Questão de Medicina — Cirurgia Geral — VUNESP 2025
Medicina›Cirurgia Geral
Código
vu093842
Banca
VUNESP
Órgão
HIAE
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Pré-Requisito em Cirurgia Geral ou em Área Cirúrgica Básica
Mulher de 65 anos, com necessidade de toracocentese de alívio por extenso derrame pleural à esquerda, que causava dispneia. Realizada punção no 8o espaço intercostal, linha axilar média, com saída de 20 mL de líquido serossanguinolento, sem saída adicional de líquidos. Trinta minutos após o procedimento, a paciente evolui descorada, com frequência cardíaca de 100 bpm e PA de 85 x 60 mmHg, queixando-se de dispneia e dor abdominal. Realizou a tomografia demonstrada nas imagens a seguir:(Arquivo pessoal; imagem usada com autorização)No retorno da tomografia, a paciente evolui com queda do nível de consciência, sendo realizada intubação orotraqueal. Assim, qual conduta mais adequada para resolução do caso?
AToracotomia esquerda de urgência.
BLaparotomia exploradora.
CÁcido tranexâmico e protocolo de transfusão maciça.
DDrenagem pleural esquerda no 5o espaço intercostal.
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GabaritoB — Laparotomia exploradora.
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Complicação de toracocentese: lesão de víscera abdominal
Gabarito: letra B. A paciente evoluiu com choque hemorrágico (hipotensão, taquicardia, palidez) e dor abdominal após toracocentese no 8º espaço intercostal na linha axilar média — localização abaixo do diafragma, que aumenta o risco de lesão de vísceras abdominais, especialmente o baço. A tomografia demonstrou a complicação, e a conduta mais adequada é a laparotomia exploradora para controle do sangramento.
A toracocentese é um procedimento invasivo que, embora relativamente seguro quando guiado por ultrassom, pode cursar com complicações graves. A escolha do local de punção é crucial: classicamente, recomenda-se a punção no triângulo de segurança, delimitado pela borda lateral do músculo peitoral maior, pela borda lateral do músculo latíssimo do dorso e por uma linha horizontal no nível do mamilo (5º espaço intercostal), evitando-se assim a região inferior do tórax, onde o diafragma se eleva durante a expiração e pode ser lesado.
No caso apresentado, a punção foi realizada no 8º espaço intercostal, na linha axilar média. Nessa topografia, especialmente em pacientes com derrame pleural volumoso que rebaixa o diafragma, a agulha pode transfixar o diafragma e atingir órgãos abdominais sólidos, como o baço (à esquerda) e o fígado (à direita). A saída de apenas 20 mL de líquido serossanguinolento, seguida de instabilidade hemodinâmica, dor abdominal e queda do nível de consciência, é altamente sugestiva de lesão esplênica com sangramento ativo.
A tomografia computadorizada, nesse contexto, é o exame de escolha para confirmar o diagnóstico e demonstrar a presença de hemoperitônio ou lesão visceral. Diante de um paciente com choque hemorrágico e sinais de abdome agudo, a conduta é cirúrgica e imediata: a laparotomia exploradora permite o acesso rápido à cavidade abdominal, o controle do sangramento (esplenectomia ou esplenorrafia) e a lavagem da cavidade.
A alternativa B é a única que aborda diretamente a causa do choque — o sangramento intra-abdominal —, enquanto as demais tratam de complicações torácicas ou medidas de suporte que não resolvem o problema de base. A chave para a resolução está em reconhecer que a punção abaixo do diafragma pode lesar vísceras abdominais, e que a instabilidade hemodinâmica com dor abdominal aponta para hemorragia intraperitoneal, cujo tratamento é cirúrgico.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A toracotomia esquerda de urgência seria indicada para complicações torácicas, como hemotórax maciço ou lesão de grandes vasos intratorácicos. No caso, a dor abdominal e o choque após punção baixa sugerem fortemente sangramento intra-abdominal (provável lesão esplênica), e não torácico. A tomografia, se compatível com hemoperitônio, direciona para a abordagem abdominal. A toracotomia não acessaria a cavidade peritoneal e não controlaria o sangramento esplênico.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A laparotomia exploradora é a conduta mais adequada. A punção no 8º espaço intercostal, na linha axilar média, está abaixo do nível do diafragma, especialmente em um paciente com derrame pleural volumoso que rebaixa o diafragma. Isso aumenta o risco de lesão de vísceras abdominais, particularmente o baço (à esquerda). A tríade — saída de apenas 20 mL de líquido, choque hemorrágico (PA 85x60 mmHg, FC 100 bpm, palidez) e dor abdominal — é clássica de hemoperitônio por lesão esplênica. A laparotomia permite o controle rápido do sangramento e é o tratamento de escolha no choque hemorrágico por trauma abdominal.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Ácido tranexâmico e protocolo de transfusão maciça são medidas de suporte importantes no manejo do choque hemorrágico, mas não resolvem a causa do sangramento. Em um paciente com hemoperitônio ativo, a prioridade é o controle cirúrgico da hemorragia. O uso de ácido tranexâmico pode ser considerado como adjuvante, mas nunca substitui a laparotomia de urgência. A transfusão maciça é um recurso intraoperatório, não uma conduta definitiva isolada.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A drenagem pleural esquerda no 5º espaço intercostal seria indicada para drenar um derrame pleural residual ou um hemotórax. No entanto, o quadro clínico é de choque hemorrágico com dor abdominal, o que aponta para sangramento intra-abdominal, não torácico. A drenagem pleural não trataria a lesão esplênica e poderia retardar a cirurgia, agravando o prognóstico. Além disso, o 5º espaço intercostal é o local correto para a toracocentese, mas a complicação já ocorreu e a conduta deve ser laparotômica.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre complicações torácicas e abdominais da toracocentese. O candidato pode ser induzido a pensar em hemotórax ou pneumotórax, mas a dor abdominal e o choque após punção no 8º espaço intercostal são a chave para o diagnóstico de lesão de víscera abdominal (baço). A localização baixa da punção é o detalhe que muda toda a conduta.
PEGA ESSA DICA!
Na toracocentese, memorize o triângulo de segurança (5º espaço intercostal, borda lateral do peitoral maior, borda lateral do latíssimo do dorso). Punções abaixo do 5º espaço intercostal, especialmente na linha axilar média, têm maior risco de lesão diafragmática e de vísceras abdominais. Em caso de choque hemorrágico pós-procedimento, pense sempre em sangramento intra-abdominal e na necessidade de laparotomia.