Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — VUNESP 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
vu093270
Banca
VUNESP
Órgão
FAMEMA
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico I - Especialidade: Pediatria
Um lactente de 7 meses, amamentado exclusivamente até os 6 meses, é levado à consulta pediátrica de rotina por seus pais, que relatam preocupação com a saúde do filho, já que há histórico familiar de talassemia. Durante a consulta, os pais mencionam que o bebê já iniciou a introdução alimentar com papinha de legumes e frutas, mas sem fontes alimentares de ferro mais efetivas, como carne vermelha. Não houve suplementação de ferro até o momento, e a mãe questiona sobre a necessidade e o momento ideal para iniciar a profilaxia com ferro.Com base nesse cenário clínico e nas recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria para a prevenção de anemia ferropriva em lactentes, assinale a alternativa que apresenta a conduta mais apropriada.
ARecomendar suplementação de ferro apenas se houver sinais de anemia clínica evidente, uma vez que não há preocupações nutricionais atuais significativas.
BContinuar a monitorar o estado de ferro do bebê durante consultas de rotina sem intervenção, pois a introdução alimentar fornece ferro suficiente.
CIniciar a suplementação profilática de ferro, mesmo sem sinais clínicos de anemia, a partir dos 6 meses de idade, independentemente da alimentação atual.
DSolicitar hemograma e dosagem de ferritina; não iniciar a suplementação profilática de ferro, pois pode haver comprometimento do diagnóstico de traço talassêmico no bebê.
EPriorizar a inclusão de fórmulas infantis enriquecidas com ferro como substitutos à amamentação para prevenir a anemia ferropriva.
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GabaritoC — Iniciar a suplementação profilática de ferro, mesmo sem sinais clínicos de anemia, a partir dos 6 meses de idade, independentemente da alimentação atual.
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Prevenção da anemia ferropriva no lactente: suplementação profilática de ferro
Gabarito: letra C. A conduta mais apropriada é iniciar a suplementação profilática de ferro a partir dos 6 meses de idade, mesmo sem sinais clínicos de anemia, independentemente da alimentação atual — essa é a recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) para lactentes a termo, com peso adequado e sem fatores de risco, na dose de 1 mg de ferro elementar/kg/dia dos 6 aos 24 meses. O histórico familiar de talassemia não contraindica a profilaxia, pois a suplementação não interfere no diagnóstico do traço talassêmico, que é feito por eletroforese de hemoglobina (aumento da HbA2).
A anemia ferropriva é a carência nutricional mais prevalente na infância, e o lactente entre 6 e 24 meses é o grupo de maior risco. Isso ocorre porque, nessa fase, há uma demanda aumentada de ferro devido ao crescimento acelerado, enquanto a dieta ainda é relativamente monótona e com baixo aporte do mineral — especialmente quando a alimentação complementar é pobre em fontes de ferro de alta biodisponibilidade, como carnes. O aleitamento materno exclusivo até os 6 meses é excelente, mas o leite humano tem baixo teor de ferro; a reserva acumulada durante a gestação se esgota por volta do 4º ao 6º mês de vida. Por isso, a partir dos 6 meses, a suplementação profilática com ferro medicamentoso é recomendada de forma universal, independentemente da alimentação, justamente porque a dieta complementar raramente supre a necessidade diária do mineral nessa idade.
A SBP recomenda a suplementação de ferro em crianças de 6 a 24 meses na dose de 1 mg de ferro elementar/kg/dia para nascidas a termo, com peso adequado para a idade gestacional e sem fator de risco para anemia. Para crianças com fatores de risco (como prematuridade ou baixo peso ao nascer), a suplementação deve ser iniciada mais cedo, aos 3 meses de idade. A OMS, por sua vez, indica doses de 10 a 12,5 mg de ferro elementar por dia dos 6 aos 23 meses. O Programa Nacional de Suplementação de Ferro adota as recomendações da SBP. É importante destacar que a suplementação profilática é uma medida populacional de saúde pública: não se espera a instalação da anemia para intervir, pois a deficiência de ferro precede o quadro anêmico e já causa prejuízos, especialmente ao desenvolvimento neuropsicomotor.
O histórico familiar de talassemia, citado no enunciado, é um distrator clássico. A talassemia menor (traço talassêmico) é uma hemoglobinopatia hereditária que cursa com anemia microcítica e hipocrômica, mas o diagnóstico é feito por eletroforese de hemoglobina, com aumento da hemoglobina A2. A suplementação profilática de ferro não mascara nem compromete esse diagnóstico — o que poderia confundir seria a interpretação de um hemograma já com anemia instalada, mas isso não contraindica a profilaxia. A conduta correta é suplementar e, se houver suspeita clínica ou laboratorial de hemoglobinopatia, investigar com exames específicos. A alternativa D, que sugere não suplementar para não comprometer o diagnóstico de traço talassêmico, parte de uma premissa equivocada e deixaria o lactente exposto ao risco real de anemia ferropriva.
