Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — VUNESP 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
vu093255
Banca
VUNESP
Órgão
FAMEMA
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico I - Especialidade: Pediatria
Escolar de 5 anos, sexo masculino, dá entrada na emergência pediátrica em coma. Mãe informou que a criança se apresentava mais irritada há 3 dias e com redução da aceitação da dieta. Não tem antecedentes patológico dignos de nota. Ao exame, está hidratado, corado, respiração típica de Kussmaul, sem deficit perfusional, dextro de 600 mg/dL (ponta de dedo). A gasometria evidencia uma acidose metabólica com ânion gap aumentado. Quanto ao manejo dessa emergência em pediatria, cuidados devem ser tomados especialmente para evitar o baixo débito, culminando com a parada cardiorrespiratória pela hipofosfatemia.Sobre tal condição eletrolítica nessa emergência, pode--se afirmar, corretamente, que
Aé decorrente diretamente do hipoinsulinismo primário do coma hiperosmolar diabético, já que a cetoacidose diabética não ocorre nessa faixa etária.
Bpode ser consequência do hiperinsulinismo induzido pelo tratamento.
Cé decorrente da correção da acidemia com bicarbonato que deve ser realizada, independentemente da gravidade do distúrbio ácido-básico.
Dé consequência da hipercalcemia comum na cetoacidose diabética, especialmente se a criança tiver sinal de Tousseau positivo.
Eo tratamento deve ser sem suplementação de fosfato, pois a hipofosfatemia, mesmo que severa, é uma alteração esperada e autolimitada durante a resolução de todas as cetoacidoses diabéticas.
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GabaritoB — pode ser consequência do hiperinsulinismo induzido pelo tratamento.
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Cetoacidose diabética na infância: hipofosfatemia e manejo
Gabarito: letra B. A hipofosfatemia na cetoacidose diabética (CAD) é consequência do hiperinsulinismo induzido pelo tratamento: a insulina exógena desloca o fosfato para o intracelular, agravando a depleção que já existe pela perda renal e pelo desvio intracelular pré-tratamento. As demais alternativas distorcem a fisiopatologia ou o manejo da CAD pediátrica.
A cetoacidose diabética é a emergência hiperglicêmica mais comum em crianças com diabetes tipo 1, caracterizada pela tríade hiperglicemia, cetose e acidose metabólica com ânion-gap aumentado. No caso apresentado, o escolar de 5 anos em coma, com respiração de Kussmaul e glicemia de 600 mg/dL, tem o quadro clássico de CAD grave. O manejo envolve reposição volêmica, insulinoterapia e correção cuidadosa dos distúrbios eletrolíticos — e é justamente aí que mora a pegadinha desta questão: a hipofosfatemia.
Por que a hipofosfatemia ocorre na CAD? Antes do tratamento, a deficiência de insulina e a acidose promovem a saída de fosfato do intracelular para o extracelular, com consequente perda renal (fosfatúria). O fosfato sérico inicial pode até estar normal ou elevado. Com o início da insulinoterapia, a insulina estimula a captação celular de glicose e também de fosfato, deslocando-o para o interior das células e precipitando a hipofosfatemia — que pode se tornar grave em 12 a 24 horas de tratamento. Esse é o mecanismo central que a alternativa B descreve corretamente.
Por que a hipofosfatemia importa? O fosfato é essencial para a síntese de ATP e 2,3-DPG. A depleção grave pode causar fraqueza muscular, rabdomiólise, disfunção miocárdica e, nos casos extremos, contribuir para baixo débito cardíaco e parada cardiorrespiratória — exatamente o que o enunciado alerta. Por isso, a monitorização e a reposição criteriosa de fosfato fazem parte do manejo, embora a reposição rotineira não seja recomendada em todos os pacientes.
A pegadinha da banca está em atribuir a hipofosfatemia a causas erradas (hipoinsulinismo primário, correção com bicarbonato, hipercalcemia) ou em negar a necessidade de tratamento (alternativa E). A banca explora a confusão entre o que ocorre ANTES do tratamento (perda renal e desvio extracelular) e o que ocorre DURANTE (desvio intracelular induzido pela insulina). Guarde essa sequência: pré-tratamento → fosfato pode estar normal/alto; pós-insulina → hipofosfatemia por internalização celular.
Afirmação
Correta?
Justificativa
Hipofosfatemia decorre do hipoinsulinismo primário do coma hiperosmolar; CAD não ocorre nessa faixa etária
❌
O hipoinsulinismo causa saída de fosfato da célula e perda renal, mas a hipofosfatemia relevante surge com a insulinoterapia; CAD é comum em crianças.
