Questão de Medicina — Endocrinologia — VUNESP 2025
Medicina›Endocrinologia
Código
vu093643
Banca
VUNESP
Órgão
FAMEMA
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Áreas Básicas e Acesso Direto
Adolescente de 17 anos, menarca aos 16, refere ter apresentado sete menstruações em um ano, com quadro de acne, hirsutismo e queda de cabelo.Com base no quadro descrito, assinale a alternativa que apresenta corretamente o diagnóstico mais provável.
ASíndrome dos ovários policísticos.
BHiperaldosteronismo primário.
CHipogonadismo hipogonadotrófico.
DNormalidade dentro dos dois primeiros anos da menarca.
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GabaritoA — Síndrome dos ovários policísticos.
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Síndrome dos Ovários Policísticos na Adolescência
Gabarito: letra A. O quadro de oligomenorreia (sete menstruações em um ano), acne, hirsutismo e queda de cabelo em adolescente com menarca há apenas um ano é mais compatível com síndrome dos ovários policísticos (SOP), pois preenche dois dos três critérios do Consenso de Rotterdam (alteração menstrual + hiperandrogenismo clínico). A alternativa D, que atribui o quadro à "normalidade" dos primeiros dois anos pós-menarca, é o principal distrator, mas a presença de sinais de hiperandrogenismo moderado a grave (acne + hirsutismo + alopecia) afasta essa hipótese e indica investigação laboratorial, conforme as diretrizes de saúde do adolescente.
A SOP é o distúrbio endócrino mais comum em mulheres em idade reprodutiva e a principal causa de hiperandrogenismo. Na adolescência, o diagnóstico é desafiador porque a imaturidade do eixo hipotálamo-hipófise-ovariano (HHO) causa, fisiologicamente, ciclos anovulatórios e irregulares nos primeiros dois anos após a menarca. No entanto, a irregularidade menstrual isolada não basta para diferenciar a normalidade da SOP — é a associação com hiperandrogenismo clínico ou laboratorial que direciona o diagnóstico. O Consenso de Rotterdam (2003) estabelece que a SOP é diagnosticada pela presença de pelo menos dois dos três critérios: (1) alteração dos ciclos menstruais (9 ciclos ou menos por ano), (2) hiperandrogenismo clínico (acne, hirsutismo, alopecia androgênica) ou laboratorial (elevação de testosterona, androstenediona ou DHEA-S), e (3) morfologia ovariana policística à ultrassonografia (mais de 12 folículos antrais ou volume ovariano ≥ 10 cm³). No caso apresentado, a paciente tem oligomenorreia (7 menstruações/ano) e hiperandrogenismo clínico evidente (acne, hirsutismo e queda de cabelo), preenchendo dois critérios — o que torna a SOP o diagnóstico mais provável, mesmo sem ultrassonografia.
A menarca aos 16 anos é tardia (o normal é entre 9 e 16 anos), mas não exclui a SOP. A idade ginecológica de 1 ano (tempo desde a menarca) é o fator que a banca explora na alternativa D: de fato, nos dois primeiros anos pós-menarca, a irregularidade menstrual é comum pela imaturidade do eixo HHO. Porém, as diretrizes são claras ao indicar avaliação laboratorial quando há sinais de hiperandrogenismo moderado a grave (acne ou hirsutismo), mesmo nesse período. A paciente apresenta exatamente isso — acne, hirsutismo e alopecia —, o que afasta a hipótese de "normalidade" e reforça a necessidade de investigar SOP. A presença de hiperandrogenismo clínico é o divisor de águas: na adolescente com ciclos irregulares e sinais androgênicos, a SOP é a causa mais provável, e não a simples imaturidade do eixo.
O hiperandrogenismo na SOP resulta do aumento da produção de andrógenos ovarianos (e, em menor grau, adrenais), estimulada pelo LH elevado e pela hiperinsulinemia associada à resistência insulínica. A testosterona livre é a fração bioativa e pode estar elevada mesmo com testosterona total normal, pois a SHBG (globulina ligadora de hormônios sexuais) está suprimida pela hiperinsulinemia. Os andrógenos, ao agirem no folículo piloso, causam hirsutismo; na pele, aumentam a produção de sebo (acne); e no couro cabeludo, promovem alopecia de padrão androgênico. Esses três sinais cutâneos, somados à oligomenorreia, formam o quadro clássico que a questão descreve.
O diagnóstico diferencial inclui hiperplasia adrenal congênita não clássica (HAC-NC), tumores secretores de andrógenos, síndrome de Cushing, hiperprolactinemia e tireoidopatias. No entanto, a apresentação crônica e gradual (menarca tardia, oligomenorreia, hirsutismo, acne) é muito mais típica de SOP do que de tumor (que costuma ter início abrupto e virilização intensa) ou de HAC-NC (que é menos prevalente, 1,5–2,5% das mulheres com hiperandrogenismo). O hiperaldosteronismo primário (alternativa B) causa hipertensão e hipocalemia, não hiperandrogenismo. O hipogonadismo hipogonadotrófico (alternativa C) cursa com hipoestrogenismo e ausência de sinais androgênicos — o oposto do quadro apresentado.
