Questão de Medicina — Farmacologia e Anestesiologia — VUNESP 2025
Medicina›Farmacologia e Anestesiologia
Código
vu093823
Banca
VUNESP
Órgão
HIAE
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Acesso Direto
Uma mulher de 58 anos apresenta dor lombar crônica após múltiplas cirurgias de coluna. Está em uso de oxicodona oral 40 mg/dia há 9 meses, e relata que inicialmente obteve bom alívio, mas agora apresenta aumento progressivo da dor difusa, incluindo nos membros superiores, com piora da sensibilidade dolorosa mesmo a estímulos leves. Ela está ansiosa e relata dificuldade para dormir por conta da dor. Ao exame físico: pressão arterial e frequência cardíaca normais, exame neurológico sem déficits focais, mas queixa-se de dor difusa no corpo com sensação de queimação aos mínimos estímulos, como trocar de roupa.Qual é a conduta mais apropriada neste momento?
AAumentar a dose de oxicodona para contornar a provável tolerância ao opioide.
BManter a dose de oxicodona e associar antidepressivo tricíclico como medicação adjuvante para controle da dor.
CPrescrever benzodiazepínico associado para reduzir a ansiedade relacionada à dor e trocar a oxicodona por morfina.
DConsiderar redução da oxicodona e associar gabapentina para auxiliar o controle da dor.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoD — Considerar redução da oxicodona e associar gabapentina para auxiliar o controle da dor.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Dor crônica e uso de opioides: hiperalgesia induzida por opioides
Gabarito: letra D. O quadro descrito — dor difusa, com alodinia (dor a estímulos leves, como trocar de roupa) e queimação, após uso prolongado de opioide — é sugestivo de hiperalgesia induzida por opioides (HIO), condição em que o opioide, paradoxalmente, aumenta a sensibilidade à dor. A conduta correta é reduzir a dose do opioide e associar um adjuvante, como a gabapentina, que é eficaz na dor neuropática. A alternativa A (aumentar a dose) agravaria a HIO; a B (manter e associar tricíclico) não aborda a causa; a C (benzodiazepínico e troca por morfina) não trata a HIO e traz riscos.
A hiperalgesia induzida por opioides é um fenômeno complexo e contraintuitivo: o mesmo fármaco que alivia a dor pode, com o uso crônico, sensibilizar o sistema nervoso central, tornando o paciente mais sensível à dor. Isso se manifesta como dor difusa, que se espalha para além da área original, com alodinia (dor a estímulos que normalmente não são dolorosos, como o contato da roupa) e hiperalgesia (resposta aumentada a estímulos dolorosos). É diferente da tolerância, em que a dose precisa ser aumentada para manter o mesmo efeito, mas a dor não se espalha nem se torna mais intensa com estímulos leves. Na HIO, aumentar a dose piora o quadro, pois o opioide está contribuindo para a sensibilização central.
O mecanismo envolve a ativação de vias pró-nociceptivas, como o aumento de glutamato e substância P, ativação de receptores NMDA e de células da glia, entre outros. Na prática clínica, a distinção entre tolerância e HIO é crucial: na tolerância, a dor retorna ao nível basal e o aumento da dose é razoável; na HIO, a dor se torna mais difusa e intensa, e a estratégia é reduzir ou rotacionar o opioide e adicionar adjuvantes.
A abordagem multimodal da dor crônica é a pedra angular do tratamento. Além de opioides, quando indicados, utilizam-se adjuvantes como gabapentina e amitriptilina, que atuam em mecanismos diferentes da dor, especialmente a dor neuropática. A gabapentina, um anticonvulsivante, é particularmente útil na dor com componente neuropático, como a descrita (queimação, alodinia). O material de apoio reforça que, em pacientes com dor crônica, a abordagem deve ser personalizada, com ênfase em um plano multimodal e cautela para evitar dependência excessiva de opioides.
