aumenta a excitabilidade dos centros respiratórios, estimulando a ventilação, aumentando a sensibilidade ao CO2 e melhorando o tônus muscular. Esse efeito excitatório é que reduz a incidência de bradicardia e dessaturação.
O refluxo gastroesofágico (RGE) é um tema controverso na apneia da prematuridade. Embora seja comum em prematuros, a relação causal entre RGE e apneia não é bem estabelecida. A maioria dos estudos não demonstra uma associação temporal clara entre os episódios de refluxo e os episódios de apneia. Portanto, o tratamento empírico do RGE com bloqueadores de bomba de prótons (IBP) não é recomendado na apneia da prematuridade, pois não há evidência de benefício e há risco de efeitos adversos, como aumento do risco de infecções e alterações na microbiota intestinal.
O diagnóstico da apneia da prematuridade é clínico, baseado na observação e monitorização. Não há critérios numéricos rígidos, como "três episódios em 24 horas" ou "dessaturação abaixo de 85%". A definição clássica é a pausa respiratória > 20 segundos, ou pausas mais curtas associadas a bradicardia (FC < 100 bpm) e/ou dessaturação (SpO2 < 85%). A monitorização contínua é essencial para o diagnóstico e acompanhamento.
A distinção entre os tipos de apneia é fundamental para o entendimento da fisiopatologia e do tratamento. A apneia central é a mais comum em prematuros, refletindo a imaturidade do centro respiratório. A apneia obstrutiva ocorre pela obstrução das vias aéreas superiores, frequentemente por hipotonia da musculatura faríngea ou por posicionamento inadequado. A apneia mista é a combinação de ambos, sendo a mais frequente na prática clínica.
A pegadinha da banca está em inverter o mecanismo de ação da cafeína (dopamina vs. adenosina) e em atribuir ao RGE um papel causal que não é comprovado, sugerindo tratamentos sem evidência. A alternativa D é a única que apresenta uma afirmação correta e alinhada com as recomendações do documento da SBP.
Característica
Apneia Central
Apneia Obstrutiva
Apneia Mista
Esforço respiratório
Ausente
Presente
Inicialmente ausente, depois presente
Fluxo de ar
Ausente
Ausente
Ausente
Causa principal
Imaturidade do centro respiratório
Obstrução das vias aéreas superiores (hipotonia faríngea)
Combinação de ambas
Apneia da prematuridade: Tipos (Central (sem esforço), Obstrutiva (sem fluxo), Mista (ambos)); Tratamento não farmacológico (Estimulação tátil, Posicionamento, CPAP, NIPPV (potencializa CPAP)); Tratamento farmacológico (Cafeína (antagonista de adenosina)); Condutas não indicadas (IBP para refluxo (sem evidência))
Alternativa A — ❌ Incorreta
A descrição da apneia central está invertida. Na apneia central, há ausência de esforço respiratório (ausência de contração diafragmática), não "ausência de fluxo de ar apesar da contração diafragmática". Essa última descrição corresponde à apneia obstrutiva. Além disso, atribuir a apneia central principalmente ao refluxo gastroesofágico que provoca edema faríngeo é um erro conceitual, pois a apneia central é primariamente um distúrbio do controle neurológico respiratório, não uma consequência de edema faríngeo.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A cafeína é, de fato, o tratamento farmacológico de primeira linha para a apneia da prematuridade, mas o mecanismo de ação está errado. A cafeína atua como antagonista dos receptores de adenosina, não de dopamina. Ao bloquear a adenosina, a cafeína aumenta a excitabilidade neuronal e a atividade dos centros respiratórios, estimulando a ventilação e reduzindo a incidência de bradicardia e dessaturação. O bloqueio de receptores de dopamina é um mecanismo de outras drogas, como os antipsicóticos, e não se aplica à cafeína.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A relação entre refluxo gastroesofágico (RGE) e apneia da prematuridade é controversa e não comprovada. Embora o RGE seja comum em prematuros, a maioria dos estudos não demonstra uma associação causal clara. Portanto, a prescrição de bloqueadores de bomba de prótons (IBP) para tratar a apneia não é indicada e não tem evidência de benefício. O tratamento empírico do RGE com IBP pode, inclusive, trazer riscos, como aumento do risco de infecções e alterações na microbiota intestinal.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A ventilação nasal com pressão positiva intermitente (NIPPV) é uma modalidade de suporte ventilatório não invasivo que combina a pressão positiva contínua (CPAP) com ciclos de pressão inspiratória. Essa característica a torna uma ferramenta útil para aumentar os efeitos benéficos do CPAP, proporcionando um suporte ventilatório mais eficaz, com melhor recrutamento alveolar e redução do trabalho respiratório. Estudos demonstram que a NIPPV é superior ao CPAP isolado na redução da frequência de apneias e na necessidade de intubação em prematuros.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O diagnóstico da apneia da prematuridade não se baseia em critérios numéricos rígidos como "três episódios em 24 horas" ou "dessaturação abaixo de 85%". A definição clássica é a pausa respiratória > 20 segundos, ou pausas mais curtas associadas a bradicardia (FC < 100 bpm) e/ou dessaturação (SpO2 < 85%). O diagnóstico é clínico, baseado na observação e monitorização contínua, e não em um número fixo de episódios.