A pegadinha central desta questão é a alternativa D: o candidato pode ser tentado a atribuir a irregularidade menstrual à "normalidade" dos primeiros dois anos pós-menarca, ignorando que o hiperandrogenismo clínico (acne + hirsutismo + alopecia) é um sinal de alerta que exige investigação, mesmo nesse período. A banca testa exatamente o conhecimento de que a imaturidade do eixo HHO explica a irregularidade isolada, mas não a associação com sinais androgênicos. Guarde o critério: na adolescente com ciclos irregulares E hiperandrogenismo clínico, o diagnóstico mais provável é SOP, e não normalidade fisiológica — é esse o raciocínio que separa as alternativas.
SOP na adolescência
1Critérios de Rotterdam (2 de 3)
Alteração menstrual (oligomenorreia)
Hiperandrogenismo clínico/laboratorial
Ovários policísticos (USG)
2Sinais de hiperandrogenismo
Acne
Hirsutismo
Alopecia androgênica
3Diagnóstico diferencial
HAC não clássica
Tumor secretor de andrógenos
Síndrome de Cushing
4Armadilha da normalidade
Irregularidade isolada = fisiológica
2 anos pós-menarca
Irregularidade + hiperandrogenismo = SOP
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A SOP é o diagnóstico mais provável porque a paciente preenche dois dos três critérios de Rotterdam: oligomenorreia (sete menstruações em um ano, ou seja, menos de 9 ciclos/ano) e hiperandrogenismo clínico (acne, hirsutismo e alopecia androgênica). A menarca tardia (16 anos) e a idade ginecológica de 1 ano não excluem o diagnóstico, e a presença de sinais androgênicos moderados a graves é indicação formal de investigação, conforme as diretrizes de saúde do adolescente. A SOP é a principal causa de hiperandrogenismo em mulheres jovens, e o quadro descrito é o protótipo da síndrome.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O hiperaldosteronismo primário é um distúrbio da glândula adrenal que causa hipertensão arterial, hipocalemia, fraqueza muscular e poliúria — não cursa com hiperandrogenismo, acne, hirsutismo ou alterações menstruais. A banca inclui essa alternativa como distrator para testar se o candidato associa "glândula adrenal" a "andrógenos", mas o aldosteronismo não é causa de hiperandrogenismo. Não há qualquer dado no enunciado (como hipertensão ou hipocalemia) que sugira esse diagnóstico.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O hipogonadismo hipogonadotrófico é caracterizado por baixa produção de gonadotrofinas (LH e FSH) e consequente hipoestrogenismo, cursando com amenorreia ou oligomenorreia, mas sem sinais de hiperandrogenismo — na verdade, há ausência de caracteres sexuais secundários ou atrofia deles. A paciente apresenta acne, hirsutismo e queda de cabelo, que são manifestações de excesso de andrógenos, exatamente o oposto do hipogonadismo. Essa alternativa confunde o candidato que foca apenas na irregularidade menstrual, esquecendo o hiperandrogenismo.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A imaturidade do eixo HHO nos dois primeiros anos pós-menarca causa, de fato, ciclos irregulares e anovulatórios — isso é verdade. Porém, a "normalidade" não se aplica quando há sinais de hiperandrogenismo moderado a grave, como acne, hirsutismo e alopecia. As diretrizes indicam avaliação laboratorial nesses casos, mesmo dentro do período de 2 anos pós-menarca. A paciente tem sete menstruações em um ano (oligomenorreia) associada a três sinais androgênicos — isso não é fisiológico, é SOP. A banca explora exatamente a confusão entre "irregularidade menstrual fisiológica da adolescência" e "irregularidade + hiperandrogenismo = SOP".
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta fazer o candidato acreditar que toda irregularidade menstrual nos primeiros dois anos pós-menarca é normal. Mas a regra é clara: a imaturidade do eixo HHO explica a irregularidade isolada; quando há hiperandrogenismo clínico (acne, hirsutismo, alopecia), o quadro deixa de ser fisiológico e vira indicação de investigação para SOP. A alternativa D é a armadilha clássica — não caia nela: a presença de sinais androgênicos é o sinal de alerta que muda o diagnóstico.
PEGA ESSA DICA!
Na prova, ao ver uma adolescente com ciclos irregulares, pergunte-se: há sinais de hiperandrogenismo? Se sim, SOP é o diagnóstico mais provável (critérios de Rotterdam: 2 de 3 — oligomenorreia, hiperandrogenismo clínico/laboratorial, ovários policísticos). Se não, aí sim a irregularidade isolada pode ser normal nos primeiros 2 anos pós-menarca. Memorize o gatilho: irregularidade + hirsutismo/acne/alopecia = SOP até prova em contrário.