Hipofosfatemia é consequência do hiperinsulinismo induzido pelo tratamento
✅
A insulina exógena desloca fosfato para o intracelular, agravando a depleção.
Correção da acidemia com bicarbonato deve ser feita independentemente da gravidade
❌
Bicarbonato é restrito a pH < 6,9/7,0; uso rotineiro é contraindicado.
Hipofosfatemia é consequência da hipercalcemia comum na CAD, com sinal de Trousseau positivo
❌
Não há hipercalcemia como regra; Trousseau é sinal de hipocalcemia.
Tratamento deve ser sem suplementação de fosfato, pois é autolimitada
❌
Hipofosfatemia grave requer reposição; não é autolimitada em todos os casos.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a hipofosfatemia decorre diretamente do hipoinsulinismo primário do coma hiperosmolar diabético e que a CAD não ocorre nessa faixa etária. Duplo erro: (1) o hipoinsulinismo leva à saída de fosfato da célula e à perda renal, mas a hipofosfatemia clinicamente relevante surge com a insulinoterapia (hiperinsulinismo iatrogênico), não com o hipoinsulinismo em si; (2) a CAD é a apresentação mais comum de diabetes tipo 1 em crianças, inclusive em escolares de 5 anos — o coma hiperosmolar é mais típico de adultos e idosos. A banca inverte o mecanismo e nega a ocorrência da CAD na infância, o que contraria a prática pediátrica.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A hipofosfatemia na CAD é consequência do hiperinsulinismo induzido pelo tratamento. A insulina exógena, ao corrigir a hiperglicemia, promove a captação celular de glicose e fosfato, deslocando o fosfato do extracelular para o intracelular e agravando a depleção. Esse é o mecanismo fisiopatológico clássico, descrito nos guidelines de manejo de emergências hiperglicêmicas. A alternativa espelha exatamente essa sequência: o tratamento com insulina → hiperinsulinismo → hipofosfatemia.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que a correção da acidemia com bicarbonato deve ser realizada independentemente da gravidade do distúrbio ácido-básico. Isso é perigoso e contrário às diretrizes: o uso de bicarbonato na CAD é restrito a situações extremas (pH < 6,9 ou 7,0, conforme o guideline), pois a correção rápida da acidemia pode causar hipocalemia, alcalose paradoxal no SNC e piora do edema cerebral. A hipofosfatemia não é causada pelo bicarbonato; o bicarbonato, quando indicado, é usado com cautela e nunca de forma rotineira. A alternativa erra ao generalizar a indicação e ao atribuir à correção da acidemia a causa da hipofosfatemia.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que a hipofosfatemia é consequência da hipercalcemia comum na CAD, especialmente com sinal de Trousseau positivo. Há dois erros: (1) na CAD, o cálcio total pode estar baixo ou normal, e o cálcio ionizado costuma estar normal ou elevado — não há hipercalcemia como regra; (2) o sinal de Trousseau é um sinal de hipocalcemia (tetania), não de hipercalcemia. A banca troca o distúrbio (hipercalcemia por hipocalcemia) e o sinal clínico (Trousseau é de hipocalcemia). A hipofosfatemia não tem relação com hipercalcemia na CAD.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que o tratamento deve ser sem suplementação de fosfato, pois a hipofosfatemia é esperada e autolimitada em todas as CADs. Isso é falso: embora a hipofosfatemia seja comum e muitas vezes leve, a forma grave (fosfato < 1 mg/dL) pode causar complicações graves (rabdomiólise, disfunção cardíaca, parada cardiorrespiratória) e requer reposição. A suplementação de fosfato é indicada em casos selecionados, especialmente quando há sintomas ou níveis muito baixos. A alternativa nega a necessidade de tratamento, o que contraria o manejo adequado e o alerta do próprio enunciado sobre o risco de parada cardiorrespiratória.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre o que acontece ANTES e DURANTE o tratamento da CAD. Antes da insulina, o fosfato sai da célula e é perdido na urina — o nível sérico pode estar normal ou alto. Com a insulina, o fosfato volta para dentro da célula e o nível cai. A alternativa A inverte esse mecanismo (atribui ao hipoinsulinismo), e a E nega a necessidade de reposição. Lembre-se: hipofosfatemia na CAD = hiperinsulinismo do tratamento.
PEGA ESSA DICA!
Na prova, quando a questão falar de hipofosfatemia na CAD, associe imediatamente ao tratamento com insulina. E desconfie de alternativas que citam "bicarbonato" ou "hipercalcemia" — são distratores clássicos. Para fixar: insulina → fosfato para dentro da célula → hipofosfatemia.