Durante uma visita domiciliar, o médico atende Carolina, de 76 anos, com história de duas quedas nos últimos seis meses (uma ao levantar-se à noite e outra no banheiro). Refere tontura ao levantar, medo de cair e sente que está diminuindo sua capacidade de fazer as atividades do dia a dia. Atualmente está em uso de hidroclorotiazida 25 mg/d, metoprolol 50 mg 2x/d e clonazepam 0,5 mg à noite, sem modificação recente nas medicações.No domicílio, notam-se tapetes soltos na sala e iluminação fraca no corredor para o banheiro. Carolina usa chinelos moles e, às vezes, caminha de meias. Ao exame físico, nota-se marcha lenta, sem sinais neurológicos focais. PA sentada: 140 x 85 mmHg; PA ortostática: 130 x 80 mmHg.Qual é a conduta com maior impacto imediato na redução do risco de novas quedas nesse caso?
AAplicar o Timed Up and Go para classificar o risco de queda e rastrear sarcopenia antes de definir a intervenção prioritária.
BPrescrever treino de força e equilíbrio supervisionado, remover tapetes e melhorar a iluminação do domicílio.
CIniciar esquema de desprescrição do clonazepam e encaminhar para programa supervisionado de força e equilíbrio.
DReduzir o diurético tiazídico, ajustar a dose do betabloqueador e fornecer bengala para a instabilidade postural.
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GabaritoC — Iniciar esquema de desprescrição do clonazepam e encaminhar para programa supervisionado de força e equilíbrio.
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Prevenção de quedas em idosos: desprescrição e exercício
Gabarito: letra C. A conduta de maior impacto imediato na redução do risco de novas quedas é a desprescrição do clonazepam (benzodiazepínico de alto risco) associada ao encaminhamento para programa supervisionado de força e equilíbrio — as duas intervenções com maior evidência de eficácia na prevenção de quedas em idosos da comunidade, conforme as diretrizes de geriatria (Harrison, capítulo sobre quedas). A alternativa C combina exatamente esses dois pilares, enquanto as demais ou são incompletas ou priorizam intervenções de menor impacto imediato.
A prevenção de quedas no idoso é um dos temas mais cobrados em geriatria e exige uma abordagem multifatorial. O caso de Carolina é clássico: idosa de 76 anos, com duas quedas nos últimos seis meses, medo de cair, tontura ao levantar e uso de medicações de alto risco — hidroclorotiazida, metoprolol e clonazepam. A avaliação deve considerar as circunstâncias das quedas, o uso de medicamentos, problemas médicos agudos ou crônicos, mobilidade, visão, marcha e equilíbrio, função de membros inferiores, avaliação neurológica básica e avaliação cardiovascular.
O ponto central é a revisão e redução de medicamentos, especialmente os psicofármacos. Os benzodiazepínicos (como o clonazepam) são reconhecidamente um dos principais fatores de risco modificáveis para quedas em idosos, por causarem sedação, tontura, prejuízo do equilíbrio e da marcha. A desprescrição desses fármacos tem impacto imediato e significativo na redução do risco de quedas. Além disso, o exercício multicomponente (força, equilíbrio e resistência) é a intervenção não farmacológica com maior evidência de eficácia, reduzindo a taxa de quedas em cerca de 29% quando feito em grupo e 32% quando feito em casa.
No caso específico, a PA ortostática de 130 x 80 mmHg (queda de 10 mmHg na sistólica) não configura hipotensão ortostática significativa (que seria queda ≥ 20 mmHg), o que torna a alternativa D menos prioritária. A alternativa B, embora correta em parte (exercício e modificações ambientais), não aborda o fator de risco mais importante e modificável: o clonazepam. A alternativa A propõe apenas avaliação, sem intervenção imediata. A alternativa C é a mais completa e com maior impacto imediato, pois ataca o principal fator de risco farmacológico e implementa a intervenção não farmacológica mais eficaz.
A pegadinha desta questão está em priorizar intervenções que parecem lógicas (como ajustar anti-hipertensivos ou modificar o ambiente) mas que, no contexto apresentado, têm menor impacto imediato do que a desprescrição do benzodiazepínico. A banca explora a tendência do candidato de focar nos fatores ambientais e cardiovasculares, quando a evidência mais forte aponta para a revisão de medicamentos psicotrópicos e o exercício supervisionado.
Prevenção de quedas em idosos
1Intervenções de maior impacto
Desprescrição de psicofármacos (clonazepam)
Exercício supervisionado (força e equilíbrio)
2Intervenções de menor impacto imediato
Modificações ambientais (tapetes, iluminação)
Ajuste de anti-hipertensivos
sem hipotensão significativa
Dispositivos auxiliares (bengala)
3Avaliação (não é intervenção)
Timed Up and Go
Rastreio de sarcopenia
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Aplicar o Timed Up and Go (TUG) é uma ferramenta de avaliação do risco de queda, não uma intervenção. O enunciado pede uma conduta com impacto imediato na redução do risco, e a alternativa A apenas propõe classificar o risco e rastrear sarcopenia antes de definir a intervenção — ou seja, adia a ação. Embora o TUG seja útil na avaliação, ele não reduz o risco por si só. A conduta correta deve combinar intervenções ativas, como desprescrição e exercício.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B propõe treino de força e equilíbrio supervisionado, remoção de tapetes e melhora da iluminação — todas intervenções válidas e com evidência. Porém, ela omite o fator de risco mais importante e modificável do caso: o clonazepam. A revisão e redução de medicamentos psicotrópicos é recomendação explícita para todos os pacientes que já apresentaram quedas. Sem a desprescrição do benzodiazepínico, o impacto imediato na redução do risco é menor, pois o clonazepam continua comprometendo o equilíbrio e a marcha. A alternativa é incompleta e, portanto, inferior à C.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa C combina as duas intervenções com maior evidência de impacto imediato: desprescrição do clonazepam (benzodiazepínico de alto risco) e encaminhamento para programa supervisionado de força e equilíbrio. A revisão e redução de medicamentos, especialmente psicofármacos, é recomendação de primeira linha na prevenção de quedas em idosos que já caíram. O exercício multicomponente supervisionado (força, equilíbrio e resistência) é a intervenção não farmacológica mais eficaz, com redução de até 32% na taxa de quedas. A combinação dessas duas medidas ataca simultaneamente o principal fator de risco farmacológico e o principal fator de risco físico, maximizando o impacto imediato.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D propõe reduzir o diurético tiazídico, ajustar o betabloqueador e fornecer bengala. No caso, a PA ortostática é 130 x 80 mmHg, com queda de apenas 10 mmHg na sistólica — não configura hipotensão ortostática significativa (que seria queda ≥ 20 mmHg). Portanto, ajustar anti-hipertensivos não é a prioridade imediata. Além disso, a bengala é um dispositivo auxiliar que pode ajudar na marcha, mas não substitui a desprescrição do benzodiazepínico nem o treino de equilíbrio. A alternativa ignora o fator de risco mais relevante (clonazepam) e propõe intervenções de menor impacto no contexto apresentado.
Gabarito: letra C — desprescrição do clonazepam + programa supervisionado de força e equilíbrio.