Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — VUNESP 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
vu093787
Banca
VUNESP
Órgão
HIAE
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Acesso Direto
Paciente do sexo masculino, 10 anos, é atendido na unidade básica de saúde com queixa de urina avermelhada há dois dias; nega febre, disúria ou queixas abdominais. Refere ter apresentado episódio de faringoamigdalite há aproximadamente 2 semanas, tratado ambulatorialmente. Ao exame físico, apresenta edema palpebral discreto (1+/4+) e pressão arterial de 130 x 85 mmHg, compatível com valores acima do percentil 95 para idade. Foram solicitados exames complementares, e o paciente permanece em acompanhamento na unidade.Com base na hipótese diagnóstica mais provável, assinale a alternativa correta.
AA presença de hipocomplementemia (C3 e CH50 reduzidos) é achado patognomônico dessa glomerulopatia.
BA biópsia renal revela, classicamente, depósitos de IgA no mesângio.
CA hematúria observada nesses casos é predominantemente formada por hemácias isomórficas.
DA hematúria microscópica persistente pode durar até 18 meses, sem representar critério de mau prognóstico.
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GabaritoD — A hematúria microscópica persistente pode durar até 18 meses, sem representar critério de mau prognóstico.
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Glomerulonefrite aguda pós-estreptocócica (GNAPE)
Gabarito: letra D. O quadro clínico — criança com hematúria macroscópica, edema e hipertensão, precedida de faringoamigdalite há cerca de 2 semanas — é clássico de glomerulonefrite aguda pós-estreptocócica (GNAPE), e a afirmativa correta é a que reconhece que a hematúria microscópica pode persistir por até 18 meses sem implicar mau prognóstico, pois a doença é autolimitada na maioria dos casos. As demais alternativas erram ao atribuir à GNAPE características de outras glomerulopatias (hipocomplementemia como achado patognomônico, depósitos de IgA no mesângio) ou ao inverter o padrão morfológico das hemácias na hematúria glomerular.
A GNAPE é a glomerulopatia mais comum na infância, tipicamente precedida por infecção estreptocócica de vias aéreas superiores (faringoamigdalite) ou de pele (impetigo), com um período de latência de 1 a 3 semanas. O mecanismo é imunológico: há deposição de imunocomplexos circulantes (antígeno estreptocócico + anticorpo) no glomérulo, com ativação do complemento pela via clássica. Isso explica o achado laboratorial de hipocomplementemia (C3 e CH50 reduzidos) na fase aguda — mas atenção: esse é um achado típico e esperado, não patognomônico, pois outras glomerulopatias (como o lúpus eritematoso sistêmico e a glomerulonefrite membranoproliferativa) também cursam com consumo de complemento. A tríade clássica é hematúria (macroscópica ou microscópica, presente em 100% dos casos), edema e hipertensão arterial, todos decorrentes da hipervolemia causada pela retenção hidrossalina.
A hematúria glomerular é caracterizada por hemácias dismórficas, ou seja, com alterações de forma — sendo o acantócito a mais característica. Isso ocorre porque as hemácias, ao atravessarem a membrana basal glomerular lesada, sofrem deformação mecânica e osmótica. Portanto, a alternativa que fala em hemácias isomórficas está invertendo o conceito: hemácias isomórficas (sem alteração de forma) são típicas de hematúria de origem não glomerular, como litíase urinária ou infecção do trato urinário. A distinção entre hematúria glomerular (dismórfica) e não glomerular (isomórfica) é um dos pilares da propedêutica nefrológica.
O diagnóstico da GNAPE é essencialmente clínico-laboratorial, e a biópsia renal é reservada para casos atípicos, como ausência de hipocomplementemia, queda progressiva da função renal ou ausência de melhora após várias semanas. Quando indicada, a biópsia revela proliferação endocapilar difusa com depósitos de IgG e C3 em padrão "lumpy-bumpy" (grumoso) ao longo da membrana basal glomerular — e não depósitos de IgA no mesângio, que são a marca da nefropatia por IgA (doença de Berger). A nefropatia por IgA é outra causa importante de hematúria na infância, mas costuma ocorrer de forma síncrona ou poucos dias após a infecção respiratória (hematúria sinfaringítica), sem o período de latência de 2 semanas, e sem hipocomplementemia.
O prognóstico da GNAPE na infância é excelente: a maioria dos pacientes recupera a função renal completamente, com resolução do edema e da hipertensão em 1 a 2 semanas. A hematúria microscópica, no entanto, pode persistir por meses — e é exatamente esse o ponto cobrado na alternativa D: a persistência da hematúria microscópica por até 18 meses não é critério de mau prognóstico, sendo uma evolução esperada e benigna. O que indica mau prognóstico seria a persistência de proteinúria, hipertensão ou queda do clearance de creatinina. A alternativa D está correta ao afirmar que essa persistência não representa critério de mau prognóstico.
A pegadinha central desta questão é a troca de características entre glomerulopatias distintas: a banca oferece achados típicos da nefropatia por IgA (depósitos de IgA no mesângio) e da GNAPE (hipocomplementemia) como se fossem intercambiáveis, e inverte o padrão morfológico das hemácias. O candidato que domina o quadro clínico da GNAPE e sabe diferenciá-la das outras glomerulopatias resolve a questão com segurança. Guarde a tríade: latência de 1-3 semanas + hipocomplementemia + hematúria dismórfica — é ela que separa a GNAPE das demais.
GNAPE: Quadro clínico (Latência 1–3 semanas, Hematúria (100%), Edema, Hipertensão); Laboratório (Hipocomplementemia (C3/CH50 ↓), Hematúria dismórfica (acantócitos)); Histologia (Proliferação endocapilar difusa, Depósitos IgG e C3 "lumpy-bumpy"); Prognóstico (Autolimitada na infância, Hematúria microscópica até 18 meses (benigna), Mau prognóstico: proteinúria, HAS, queda do clearance)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A hipocomplementemia (C3 e CH50 reduzidos) é um achado típico da GNAPE na fase aguda, mas não é patognomônico. Outras glomerulopatias também cursam com consumo de complemento, como o lúpus eritematoso sistêmico e a glomerulonefrite membranoproliferativa. O termo "patognomônico" é o erro: nenhum achado laboratorial isolado é exclusivo de uma única doença. A banca explora a confusão entre "achado esperado" e "achado exclusivo".
Alternativa B — ❌ Incorreta
A biópsia renal na GNAPE revela proliferação endocapilar difusa com depósitos de IgG e C3 em padrão "lumpy-bumpy" (grumoso) na membrana basal glomerular. Os depósitos de IgA no mesângio são a marca da nefropatia por IgA (doença de Berger), outra causa de hematúria na infância, mas com apresentação clínica distinta (hematúria sinfaringítica, sem latência de 2 semanas, sem hipocomplementemia). A alternativa troca o padrão histológico de duas glomerulopatias diferentes.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A hematúria glomerular é caracterizada por hemácias dismórficas, com alterações de forma — sendo o acantócito o mais característico. Hemácias isomórficas (sem alteração de forma) são típicas de hematúria de origem não glomerular, como litíase urinária ou infecção do trato urinário. A alternativa inverte o padrão morfológico: na GNAPE, a hematúria é dismórfica, não isomórfica.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A GNAPE é autolimitada na maioria dos casos, e a hematúria microscópica pode persistir por até 18 meses sem representar critério de mau prognóstico. O que indica mau prognóstico seria a persistência de proteinúria, hipertensão arterial ou queda do clearance de creatinina. A alternativa está correta ao reconhecer que a persistência da hematúria microscópica é uma evolução esperada e benigna na GNAPE pediátrica.