Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — VUNESP 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
vu093525
Banca
VUNESP
Órgão
FAMEMA
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Pré-Requisito em Pediatria
Recém-nascido (RN) a termo, 4 dias de vida, sexo feminino, nascido de parto vaginal e em aleitamento materno exclusivo, é examinado. Ao exame físico, o pediatra observa: discreta descamação fina e ressecamento nas regiões dos tornozelos e pés, pequenas pápulas esbranquiçadas, puntiformes, de 1-2 mm, no dorso do nariz e na fronte, uma área reticular azul-acinzentada, com cerca de 5 cm de diâmetro, na região lombossacra, que não desaparece à digitopressão e máculas eritematosas, algumas com pápulas e pústulas amareladas de 1-3 mm sobre base avermelhada, principalmente no tronco e face, sem comedões, poupando palmas e plantas.Frente ao caso clínico apresentado, assinale a alternativa correta.
AA presença de máculas eritematosas com pápulas e pústulas é consistente com acne neonatal, uma condição inflamatória benigna e autolimitada que não requer intervenção. A conduta mais apropriada é tranquilizar a mãe e orientar sobre a resolução espontânea, evitando tratamentos desnecessários.
BA descamação e a presença das pápulas no dorso do nariz são fisiológicas. A área reticular azul-acinzentada na região lombossacra é uma mancha mongólica. A mãe deve ser orientada sobre sua benignidade e a importância do registro em prontuário para evitar futuras interpretações equivocadas (maus tratos).
CA discreta descamação nos tornozelos e pés e as pápulas esbranquiçadas no nariz são achados normais. Contudo, as pústulas presentes nas máculas eritematosas indicam uma pustulose neonatal. A conduta mais apropriada é realizar cultura da secreção das pústulas para descartar infecção bacteriana e iniciar antibiótico tópico profilático, dada a imaturidade da barreira cutânea do RN.
DA área reticular na região lombar é altamente sugestiva de cutis marmorata telangiectásica congênita e a criança deve ser cuidadosamente examinada para identificação de outras malformações vasculares, cardíacas e oculares comumente associadas.
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GabaritoB — A descamação e a presença das pápulas no dorso do nariz são fisiológicas. A área reticular azul-acinzentada na região lombossacra é uma mancha mongólica. A mãe deve ser orientada sobre sua benignidade e a importância do registro em prontuário para evitar futuras interpretações equivocadas (maus tratos).
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Dermatoses neonatais: distinguindo o fisiológico do patológico
Gabarito: letra B. O caso descreve um recém-nascido a termo com achados cutâneos típicos e benignos: descamação fisiológica, milium, mancha mongólica e eritema tóxico. A alternativa B identifica corretamente a descamação e as pápulas como fisiológicas, a área reticular azul-acinzentada como mancha mongólica e orienta sobre a benignidade e o registro em prontuário para evitar confusão com maus-tratos. As demais alternativas erram ao propor condutas invasivas ou diagnósticos incorretos.
O exame da pele do recém-nascido é um dos momentos mais ricos da avaliação neonatal, pois revela uma série de condições fisiológicas que, para os pais, parecem alarmantes, mas que são absolutamente benignas e autolimitadas. O pediatra precisa reconhecer cada uma delas para tranquilizar a família e evitar intervenções desnecessárias. Vamos dissecar cada achado do enunciado.
Descamação fisiológica: ocorre nos primeiros 15 dias de vida, podendo se estender até o final do primeiro mês. É mais evidente em regiões como tornozelos, pés e mãos, e resulta da adaptação da pele do ambiente intrauterino (úmido) para o extrauterino (seco). Não requer nenhum tratamento, apenas hidratação com emolientes se houver ressecamento excessivo.
Milium facial/sebáceo: são cistos de inclusão amarelo-esbranquiçados de 1 a 2 mm de diâmetro, que aparecem frequentemente na base do nariz, queixo, pálpebras e testa. Ocorrem por obstrução das glândulas sebáceas e acúmulo de secreção, com desaparecimento espontâneo. São extremamente comuns e não têm significado patológico.
