Questão de Medicina — Ginecologia e Obstetrícia — VUNESP 2025
Medicina›Ginecologia e Obstetrícia
Código
vu093402
Banca
VUNESP
Órgão
FAMEMA
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Pré-Requisito em Cirurgia Geral/Área Cirúrgica Básica
A compreensão das alterações fisiológicas e anatômicas durante a gestação é essencial para o manejo adequado dos politraumatismos nessa população.A esse respeito, assinale a alternativa correta.
ALesões abdominais penetrantes no andar superior do abdome costumam resultar em lesões intestinais complexas devido ao deslocamento cranial das alças.
BSinais de irritação peritoneal em gestantes costumam ser exuberantes e precoces podendo, por vezes, serem confundidos com trabalho de parto prematuro.
CAo final do terceiro trimestre, o útero ocupa boa parte do abdome e tem paredes espessadas, sendo mais suscetível a sangramento e a traumas contusos.
DGraças aos mecanismos contrarregulatórios da fisiologia materna, uma queda abrupta no volume intravascular da gestante não repercute de forma significativa na resistência vascular uterina ou na oxigenação fetal.
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GabaritoA — Lesões abdominais penetrantes no andar superior do abdome costumam resultar em lesões intestinais complexas devido ao deslocamento cranial das alças.
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Trauma na gestação: alterações fisiológicas e anatômicas
Gabarito: letra A. A alternativa correta afirma que lesões abdominais penetrantes no andar superior do abdome costumam resultar em lesões intestinais complexas devido ao deslocamento cranial das alças — isso é verdade, pois o útero gravídico desloca as alças intestinais para cima, tornando-as mais vulneráveis a traumas penetrantes nessa região. As demais alternativas contêm erros conceituais sobre a fisiologia e anatomia da gestação, como a exacerbação dos sinais peritoneais, a espessura da parede uterina e a resposta hemodinâmica materna.
O trauma durante a gestação é uma situação de alta complexidade, pois envolve duas vidas e exige conhecimento profundo das adaptações fisiológicas e anatômicas do corpo materno. O útero gravídico, que ao final da gestação ocupa grande parte da cavidade abdominal, desloca as vísceras, especialmente as alças intestinais, cranialmente. Isso altera a anatomia topográfica e, consequentemente, o padrão de lesões em traumas penetrantes. No andar superior do abdome, as alças intestinais, agora deslocadas para cima, ficam mais expostas a lesões por arma branca ou de fogo, resultando em lesões complexas e múltiplas. Essa é a base da alternativa A.
A compreensão das alterações fisiológicas é crucial para o manejo. Durante a gestação, há um aumento do débito cardíaco e do volume plasmático em 30 a 50%, com queda da resistência vascular periférica e da pressão arterial. A frequência cardíaca aumenta, e a taxa de filtração glomerular eleva-se em cerca de 50%. No sistema respiratório, ocorre hiperventilação fisiológica, com alcalose respiratória, aumento do volume corrente e redução da capacidade residual funcional. Essas adaptações têm implicações diretas no trauma: a gestante pode perder um volume sanguíneo significativo antes de apresentar sinais de hipovolemia, pois o volume plasmático aumentado mascara a perda. Além disso, a compressão aortocava pelo útero gravídico pode reduzir o retorno venoso e o débito cardíaco, especialmente em decúbito dorsal, o que deve ser evitado com o deslocamento lateral do útero.
A resposta hemodinâmica materna à hemorragia é um ponto crítico. Apesar dos mecanismos contrarregulatórios, a queda abrupta do volume intravascular leva a uma vasoconstrição reflexa que prioriza a perfusão de órgãos vitais maternos, mas reduz drasticamente o fluxo sanguíneo uterino. Isso compromete a oxigenação fetal, que depende diretamente do aporte sanguíneo materno. Portanto, a alternativa D, que afirma que a queda abrupta não repercute na resistência vascular uterina ou na oxigenação fetal, está incorreta. A prioridade no atendimento é sempre o suporte materno, pois a deterioração clínica da mãe impacta profundamente o feto.
