Questão de Medicina — Cirurgia Geral — VUNESP 2025
Medicina›Cirurgia Geral
Código
vu093811
Banca
VUNESP
Órgão
HIAE
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Acesso Direto
Homem de 32 anos, previamente hígido, com história de dor abdominal em andar superior de forte intensidade há 2 dias, associada a dois episódios de vômito, nega sintomas prévios a esse período, mas refere episódio de ingestão de bebida alcóolica em grande quantidade há 3 dias. Apresenta dor constante, graduação 8 em 10, sem fatores de melhora ou piora, acometendo todo o andar superior.Ao exame físico, estava em regular estado geral e com fácies de dor, tendo apresentado vômito na admissão. A frequência cardíaca é de 125 bpm e a pressão arterial de 110 x 85 mmHg. Pouco colaborativo, não permite exame físico abdominal adequado por dor. Realizou o exame de imagem exibido a seguir e, após retornar do exame, evoluiu com rebaixamento do nível de consciência, hipotensão e má perfusão periférica.Diante do quadro, assinale a alternativa que apresenta a conduta terapêutica adequada nesse momento.
ALaparotomia exploradora.
BLaparoscopia diagnóstica.
CSuporte intensivo, expansão volêmica com ringer lactato, seguida de manutenção com 1,5 mL/kg/h e jejum por enquanto.
DSuporte intensivo, hidratação, ceftriaxone e metronidazol.
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GabaritoA — Laparotomia exploradora.
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Gabarito: letra A. O paciente apresenta quadro clínico e laboratorial compatível com pancreatite aguda grave (dor abdominal em andar superior, vômitos, etilismo recente, taquicardia, hipotensão, rebaixamento do nível de consciência e má perfusão periférica), evoluindo com instabilidade hemodinâmica e provável necrose infectada ou síndrome compartimental abdominal, indicações absolutas de laparotomia exploradora de urgência. A conduta conservadora (alternativas C e D) é inadequada diante da deterioração clínica aguda, e a laparoscopia diagnóstica (alternativa B) não é o procedimento de escolha em paciente instável.
A pancreatite aguda é um processo inflamatório do pâncreas, geralmente desencadeado por cálculos biliares ou etilismo, que pode variar de uma forma edematosa leve a uma forma necro-hemorrágica grave. A fisiopatologia envolve a ativação prematura das enzimas digestivas dentro do próprio órgão, levando a autodigestão, liberação de citocinas pró-inflamatórias e, nos casos graves, a síndrome da resposta inflamatória sistêmica (SIRS), com disfunção orgânica múltipla. O diagnóstico é clínico-laboratorial, com a dosagem de amilase e lipase (elevação superior a 3 vezes o valor de referência), e a tomografia computadorizada (TC) com contraste é o exame de imagem de escolha para avaliar complicações locais, como necrose pancreática, abscessos e coleções líquidas.
A gravidade da pancreatite é estratificada por critérios como Ranson, APACHE II e BISAP, que consideram variáveis clínicas e laboratoriais nas primeiras 48 horas. A presença de falência orgânica persistente (cardiovascular, respiratória ou renal) por mais de 48 horas define a forma grave, com mortalidade significativa. No caso apresentado, o paciente evolui com choque (hipotensão, taquicardia, má perfusão), rebaixamento do nível de consciência e provável disfunção orgânica múltipla, configurando um quadro de alta gravidade que exige intervenção imediata.
A laparotomia exploradora está indicada na pancreatite aguda grave quando há necrose infectada (confirmada por punção aspirativa ou por presença de gás na TC), síndrome compartimental abdominal, hemorragia intra-abdominal ou perfuração de víscera oca. A cirurgia precoce (nas primeiras 48-72 horas) é reservada para casos de instabilidade hemodinâmica refratária ao suporte clínico, como o do paciente em questão. O procedimento visa a necrosectomia (remoção do tecido necrótico), drenagem de coleções e lavagem da cavidade abdominal, com o objetivo de controlar o foco infeccioso e reduzir a carga inflamatória.