Mancha mongólica: mancha de coloração azulada, especialmente em nádegas e região sacral (mas não exclusivamente), que não tem significado clínico e desaparece espontaneamente. É mais frequente em crianças de pele morena ou negra. A importância do registro em prontuário é crucial: como a mancha pode ser confundida com equimose (hematoma) decorrente de maus-tratos, o registro documenta que se trata de uma variação fisiológica, protegendo a família de acusações infundadas e o médico de interpretações equivocadas.
Eritema tóxico: dermatose de origem desconhecida, bastante comum, que ocorre mais frequentemente entre o 1º e o 4º dia de vida. Caracteriza-se por máculas eritematosas, com ou sem pequenas pápulas eritematosas ou amareladas, e/ou vesículo-pustulosas rodeadas por halo eritematoso, principalmente no tronco superior. As lesões são assintomáticas, podem ter caráter migratório e desaparecem em torno de uma semana. O enunciado descreve exatamente isso: "máculas eritematosas, algumas com pápulas e pústulas amareladas de 1-3 mm sobre base avermelhada, principalmente no tronco e face, sem comedões, poupando palmas e plantas". A ausência de comedões e o padrão das lesões afastam a acne neonatal, e a benignidade do quadro é confirmada pela evolução autolimitada.
A distinção crucial que a questão explora é entre o eritema tóxico (benigno, não requer intervenção) e a pustulose neonatal infecciosa (que exigiria investigação e tratamento). O eritema tóxico é um diagnóstico clínico, e a conduta é expectante. Já a pustulose neonatal por infecção bacteriana (como o impetigo bolhoso por Staphylococcus aureus) ou fúngica (candidíase) exigiria avaliação e tratamento específicos. A banca testa exatamente essa capacidade de diferenciar o que é fisiológico do que é patológico, e de não medicalizar achados normais.
Outra distinção importante é entre a mancha mongólica e a cutis marmorata telangiectásica congênita (CMTC). A mancha mongólica é uma mácula azul-acinzentada, bem delimitada, que não desaparece à digitopressão, mas que regride espontaneamente. A CMTC é uma condição vascular rara, caracterizada por livedo reticular persistente, que pode estar associada a outras malformações. A alternativa D tenta confundir o examinador ao sugerir que a área reticular lombossacra é CMTC, mas a descrição clássica de mancha mongólica (área azul-acinzentada, região lombossacra, não desaparece à digitopressão) é inequívoca.
A pegadinha central desta questão é a tentação de tratar o eritema tóxico como uma infecção. A alternativa C sugere realizar cultura e iniciar antibiótico tópico profilático, o que é completamente inadequado para uma condição benigna e autolimitada. A alternativa A erra ao chamar o quadro de acne neonatal, que se caracteriza por comedões (que o enunciado explicitamente exclui). A alternativa D erra ao diagnosticar CMTC, uma condição rara e associada a malformações, quando o quadro é de mancha mongólica.
Guarde a fronteira entre o fisiológico e o patológico na pele do recém-nascido: é exatamente nela que as alternativas se dividem. O eritema tóxico, o milium, a descamação e a mancha mongólica são variações da normalidade; a conduta é orientar e tranquilizar, nunca intervir.