A pegadinha central desta questão é confundir tolerância com hiperalgesia induzida por opioides. A paciente relata que "inicialmente obteve bom alívio, mas agora apresenta aumento progressivo da dor difusa" — isso pode parecer tolerância, mas a difusão da dor para membros superiores e a alodinia (dor ao trocar de roupa) são características de HIO, não de tolerância simples. A banca explora exatamente essa confusão na alternativa A.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta fazer o candidato confundir tolerância com hiperalgesia induzida por opioides (HIO). Na tolerância, a dor volta ao nível basal e o aumento da dose é a conduta; na HIO, a dor se torna difusa, com alodinia e queimação, e aumentar a dose piora o quadro. A palavra-chave é a alodinia (dor a estímulos leves, como trocar de roupa) — sinal de sensibilização central, não de tolerância. Fique atento: dor que se espalha e fica mais intensa com o uso crônico de opioide é HIO até prova em contrário.
Conduta
Trata a Hiperalgesia Induzida por Opioides (HIO)?
Aborda o Componente Neuropático?
Riscos/Problemas
Aumentar oxicodona (A)
❌ Não — agrava a HIO
❌ Não
Confunde HIO com tolerância; piora a sensibilização central
Manter oxicodona + tricíclico (B)
❌ Não — mantém a causa
✅ Sim (parcial)
Não remove o agente causador da HIO
Benzodiazepínico + troca por morfina (C)
⚠️ Parcial (rotação)
❌ Não
Risco de sedação/dependência; sem adjuvante neuropático
Reduzir oxicodona + gabapentina (D)
✅ Sim — remove a causa
✅ Sim — eficaz na alodinia/queimação
Abordagem multimodal correta
Hiperalgesia induzida por opioides: Características (Dor difusa além da área original, Alodinia (dor a estímulos leves), Sensação de queimação); Mecanismo (Sensibilização central, Ativação de vias pró-nociceptivas); Conduta (Aumentar dose (agrava), Reduzir ou rotacionar opioide, Associar adjuvante (gabapentina))
Alternativa A — ❌ Incorreta
Aumentar a dose de oxicodona para contornar a tolerância é o erro clássico. O quadro descrito não é tolerância, mas hiperalgesia induzida por opioides (HIO). Na HIO, o opioide contribui para a sensibilização central, e aumentar a dose agrava a dor, em vez de aliviá-la. A conduta correta é o oposto: reduzir a dose ou rotacionar o opioide.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Manter a dose de oxicodona e associar um antidepressivo tricíclico (como amitriptilina) é uma abordagem multimodal válida para dor crônica, mas não aborda a causa do problema. Se há HIO, manter a dose do opioide que está causando o problema não é adequado. O adjuvante deve ser associado após reduzir ou rotacionar o opioide, não mantendo a dose que está perpetuando a sensibilização central.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Prescrever benzodiazepínico para ansiedade e trocar oxicodona por morfina tem múltiplos problemas. Primeiro, o benzodiazepínico não trata a dor e tem risco de dependência e sedação, especialmente em idosos. Segundo, a troca por morfina (rotação de opioides) pode ser uma estratégia em alguns casos de HIO, mas não é a conduta mais apropriada neste momento, pois não associa um adjuvante para a dor neuropática e introduz um fármaco com perfil de efeitos colaterais semelhante. A abordagem correta é reduzir o opioide e adicionar um adjuvante como a gabapentina.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Considerar a redução da oxicodona e associar gabapentina é a conduta mais apropriada. A redução da dose aborda a hiperalgesia induzida por opioides, e a gabapentina é um adjuvante eficaz para a dor neuropática, que se manifesta com queimação e alodinia. Essa abordagem multimodal é a recomendada para dor crônica, especialmente quando há suspeita de HIO.
Gabarito: letra D — reduzir o opioide e associar gabapentina é a conduta que trata a hiperalgesia induzida por opioides e a dor neuropática.