Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — VUNESP 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
vu093655
Banca
VUNESP
Órgão
FAMEMA
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Áreas Básicas e Acesso Direto
Pré-escolar, sexo feminino, 2 anos e 6 meses de idade, previamente hígida, chega ao pronto atendimento com quadro de febre de até 39,5 °C, tosse e coriza iniciados há 36 horas, com vômitos e hiporresponsividade nas últimas 3 horas. Ao exame clínico: regular estado geral; descorada 2+/4+; FC: 170 bpm; PA: 78/44 mmHg; FR: 42 irpm; SpO₂: 90% em ar ambiente; tempo de enchimento capilar: 4 segundos; extremidades frias; pulsos filiformes. Exame pulmonar com presença de tiragem subdiafragmática leve, ausculta com murmúrios vesiculares presentes bilateralmente com sopro tubário em ápice direito. Sem outras alterações relevantes. Administrado oxigênio em máscara não reinalante com aumento da SpO₂ para 95% e resolução do desconforto respiratório. Após duas tentativas, obtém-se acesso venoso periférico, sendo também colhida hemocultura.Entre as condutas listadas a seguir, qual é a primeira a ser realizada?
AIniciar antibiótico endovenoso de amplo espectro (ceftriaxone).
BIniciar sedação para instalação de dispositivo de ventilação não invasiva (VNI).
CRealizar punção torácica de alívio em 2o espaço intercostal (linha hemiclavicular).
DRealizar expansão com cristaloide 20 mL/kg endovenosa em 5–10 min.
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GabaritoD — Realizar expansão com cristaloide 20 mL/kg endovenosa em 5–10 min.
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Sepse e choque séptico em pediatria: a ordem das condutas
Gabarito: letra D. A primeira conduta a ser realizada é a expansão volêmica com cristaloide 20 mL/kg endovenosa em 5–10 minutos, pois a criança apresenta critérios de choque séptico (hipotensão, taquicardia, enchimento capilar lentificado, extremidades frias e pulsos filiformes) e, no atendimento inicial, a reposição volêmica agressiva é a prioridade absoluta, antes mesmo do antibiótico. Essa sequência é preconizada pelas diretrizes de sepse pediátrica, como as do Instituto Latino Americano de Sepse (ILAS), que orientam a estabilização hemodinâmica imediata.
A sepse é uma disfunção orgânica potencialmente fatal causada por uma resposta desregulada do hospedeiro à infecção. No paciente pediátrico, o reconhecimento precoce é desafiador porque os sinais de hipoperfusão podem ser sutis e a compensação fisiológica é mais eficiente que no adulto. A criança deste caso tem 2 anos e 6 meses, faixa etária em que os parâmetros de SIRS (Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica) incluem taquicardia > 140 bpm, FR > 40 irpm e temperatura > 38,5 °C — todos presentes. Além disso, a hipotensão (PA 78/44 mmHg) está abaixo do percentil 5 para a idade, que é calculado como 70 + (idade em anos × 2), ou seja, 70 + (2,5 × 2) = 75 mmHg. A criança também tem sinais de má perfusão periférica (TEC 4 segundos, extremidades frias, pulsos filiformes) e hipoxemia (SpO₂ 90%), configurando sepse grave com disfunção cardiovascular e respiratória.
O tratamento inicial do choque séptico pediátrico segue uma sequência lógica e temporal: primeiro, estabilizar a via aérea e a respiração (já feito com oxigênio, que melhorou a SpO₂ e resolveu o desconforto respiratório); segundo, restaurar a volemia com expansão rápida; terceiro, iniciar antibióticos de amplo espectro; e, somente depois, considerar outras intervenções como suporte ventilatório ou drenagem torácica. A expansão volêmica é a medida que ataca diretamente a fisiopatologia do choque — a hipovolemia relativa e a má distribuição do fluxo sanguíneo — e deve ser feita em bolus de 20 mL/kg de cristaloide (soro fisiológico ou Ringer lactato) em 5–10 minutos, podendo ser repetida até 40–60 mL/kg na primeira hora, sempre reavaliando a resposta clínica.
