Durante o atendimento de um escolar de 9 anos de idade, com uma doença inflamatória intestinal, o médico identifica uma anemia no hemograma e fica em dúvida se está diante de uma situação explicada pela ferropenia e má absorção ou pela doença crônica inflamatória.Qual perfil laboratorial, dentre as alternativas a seguir, é mais comum e característico da anemia por doença crônica?
AFerro sérico diminuído, ferritina sérica diminuída, capacidade total de ligação ao ferro elevada, saturação de transferrina diminuída.
BFerro sérico normal, ferritina sérica diminuída, capacidade total de ligação ao ferro diminuída, saturação de transferrina diminuída.
CFerro sérico diminuído, ferritina sérica normal ou aumentada, capacidade total de ligação ao ferro diminuída, saturação de transferrina elevada.
DFerro sérico diminuído, ferritina sérica normal ou aumentada, capacidade total de ligação ao ferro elevada, saturação de transferrina diminuída.
EFerro sérico diminuído, ferritina sérica normal ou aumentada, capacidade total de ligação ao ferro diminuída, saturação de transferrina diminuída.
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GabaritoE — Ferro sérico diminuído, ferritina sérica normal ou aumentada, capacidade total de ligação ao ferro diminuída, saturação de transferrina diminuída.
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Anemia da doença crônica: perfil laboratorial
Gabarito: letra E. Na anemia da doença crônica (ADC), o padrão laboratorial clássico é ferro sérico diminuído, ferritina sérica normal ou aumentada, capacidade total de ligação ao ferro (CTLF) diminuída e saturação de transferrina diminuída. Esse perfil reflete o sequestro de ferro no sistema reticuloendotelial mediado pela hepcidina, que reduz a absorção intestinal e a mobilização do ferro dos macrófagos, ao mesmo tempo em que a ferritina, como reagente de fase aguda, tende a estar elevada ou normal.
A anemia da doença crônica, também chamada de anemia da inflamação, é uma condição frequente em pacientes com doenças inflamatórias crônicas, infecciosas, malignas ou autoimunes — exatamente o cenário do escolar com doença inflamatória intestinal (DII) do enunciado. A fisiopatologia é mediada por citocinas inflamatórias (TNF, interleucinas, interferonas) que induzem a produção hepática de hepcidina. A hepcidina, por sua vez, degrada a ferroportina, o único exportador celular de ferro, resultando em: (1) redução da absorção intestinal de ferro; (2) bloqueio da liberação de ferro dos macrófagos e hepatócitos; (3) ferro sérico baixo, apesar de estoques corporais adequados ou aumentados. Além disso, as citocinas reduzem a resposta à eritropoetina (EPO) e encurtam a sobrevida das hemácias, contribuindo para a anemia.
O diagnóstico diferencial com a anemia ferropriva é o ponto central da questão. Na ferropenia, há depleção real dos estoques de ferro: ferritina baixa, ferro sérico baixo, CTLF elevada (mecanismo compensatório para aumentar a captação de ferro) e saturação de transferrina baixa. Na ADC, os estoques estão preservados ou aumentados, mas o ferro está "preso" no interior das células: ferritina normal ou alta, ferro sérico baixo, CTLF baixa (por regulação negativa da síntese de transferrina) e saturação de transferrina baixa. A tabela abaixo resume o contraste:
Parâmetro
Anemia ferropriva
Anemia da doença crônica
Ferro sérico
↓
↓
Ferritina sérica
↓
Normal ou ↑
CTLF (TIBC)
↑
↓
Saturação de transferrina
↓
↓
A pegadinha da banca está em inverter a CTLF: na ADC ela é diminuída, não elevada. A alternativa C erra ao dizer que a saturação de transferrina está elevada — na ADC ela está diminuída, pois o ferro sérico está baixo e a CTLF também. A alternativa D erra ao afirmar CTLF elevada, que é o achado da ferropenia. A alternativa A descreve o perfil clássico da anemia ferropriva. A alternativa B apresenta ferro sérico normal, o que não é característico da ADC, e ferritina diminuída, típica da ferropenia.
Guarde a fronteira entre os dois perfis: o que separa ADC de ferropenia é a ferritina (normal/alta vs. baixa) e a CTLF (baixa vs. alta). É exatamente nesses dois parâmetros que as alternativas se dividem.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Descreve o perfil da anemia ferropriva: ferro sérico diminuído, ferritina sérica diminuída, CTLF elevada e saturação de transferrina diminuída. Na ferropenia, a depleção dos estoques de ferro leva à queda da ferritina e ao aumento compensatório da CTLF (a transferrina é produzida em maior quantidade para tentar captar o pouco ferro disponível). Esse padrão é o oposto do que se espera na ADC.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Apresenta ferro sérico normal, o que não é característico da ADC — na ADC o ferro sérico está diminuído. Além disso, traz ferritina diminuída (típica da ferropenia) e CTLF diminuída (típica da ADC), misturando achados de duas condições distintas. Não há um perfil laboratorial que combine ferro normal com ferritina baixa e CTLF baixa na ADC.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erra ao afirmar que a saturação de transferrina está elevada. Na ADC, a saturação de transferrina está diminuída, pois o ferro sérico está baixo e a CTLF também está baixa. A fórmula da saturação é (ferro sérico ÷ CTLF) × 100; com ambos os valores reduzidos, o resultado tende a ser baixo. Os demais parâmetros (ferro ↓, ferritina normal/↑, CTLF ↓) estão corretos, mas a saturação elevada invalida a alternativa.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que a CTLF está elevada, o que é característico da anemia ferropriva, não da ADC. Na ADC, a síntese hepática de transferrina é reduzida (regulação negativa mediada pela inflamação), resultando em CTLF diminuída. Os demais parâmetros (ferro ↓, ferritina normal/↑, saturação ↓) estão corretos, mas a CTLF elevada torna a alternativa incorreta.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Descreve exatamente o perfil da anemia da doença crônica: ferro sérico diminuído (pelo sequestro de ferro no sistema reticuloendotelial), ferritina sérica normal ou aumentada (estoques preservados + reagente de fase aguda), CTLF diminuída (menor síntese de transferrina) e saturação de transferrina diminuída (ferro sérico baixo). Esse é o padrão clássico descrito na literatura e o que se espera encontrar no escolar com DII, em que a inflamação crônica é a causa da anemia.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar ADC de ferropenia na prova, foque em dois parâmetros: ferritina (normal/alta na ADC, baixa na ferropenia) e CTLF (baixa na ADC, alta na ferropenia). Ferro sérico e saturação de transferrina estão diminuídos em ambas — não os use como critério isolado. Monte mentalmente a tabela comparativa e elimine as alternativas que inverterem esses dois valores.