Outro ponto importante é a avaliação da irritação peritoneal. Na gestação, os sinais de irritação peritoneal costumam ser discretos e tardios, pois o útero gravídico distende a parede abdominal e afasta o peritônio parietal das vísceras, diminuindo a sensibilidade. Além disso, a contratilidade uterina e a dor abdominal podem ser confundidas com trabalho de parto prematuro, mas não por serem exuberantes, e sim por serem sutis. A alternativa B inverte essa lógica, afirmando que os sinais são exuberantes e precoces, o que é um erro clássico.
A anatomia do útero gravídico também é frequentemente mal compreendida. Ao final do terceiro trimestre, o útero ocupa boa parte do abdome, mas suas paredes são finas e distendidas, não espessadas. Essa parede fina torna o útero mais suscetível a lesões por trauma contuso, como ruptura uterina, e a sangramentos. A alternativa C, que afirma que as paredes são espessadas, está incorreta, pois o que ocorre é o oposto: a parede uterina se torna mais fina e vulnerável.
A distinção entre os sinais peritoneais na gestante e na não gestante é um dos pontos mais cobrados. Na gestante, a irritação peritoneal é mascarada pela distensão abdominal e pela elevação do útero, tornando o exame físico menos confiável. Por isso, a suspeita clínica deve ser alta, e exames de imagem, como a ultrassonografia FAST e a tomografia, são fundamentais. A banca explora essa confusão ao afirmar que os sinais são exuberantes, quando na verdade são discretos.
A pegadinha central desta questão é a inversão de conceitos fisiológicos e anatômicos. O candidato que não domina as alterações da gestação pode facilmente cair nas alternativas B, C e D, que parecem plausíveis, mas contêm erros sutis. A alternativa A, por sua vez, exige conhecimento específico sobre o deslocamento cranial das alças intestinais, um detalhe anatômico que é decisivo. Guarde essa fronteira: na gestação, os sinais peritoneais são discretos, a parede uterina é fina, e a resposta hemodinâmica materna prioriza a mãe em detrimento do feto.
Característica
Gestante
Não gestante
Sinais de irritação peritoneal
Discretos e tardios (mascarados pela distensão abdominal)
Exuberantes e precoces
Parede uterina no 3º trimestre
Fina e distendida (mais suscetível a ruptura)
—
Resposta à hipovolemia
Vasoconstrição reflexa reduz fluxo uterino e oxigenação fetal
—
Posição das alças intestinais
Deslocadas cranialmente pelo útero gravídico
Posição anatômica habitual
Trauma na gestação
1Anatomia alterada
Útero desloca alças cranialmente
Lesão penetrante alta → lesão intestinal complexa
Parede uterina fina e distendida
2Sinais peritoneais
Discretos e tardios
Confundem com trabalho de parto prematuro
3Hemodinâmica
Hipovolemia → vasoconstrição uterina
Compromete oxigenação fetal
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa está correta porque o útero gravídico, ao crescer, desloca as alças intestinais cranialmente, ou seja, para cima. Em lesões penetrantes no andar superior do abdome, essas alças deslocadas ficam mais expostas e vulneráveis, resultando em lesões intestinais complexas e múltiplas. Esse é um conhecimento anatômico fundamental para o manejo cirúrgico do trauma em gestantes.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que os sinais de irritação peritoneal em gestantes são exuberantes e precoces, o que é incorreto. Na gestação, o útero gravídico distende a parede abdominal e afasta o peritônio parietal das vísceras, tornando os sinais peritoneais discretos e tardios. A dor abdominal pode ser confundida com trabalho de parto prematuro, mas não por ser exuberante, e sim por ser sutil e inespecífica.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que, ao final do terceiro trimestre, o útero tem paredes espessadas, o que é incorreto. Na verdade, a parede uterina se torna fina e distendida devido ao crescimento fetal, tornando o útero mais suscetível a lesões por trauma contuso e a sangramentos. A espessura da parede uterina é inversamente proporcional à idade gestacional.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que uma queda abrupta no volume intravascular da gestante não repercute de forma significativa na resistência vascular uterina ou na oxigenação fetal, o que é incorreto. Apesar dos mecanismos contrarregulatórios, a hipovolemia leva a uma vasoconstrição reflexa que reduz o fluxo sanguíneo uterino, comprometendo a oxigenação fetal. A prioridade no atendimento é sempre o suporte materno, pois a deterioração clínica da mãe impacta diretamente o feto.