A pegadinha central desta questão é a tentativa de condicionar a profilaxia a sinais clínicos de anemia ou à qualidade da alimentação. A suplementação profilática é uma recomendação universal e programática, não uma resposta a um quadro instalado. Esperar sinais clínicos (alternativa A) é um erro grave, pois a anemia ferropriva só se manifesta clinicamente quando a depleção de ferro já é importante. Monitorar sem intervir (alternativa B) subestima o risco real do lactente. E substituir o aleitamento por fórmulas enriquecidas (alternativa E) contraria as recomendações de aleitamento materno, que deve ser mantido, com a suplementação medicamentosa como medida adicional. Guarde o critério decisivo: profilaxia universal dos 6 aos 24 meses, independentemente da dieta e da presença de sintomas — é exatamente nesse ponto que as alternativas se dividem.
Suplementação profilática de ferro (SBP)
1Lactente a termo, peso adequado
1 mg/kg/dia dos 6 aos 24 meses
Independente da dieta
Independente de sintomas
2Fator de risco (pré-termo, baixo peso)
Início aos 3 meses
Dose maior conforme peso de nascimento
3OMS
10–12,5 mg/dia dos 6 aos 23 meses
4Talassemia (distrator)
Diagnóstico por eletroforese de Hb
Suplementação não interfere
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Recomendar suplementação apenas se houver sinais de anemia clínica evidente é conduta inadequada. A profilaxia é uma medida preventiva universal, não terapêutica. A anemia ferropriva é uma doença silenciosa em suas fases iniciais: a depleção dos estoques de ferro precede os sintomas, e quando há palidez, irritabilidade ou outros sinais clínicos, a deficiência já é significativa. A SBP recomenda a suplementação profilática de rotina dos 6 aos 24 meses, sem aguardar manifestações clínicas. Além disso, o lactente do caso já apresenta fator de risco — alimentação complementar pobre em ferro —, o que torna a intervenção ainda mais necessária.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Continuar apenas monitorando sem intervenção é conduta omissiva e contrária às evidências. A introdução alimentar com papinhas de legumes e frutas, sem carnes, não fornece ferro suficiente para o lactente. Os alimentos de origem vegetal contêm ferro não-heme, de baixa biodisponibilidade, e o volume consumido nessa idade é pequeno. O lactente entre 6 e 24 meses está em risco aumentado para anemia justamente pela combinação de alta demanda e baixo aporte dietético. A recomendação da SBP é clara: suplementação profilática universal nessa faixa etária, independentemente da alimentação.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Iniciar a suplementação profilática de ferro a partir dos 6 meses, mesmo sem sinais clínicos de anemia e independentemente da alimentação atual, é exatamente a conduta recomendada pela SBP. Para lactentes a termo, com peso adequado e sem fatores de risco, a dose é de 1 mg de ferro elementar/kg/dia, dos 6 aos 24 meses. O caso descrito — lactente de 7 meses, amamentado exclusivamente até os 6 meses, com introdução alimentar pobre em ferro e sem suplementação — se encaixa perfeitamente na indicação de profilaxia universal. O histórico familiar de talassemia não altera essa conduta.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Solicitar hemograma e ferritina é razoável em alguns contextos, mas não iniciar a suplementação profilática por medo de comprometer o diagnóstico de traço talassêmico é um erro conceitual. O diagnóstico de talassemia menor é feito por eletroforese de hemoglobina, com aumento da hemoglobina A2 — a suplementação de ferro não interfere nesse exame. Além disso, a profilaxia é recomendada independentemente de exames laboratoriais. A conduta correta seria suplementar e, se houvesse suspeita de hemoglobinopatia, investigar com exames específicos, sem suspender a profilaxia.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Priorizar fórmulas infantis enriquecidas com ferro como substitutos da amamentação é conduta contrária às recomendações de aleitamento materno. O leite materno deve ser mantido até os 2 anos ou mais, sendo exclusivo até os 6 meses. As fórmulas enriquecidas podem ser uma opção quando há indicação de substituição, mas não devem substituir a amamentação como estratégia de prevenção da anemia. A medida correta é manter o aleitamento e adicionar a suplementação medicamentosa profilática de ferro, além de orientar uma alimentação complementar rica em ferro de alta biodisponibilidade.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre profilaxia e tratamento, e entre suplementação e diagnóstico de hemoglobinopatia. O candidato pode cair na alternativa D ao pensar que o ferro "mascararia" a talassemia — mas o diagnóstico é por eletroforese de Hb, não por dosagem de ferro. E pode cair na A ao achar que só se suplementa com anemia instalada, quando a recomendação é universal e preventiva. Lembre-se: a profilaxia é para todos os lactentes de 6 a 24 meses, sem exceção baseada em dieta ou sintomas.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de suplementação de ferro na infância, decore o esquema: a termo e sem fator de risco → 1 mg/kg/dia a partir dos 6 meses; com fator de risco (pré-termo, baixo peso) → iniciar aos 3 meses; pré-termo/baixo peso → doses maiores conforme o peso de nascimento, iniciando mais cedo (30º dia de vida, conforme o Programa Nacional de Suplementação de Ferro). A OMS usa doses fixas (10-12,5 mg/dia dos 6 aos 23 meses). Grave isso e a maioria das questões do tema se resolve.