A grande pegadinha desta questão é a ordem das condutas. O antibiótico é fundamental, mas não é a primeira medida — a prioridade é a reposição volêmica, pois sem volume intravascular adequado, o antibiótico não chega aos tecidos e o paciente permanece em choque. A sedação para VNI e a punção torácica são condutas que podem ser necessárias em contextos específicos, mas não são a primeira ação diante de um choque séptico com hipotensão. A criança tem sopro tubário em ápice direito, o que sugere uma pneumonia, mas não há indicação de punção torácica de alívio — essa seria para pneumotórax hipertensivo, que se manifesta com ausculta abolida, desvio de traqueia e desconforto respiratório grave, não com murmúrios vesiculares presentes.
Guarde a sequência de ouro do choque séptico pediátrico: A (vias aéreas) → B (respiração) → C (circulação/volume) → D (drogas/antibióticos). É exatamente nessa ordem que as alternativas se dividem: a letra D é a única que corresponde ao passo C, enquanto as demais pulam etapas ou indicam procedimentos não pertinentes ao caso.
1A — Vias aéreas
2B — Respiração (O₂)
3C — Circulação: expansão 20 mL/kg
4D — Drogas/antibióticos
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Iniciar antibiótico endovenoso de amplo espectro (ceftriaxone) é uma conduta correta e necessária, mas não é a primeira. A prioridade no choque séptico é a reposição volêmica, pois a hipovolemia e a má perfusão tecidual são a causa imediata do risco de vida. O antibiótico deve ser administrado o mais precocemente possível, idealmente na primeira hora, mas após ou concomitantemente à expansão volêmica inicial. A banca explora aqui a confusão entre "conduta importante" e "primeira conduta" — o antibiótico é essencial, mas não é o passo inicial.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Iniciar sedação para instalação de VNI é uma conduta que não se justifica neste momento. A criança apresentava desconforto respiratório e hipoxemia, mas houve resolução do desconforto e melhora da SpO₂ para 95% com oxigênio em máscara não reinalante. Ou seja, a via aérea e a respiração já foram estabilizadas com oxigenoterapia simples. A VNI seria considerada se houvesse falência respiratória persistente ou progressiva, o que não é o caso. Além disso, sedar uma criança em choque séptico, sem antes restaurar a volemia, pode agravar a hipotensão e precipitar parada cardiorrespiratória.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Realizar punção torácica de alívio no 2º espaço intercostal na linha hemiclavicular é o tratamento do pneumotórax hipertensivo, uma emergência com quadro clínico bem diferente: ausculta pulmonar abolida unilateralmente, desvio de traqueia, enfisema subcutâneo, desconforto respiratório grave e hipoxemia refratária. Nesta criança, o exame mostra murmúrios vesiculares presentes bilateralmente e o desconforto respiratório resolveu com oxigênio, o que afasta pneumotórax hipertensivo. O sopro tubário em ápice direito sugere consolidação pulmonar (pneumonia), que não é indicação de punção torácica. A banca testa aqui o conhecimento de quando não realizar um procedimento invasivo.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Realizar expansão com cristaloide 20 mL/kg endovenosa em 5–10 minutos é a primeira conduta no choque séptico pediátrico. A criança tem critérios de choque (hipotensão, taquicardia, TEC 4 segundos, extremidades frias, pulsos filiformes) e a reposição volêmica agressiva é a medida que restaura a perfusão tecidual e estabiliza o paciente. O volume de 20 mL/kg em 5–10 minutos é o padrão recomendado pelas diretrizes de sepse pediátrica, podendo ser repetido conforme a resposta clínica. Esta é a conduta que ataca diretamente a fisiopatologia do choque e deve preceder o antibiótico e qualquer outra intervenção.
NÃO CAIA NESSA!
A banca adora inverter a ordem das prioridades no choque séptico pediátrico. O candidato tende a marcar o antibiótico (letra A) por ser "o tratamento da infecção", mas a sequência correta é volume primeiro, antibiótico depois. Lembre-se: sem volume intravascular, o antibiótico não chega aos tecidos e o paciente permanece em choque. Outra armadilha é a letra C, que sugere punção torácica — um procedimento para pneumotórax hipertensivo, que não se aplica a este caso com murmúrios vesiculares presentes bilateralmente. Com treino, você enxerga essas trocas de longe 💪
PEGA ESSA DICA!
Para questões de emergência pediátrica, memorize a sequência do atendimento inicial: A (vias aéreas) → B (respiração) → C (circulação/volume) → D (drogas/antibióticos). Quando a banca perguntar "qual a primeira conduta?", procure a alternativa que corresponde ao passo C (expansão volêmica) se o paciente estiver em choque, ou ao passo A/B se houver comprometimento respiratório. Essa lógica resolve a maioria das questões de prioridade.