Residência Médica - Pré-Requisito em Clínica Médica
Paciente do sexo masculino de 38 anos, após infecção respiratória há 2 semanas, apresenta fraqueza progressiva ascendente, arreflexia e parestesia em membros inferiores. Sem alterações de consciência.Realizou exame do líquor: proteínas 220 mg/dL, 5 células/ mm³.Qual o mecanismo fisiopatológico predominante e o padrão esperado na eletroneuromiografia (ENMG)?
AInfecção direta viral do nervo periférico; ENMG com padrão axonal.
BReação autoimune contra bainha de mielina; ENMG com latência aumentada e velocidade de condução reduzida.
CDeposição amiloide periférica; ENMG com potencial de ação normal.
DDeficiência de tiamina; ENMG com amplitude normal e bloqueios de condução.
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GabaritoB — Reação autoimune contra bainha de mielina; ENMG com latência aumentada e velocidade de condução reduzida.
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Síndrome de Guillain-Barré: mecanismo fisiopatológico e achados na ENMG
Gabarito: letra B. O quadro clínico — fraqueza progressiva ascendente, arreflexia e parestesia após infecção respiratória — associado à dissociação proteinocitológica no líquor (proteínas elevadas com celularidade normal) é clássico da Síndrome de Guillain-Barré (SGB), cujo mecanismo predominante é uma reação autoimune contra a bainha de mielina do nervo periférico. Na eletroneuromiografia (ENMG), a forma desmielinizante — a mais comum — caracteriza-se por latência aumentada e velocidade de condução reduzida, exatamente o que afirma a alternativa B.
A SGB é uma polineurorradiculopatia imunomediada, tipicamente precedida por um evento infeccioso (vias aéreas superiores ou diarreico) em 3 dias a 6 semanas antes do início dos sintomas. O mecanismo central é o mimetismo molecular: anticorpos gerados contra o agente infeccioso reagem de forma cruzada com componentes dos nervos periféricos, especialmente os gangliosídeos. Dependendo do alvo, a doença se manifesta como variante desmielinizante (a mais frequente, chamada AIDP — polineuropatia desmielinizante inflamatória aguda) ou axonal (AMAN e AMSAN). No caso descrito, o paciente apresenta o quadro clássico: fraqueza ascendente, arreflexia e parestesias, sem comprometimento de consciência.
O diagnóstico é primariamente clínico, mas o exame do líquor é um pilar: a dissociação proteinocitológica — proteínas elevadas (aqui, 220 mg/dL) com contagem celular normal ou discretamente aumentada (aqui, 5 células/mm³) — é o achado característico, presente em 50 a 75% dos casos, mais comum a partir da segunda semana. A ENMG, por sua vez, não é imprescindível, mas confirma o diagnóstico e diferencia as variantes. Nas formas desmielinizantes, os achados típicos incluem: velocidade de condução motora reduzida, prolongamento das latências motoras distais, bloqueio de condução, dispersão temporal e latências de onda F prolongadas. Nas formas axonais, o destaque é a diminuição das amplitudes sensitivas e motoras. É importante notar que a ENMG pode ser normal no início do quadro, com alterações mais perceptíveis após cerca de 2 semanas do início dos sintomas.
A distinção crucial que a questão explora é entre o padrão desmielinizante e o axonal na ENMG. Enquanto a desmielinização afeta a bainha de mielina, retardando a condução do impulso (aumento da latência e redução da velocidade), a lesão axonal compromete o próprio axônio, reduzindo a amplitude do potencial de ação. Essa diferença é fundamental para o raciocínio clínico e para a interpretação do exame. A banca, ao oferecer alternativas com mecanismos fisiopatológicos diversos (infecção viral direta, amiloidose, deficiência de tiamina), testa exatamente o conhecimento da fisiopatologia da SGB e sua correlação com os achados eletrofisiológicos.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre os padrões desmielinizante e axonal na ENMG. No padrão desmielinizante (o mais comum na SGB), o que se altera é a velocidade de condução e a latência — a bainha de mielina é o alvo. No padrão axonal, o que se altera é a amplitude do potencial de ação — o axônio é o alvo. A alternativa A tenta confundir ao associar a SGB a um padrão axonal, e a alternativa D inverte os achados ao citar "amplitude normal" com "bloqueios de condução". Fique atento: na SGB desmielinizante, a amplitude pode estar preservada no início, mas a velocidade e a latência já estão alteradas.
Critério
Síndrome de Guillain-Barré (SGB)
Amiloidose
Deficiência de Tiamina
Mecanismo fisiopatológico
Reação autoimune contra bainha de mielina (mimetismo molecular)
Deposição amiloide periférica
Deficiência de tiamina (beribéri)
Padrão na ENMG
Desmielinizante: latência aumentada, velocidade de condução reduzida
A SGB não é causada por infecção direta do nervo periférico pelo vírus. O mecanismo é autoimune, mediado por resposta cruzada contra componentes do nervo. Além disso, o padrão clássico da SGB na ENMG é desmielinizante (latência aumentada, velocidade reduzida), não axonal. O padrão axonal ocorre em variantes menos comuns (AMAN/AMSAN), mas não é o mecanismo predominante descrito no caso.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa descreve com precisão o mecanismo fisiopatológico da SGB: reação autoimune contra a bainha de mielina. E o padrão esperado na ENMG é exatamente o da desmielinização: latência aumentada e velocidade de condução reduzida. O quadro clínico (fraqueza ascendente, arreflexia, parestesia pós-infecção) e o líquor (dissociação proteinocitológica) corroboram o diagnóstico.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A deposição amiloide periférica é característica da amiloidose, uma doença de depósito que pode causar neuropatia, mas não se manifesta com o quadro agudo ascendente pós-infeccioso nem com dissociação proteinocitológica típica da SGB. Além disso, na amiloidose a ENMG mostra padrão axonal, com redução de amplitude, e não "potencial de ação normal".
Alternativa D — ❌ Incorreta
A deficiência de tiamina (beribéri) causa neuropatia periférica, mas o quadro é tipicamente crônico, simétrico, distal e associado a outros sinais (insuficiência cardíaca, edema). Não há o pródromo infeccioso nem a dissociação proteinocitológica. Na ENMG, a neuropatia por deficiência de tiamina é predominantemente axonal, com redução de amplitude, e não apresenta "amplitude normal" com "bloqueios de condução" — estes são achados da desmielinização, não da lesão axonal.
Gabarito: letra B — a alternativa correta é a B, pois descreve corretamente o mecanismo autoimune contra a mielina e o padrão desmielinizante na ENMG, compatível com a Síndrome de Guillain-Barré.