Queimadura elétrica de alta tensão: manejo volêmico
Gabarito: letra B. Em queimaduras elétricas, especialmente por alta tensão, a reposição volêmica não deve ser guiada apenas pela superfície corporal queimada (SCQ), pois a lesão muscular profunda é desproporcional à lesão cutânea visível. O correto é basear a reposição na diurese e em parâmetros laboratoriais como creatinofosfoquinase (CPK) e mioglobinúria, monitorando a rabdomiólise e prevenindo a insuficiência renal aguda.
A queimadura elétrica é uma entidade distinta da queimadura térmica convencional. Enquanto na queimadura térmica a extensão da lesão cutânea (SCQ) é o principal determinante da reposição volêmica, na queimadura elétrica a corrente elétrica percorre o corpo, causando dano muscular profundo que pode ser muito maior do que a lesão de pele sugere. Isso ocorre porque o osso é resistente à corrente elétrica, e os músculos e partes moles próximos são frequentemente envolvidos com extensa lesão, podendo ocorrer rabdomiólise e mioglobinúria. A mioglobina, liberada na corrente sanguínea, é filtrada pelos glomérulos e pode causar necrose tubular aguda, levando à insuficiência renal aguda (IRA). Por isso, a reposição volêmica deve ser agressiva, mas guiada por parâmetros objetivos de perfusão tecidual e função renal, e não por fórmulas baseadas apenas na SCQ.
A fórmula de Parkland (4 mL x peso x SCQ) é a base para o cálculo volêmico inicial em queimaduras térmicas, mas em queimaduras elétricas ela subestima a necessidade real de volume, pois não considera a lesão muscular oculta. A recomendação é iniciar a reposição com cristaloide (Ringer Lactato) e ajustar o volume conforme a resposta clínica, com o objetivo de manter diurese adequada (geralmente > 100 mL/h em adultos, ou 0,5-1 mL/kg/h) e monitorar CPK e mioglobinúria. A alcalinização da urina pode ser benéfica para aumentar a solubilidade da mioglobina e evitar nefrotoxicidade, mas deve ser feita com cautela. Diuréticos osmóticos não são recomendados de rotina, pois podem mascarar a resposta renal e não tratam a causa da lesão renal.
A pegadinha desta questão está em aplicar a fórmula de Parkland (alternativa A) ou uma hidratação agressiva fixa (alternativa C) como se fosse uma queimadura térmica comum, ignorando a especificidade da lesão elétrica. A alternativa D também é incorreta, pois diuréticos osmóticos não são indicados na fase inicial da reanimação. O manejo correto é individualizado, com monitorização contínua da diurese e de marcadores de rabdomiólise.
Guarde a distinção central: queimadura térmica → fórmula de Parkland baseada na SCQ; queimadura elétrica → reposição guiada por diurese, CPK e mioglobinúria. É exatamente essa fronteira que separa as alternativas.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que o cálculo volêmico inicial deve basear-se na superfície queimada pela fórmula de Parkland. Em queimaduras elétricas, a lesão muscular profunda é desproporcional à lesão cutânea, e a fórmula de Parkland, baseada na SCQ, subestima a necessidade volêmica. A reposição deve ser guiada por parâmetros de perfusão e função renal, não apenas pela SCQ.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A reposição volêmica em queimaduras elétricas deve basear-se na diurese e em parâmetros como creatinofosfoquinase (CPK) e mioglobinúria, pois a rabdomiólise é uma complicação frequente e a prevenção da insuficiência renal aguda é o objetivo central. A diurese é o parâmetro mais confiável para avaliar a adequação da reposição, e a CPK e a mioglobinúria indicam a extensão da lesão muscular e o risco de IRA.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Recomenda hidratação agressiva com Ringer Lactato para atingir 10-15 mL/kg/h, ajustando conforme resposta renal. Essa taxa é excessiva e não é a recomendação padrão. A reposição deve ser guiada pela diurese (geralmente > 100 mL/h em adultos) e por parâmetros laboratoriais, não por uma taxa fixa elevada, que pode levar a complicações como síndrome compartimental e edema pulmonar.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que diuréticos osmóticos devem ser administrados juntamente com a reposição volêmica. Diuréticos osmóticos não são indicados na fase inicial da reanimação de queimaduras elétricas. A prevenção da IRA é feita com reposição volêmica adequada e, se necessário, alcalinização da urina, não com diuréticos, que podem mascarar a resposta renal e não tratam a causa da lesão.
Gabarito: letra B