Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — VUNESP 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
vu093507
Banca
VUNESP
Órgão
FAMEMA
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Pré-Requisito em Pediatria
Considerando aos conceitos fisiopatológicos e de manejo do choque séptico em pediatria, assinale a alternativa que apresenta corretamente uma particularidade da resposta fisiológica infantil.
AA hipoperfusão tecidual no choque séptico pediátrico é predominantemente causada por vasodilatação periférica generalizada, tornando os vasopressores a terapia de primeira linha, mesmo antes da expansão volêmica.
BDiferente dos adultos, o miocárdio de crianças pequenas tem pouca reserva para aumentar o volume sistólico, dependendo primariamente da frequência cardíaca para manter o débito cardíaco durante o choque.
CO aumento do débito cardíaco, e não a queda da resistência vascular periférica, é o principal fator associado à mortalidade no choque séptico pediátrico, justificando o papel precoce de inotrópicos em choque refratário a fluidos.
DA categorização do choque em “quente” ou “frio”, com base exclusivamente em sinais de exame físico, é altamente acurada em pediatria e deve ser o único guia para a escolha inicial do agente vasoativo.
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GabaritoB — Diferente dos adultos, o miocárdio de crianças pequenas tem pouca reserva para aumentar o volume sistólico, dependendo primariamente da frequência cardíaca para manter o débito cardíaco durante o choque.
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Choque séptico em pediatria: particularidades da resposta fisiológica infantil
Gabarito: letra B. A particularidade central da fisiologia cardiovascular infantil no choque séptico é a dependência da frequência cardíaca para manter o débito cardíaco, pois o miocárdio da criança pequena tem pouca reserva contrátil para aumentar o volume sistólico — exatamente o que a alternativa B afirma. Essa é uma diferença fundamental em relação ao adulto, cujo coração consegue aumentar o volume sistólico de forma mais eficiente. O manejo do choque séptico pediátrico, portanto, prioriza a identificação precoce de sinais de hipoperfusão (antes mesmo da hipotensão, que é um sinal tardio) e a reposição volêmica agressiva, seguida de agentes vasoativos conforme o perfil hemodinâmico.
O choque séptico é a forma mais comum de choque distributivo, caracterizado por hipoperfusão tecidual decorrente de vasodilatação periférica, aumento da permeabilidade capilar e, frequentemente, disfunção miocárdica. Na criança, a fisiopatologia tem nuances importantes: enquanto no adulto o choque séptico costuma se apresentar como choque "quente" (vasodilatado, com débito cardíaco alto), na criança o padrão mais comum é o choque "frio" (hipodinâmico, com baixo débito cardíaco e vasoconstrição periférica). Isso ocorre porque o miocárdio infantil tem menor massa muscular e menor reserva contrátil, sendo incapaz de aumentar significativamente o volume sistólico. Para compensar, o organismo depende da taquicardia — a frequência cardíaca é o principal mecanismo de aumento do débito cardíaco (DC = FC × VS). Essa limitação fisiológica explica por que a criança pequena tolera mal a bradicardia e por que a taquicardia é um sinal precoce e importante de choque.
Na prática, o reconhecimento do choque séptico pediátrico não depende da hipotensão, que é um sinal tardio e indica fase descompensada. Os sinais precoces incluem taquicardia, alteração do nível de consciência, tempo de enchimento capilar prolongado (> 2 segundos), extremidades frias ou quentes, e diminuição do débito urinário. O manejo inicial consiste em expansão volêmica com cristaloides (20 mL/kg em bolus, repetidos até 40-60 mL/kg), com reavaliação clínica contínua. Se houver persistência de hipoperfusão após a reposição volêmica, inicia-se agente vasoativo: adrenalina para o choque frio (hipodinâmico) e noradrenalina para o choque quente (hiperdinâmico). A escolha é guiada pelo exame clínico, mas não exclusivamente — a monitorização invasiva (pressão arterial, ecocardiografia, saturação venosa central) pode refinar a decisão.
A distinção entre choque "quente" e "frio" é útil, mas não é o único guia para a escolha do vasoativo. A alternativa D, que afirma ser "altamente acurada" e "único guia", é incorreta porque a avaliação clínica isolada pode ser enganosa, e a diretriz recomenda avaliação multimodal (clínica, ecocardiográfica e hemodinâmica) em casos refratários. Além disso, a alternativa A erra ao afirmar que a hipoperfusão é predominantemente por vasodilatação e que vasopressores são primeira linha antes da expansão volêmica — na criança, o padrão é predominantemente hipodinâmico (baixo débito), e a expansão volêmica é sempre o primeiro passo. A alternativa C também está incorreta: o principal fator associado à mortalidade não é o aumento do débito cardíaco, mas sim a persistência da hipoperfusão e a disfunção miocárdica; além disso, inotrópicos são indicados no choque refratário a fluidos, mas não como "papel precoce" antes da reposição volêmica adequada.