Achado Cutâneo
Descrição no Caso
Diagnóstico
Conduta
Descamação fina em tornozelos/pés
Discreta, fisiológica
Descamação fisiológica neonatal
Hidratação/emoliente, orientação
Pápulas esbranquiçadas (1–2 mm) no nariz/fronte
Puntiformes, agrupadas
Milium sebáceo
Observação, regressão espontânea
Área reticular azul-acinzentada (5 cm) lombossacra
Não desaparece à digitopressão
Mancha mongólica
Registrar em prontuário (evitar confusão com maus-tratos)
Máculas eritematosas + pápulas/pústulas amareladas (1–3 mm) em tronco/face, sem comedões
Poupando palmas e plantas
Eritema tóxico neonatal
Tranquilizar, conduta expectante (sem antibiótico)
Dermatoses neonatais
1Fisiológicas (benignas)
Descamação fisiológica
Milium (pápulas esbranquiçadas)
Mancha mongólica
Eritema tóxico
2Patológicas (exigem conduta)
Acne neonatal (comedões)
Pustulose infecciosa (cultura + ATB)
Cutis marmorata telangiectásica congênita
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Alternativa A — ❌ Incorreta
O erro está em classificar as máculas eritematosas com pápulas e pústulas como acne neonatal. A acne neonatal é uma condição que se apresenta com comedões (cravos abertos e fechados), pápulas e pústulas, geralmente na face. O enunciado é explícito ao afirmar "sem comedões", o que afasta o diagnóstico de acne. O quadro descrito é de eritema tóxico neonatal, uma dermatose benigna e autolimitada, mas o nome da condição está errado. A conduta proposta (tranquilizar a mãe) é correta, mas o diagnóstico incorreto invalida a alternativa.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta alternativa identifica corretamente todos os achados: a descamação nos tornozelos e pés é fisiológica; as pápulas esbranquiçadas no dorso do nariz são milium (cistos de inclusão sebácea benignos); a área reticular azul-acinzentada na região lombossacra que não desaparece à digitopressão é a mancha mongólica. A conduta proposta é perfeita: orientar a mãe sobre a benignidade e registrar em prontuário para evitar futuras interpretações equivocadas (maus-tratos). A mancha mongólica, por sua coloração azulada, pode ser confundida com equimose, e o registro documental é uma medida de proteção tanto para a família quanto para o médico.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O erro está na conduta proposta para as pústulas. O quadro descrito é de eritema tóxico neonatal, uma condição benigna e autolimitada que não requer nenhuma intervenção. Realizar cultura da secreção e iniciar antibiótico tópico profilático é completamente inadequado e iatrogênico. A imaturidade da barreira cutânea do RN não justifica antibioticoterapia profilática em uma condição fisiológica. A alternativa confunde eritema tóxico com uma infecção bacteriana (como impetigo bolhoso), que teria apresentação clínica diferente (bolhas flácidas, lesões crostosas) e exigiria avaliação específica.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O erro está no diagnóstico da área reticular lombossacra como cutis marmorata telangiectásica congênita (CMTC). A descrição do enunciado — área reticular azul-acinzentada, com cerca de 5 cm, na região lombossacra, que não desaparece à digitopressão — é a descrição clássica da mancha mongólica. A CMTC é uma condição vascular rara, caracterizada por livedo reticular persistente (padrão de pele marmórea), que pode estar associada a malformações vasculares, cardíacas e oculares, mas sua apresentação é diferente e muito menos comum. A alternativa tenta confundir o examinador ao sugerir uma condição grave e rara para um achado extremamente comum e benigno.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre o eritema tóxico (benigno, autolimitado, não requer intervenção) e a acne neonatal (que apresenta comedões) ou uma pustulose infecciosa (que exigiria cultura e antibiótico). A palavra-chave é "sem comedões" — ela afasta a acne e confirma o eritema tóxico. Da mesma forma, a mancha mongólica é trocada pela cutis marmorata telangiectásica congênita, uma condição rara e grave, para testar se você conhece a apresentação clássica da mancha benigna. Com treino, você reconhece essas trocas de longe 💪.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar as dermatoses neonatais, monte um quadro mental com as características-chave: eritema tóxico (máculas eritematosas com pápulas/pústulas, tronco, 1º-4º dia, benigno), acne neonatal (comedões, face, relacionada a hormônios maternos), milium (pápulas esbranquiçadas de 1-2 mm, nariz/testa, cistos de inclusão), mancha mongólica (mácula azul-acinzentada, região sacral, não desaparece à digitopressão, benigna) e melanose pustulosa transitória (pústulas que se rompem deixando máculas hiperpigmentadas, mais comum em raça negra). Na dúvida, lembre-se: a maioria das lesões de pele no RN é benigna e autolimitada — a conduta padrão é tranquilizar e orientar.