A conduta inicial na pancreatite aguda, mesmo nas formas graves, é suporte clínico intensivo: jejum, hidratação venosa agressiva com Ringer lactato (para repor as perdas do terceiro espaço), analgesia, correção de distúrbios hidreletrolíticos e monitorização em unidade de terapia intensiva. A antibioticoterapia profilática não é recomendada de rotina, mas é indicada quando há suspeita de necrose infectada ou sepse abdominal. No entanto, quando o paciente apresenta deterioração clínica progressiva com instabilidade hemodinâmica refratária, a cirurgia de urgência se torna imperativa, mesmo sem confirmação de infecção, pois a demora pode ser fatal.
A laparoscopia diagnóstica é uma ferramenta útil em casos de abdome agudo de etiologia indeterminada, mas em paciente instável (hipotenso, com má perfusão) o pneumoperitônio pode agravar a hipotensão e a acidose, sendo contraindicada. A via laparoscópica também não é adequada para a necrosectomia extensa, sendo preferível a laparotomia. Portanto, a alternativa B é incorreta.
A alternativa C propõe apenas suporte intensivo, expansão volêmica e jejum, sem considerar a necessidade de intervenção cirúrgica diante da deterioração clínica. Embora o suporte seja fundamental, ele não é suficiente para reverter o quadro de choque refratário causado por necrose infectada ou síndrome compartimental. A alternativa D adiciona antibioticoterapia, mas também não aborda a necessidade de cirurgia, sendo igualmente inadequada.
A pegadinha desta questão está em reconhecer que, apesar de a pancreatite aguda ser inicialmente tratada de forma conservadora, a instabilidade hemodinâmica refratária e a deterioração clínica são indicações de cirurgia de urgência. O candidato pode ser tentado a escolher a alternativa C (suporte intensivo), que é a conduta inicial correta, mas não a conduta adequada neste momento, após a piora clínica. A chave é identificar os sinais de alarme (hipotensão, rebaixamento do nível de consciência, má perfusão) que indicam a necessidade de intervenção cirúrgica imediata.
1Suporte clínico inicial
2Instabilidade refratária?
3Laparotomia de urgência
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A laparotomia exploradora é a conduta correta neste momento. O paciente apresenta pancreatite aguda grave com instabilidade hemodinâmica refratária (hipotensão, taquicardia, má perfusão) e rebaixamento do nível de consciência, indicando provável necrose infectada ou síndrome compartimental abdominal. A cirurgia de urgência é necessária para necrosectomia, drenagem e controle do foco infeccioso, sendo a única alternativa que aborda a necessidade de intervenção imediata.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A laparoscopia diagnóstica é contraindicada em paciente instável (hipotenso, com má perfusão), pois o pneumoperitônio pode agravar a hipotensão e a acidose. Além disso, a via laparoscópica não é adequada para a necrosectomia extensa, sendo preferível a laparotomia. A laparoscopia diagnóstica é útil em casos de abdome agudo de etiologia indeterminada, mas não é a conduta de escolha neste cenário de choque refratário.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O suporte intensivo com expansão volêmica e jejum é a conduta inicial correta na pancreatite aguda, mas não é suficiente diante da deterioração clínica com instabilidade hemodinâmica refratária. A manutenção com 1,5 mL/kg/h e jejum são medidas de suporte, mas não abordam a necessidade de intervenção cirúrgica para controle do foco infeccioso ou descompressão abdominal. A alternativa ignora os sinais de alarme que indicam a necessidade de cirurgia imediata.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O suporte intensivo com hidratação e antibioticoterapia (ceftriaxone e metronidazol) é parte do tratamento da pancreatite aguda grave, mas não é suficiente diante da instabilidade hemodinâmica refratária. A antibioticoterapia é indicada para necrose infectada, mas a cirurgia de urgência é necessária para o controle do foco. A alternativa não aborda a necessidade de laparotomia exploradora, sendo inadequada neste momento.