Guarde a fronteira entre a fisiologia do adulto e da criança: no adulto, o choque séptico é tipicamente vasodilatado (quente) e o coração aumenta o débito por aumento do volume sistólico; na criança, o padrão é hipodinâmico (frio) e o débito depende da frequência cardíaca. É exatamente nessa diferença que as alternativas se dividem.
Particularidade
Adulto
Criança
Padrão hemodinâmico predominante no choque séptico
Vasodilatado ("quente"), com débito cardíaco alto
Hipodinâmico ("frio"), com baixo débito cardíaco e vasoconstrição periférica
Mecanismo de aumento do débito cardíaco
Aumento do volume sistólico (reserva contrátil eficiente)
Dependência da frequência cardíaca (miocárdio com pouca reserva contrátil)
Sinal precoce de choque
Vasodilatação e hipotensão mais precoce
Taquicardia (hipotensão é sinal tardio)
Primeira etapa do manejo
Expansão volêmica
Expansão volêmica (20 mL/kg, até 40-60 mL/kg)
Agente vasoativo inicial (após volume)
Noradrenalina (choque quente)
Adrenalina (choque frio) ou noradrenalina (choque quente)
Choque séptico pediátrico
1Particularidade fisiológica
Miocárdio com pouca reserva contrátil
Débito cardíaco depende da FC
Taquicardia = sinal precoce
2Padrão hemodinâmico
Criança: choque frio (hipodinâmico)
Adulto: choque quente (vasodilatado)
3Manejo
Expansão volêmica (cristaloide 20 mL/kg)
Choque frio: adrenalina
Choque quente: noradrenalina
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a hipoperfusão no choque séptico pediátrico é predominantemente causada por vasodilatação periférica generalizada e que vasopressores são a terapia de primeira linha, mesmo antes da expansão volêmica. Isso inverte a fisiologia pediátrica: na criança, o padrão mais comum é o choque frio (hipodinâmico), com baixo débito cardíaco e vasoconstrição periférica, não vasodilatação. Além disso, a expansão volêmica é sempre o primeiro passo do manejo — vasopressores só são iniciados após reposição volêmica adequada (40-60 mL/kg) e persistência de hipoperfusão. A vasodilatação é o evento primordial no choque séptico do adulto, não da criança.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa está correta ao afirmar que o miocárdio de crianças pequenas tem pouca reserva para aumentar o volume sistólico, dependendo primariamente da frequência cardíaca para manter o débito cardíaco durante o choque. Isso é uma particularidade fisiológica bem estabelecida: o coração infantil tem menor massa muscular e menor contratilidade, então o aumento do débito cardíaco é obtido principalmente por taquicardia (DC = FC × VS). Essa é a base para a taquicardia ser um sinal precoce de choque na criança e para a bradicardia ser um sinal de deterioração iminente.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que o aumento do débito cardíaco, e não a queda da resistência vascular periférica, é o principal fator associado à mortalidade no choque séptico pediátrico, justificando o papel precoce de inotrópicos em choque refratário a fluidos. Há dois erros: (1) o principal fator de mortalidade não é o aumento do débito cardíaco, mas sim a persistência da hipoperfusão e a disfunção miocárdica; (2) inotrópicos (adrenalina) são indicados no choque refratário a fluidos, mas não como "papel precoce" antes da reposição volêmica — a sequência correta é expansão volêmica → reavaliação → vasoativo. Além disso, a queda da resistência vascular periférica é um componente importante do choque séptico, mas na criança o padrão predominante é o baixo débito cardíaco.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que a categorização do choque em "quente" ou "frio", com base exclusivamente em sinais de exame físico, é altamente acurada em pediatria e deve ser o único guia para a escolha inicial do agente vasoativo. Isso é incorreto por dois motivos: (1) a acurácia do exame físico isolado é limitada — a diretriz recomenda avaliação multimodal (clínica, ecocardiográfica e monitorização invasiva) em casos refratários; (2) a escolha do vasoativo não deve ser baseada exclusivamente no exame físico, mas sim na avaliação hemodinâmica completa. O exame físico é um ponto de partida, não o único guia.