Questão de Medicina — Cirurgia Geral — VUNESP 2025
Medicina›Cirurgia Geral
Código
vu093844
Banca
VUNESP
Órgão
HIAE
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Pré-Requisito em Cirurgia Geral ou em Área Cirúrgica Básica
Homem de 53 anos, com quadro de linfoma difuso de grandes células B com grande conglomerado linfonodal no mesentério. Iniciou esquema quimioterápico (CHOP) e, após 1 semana da primeira infusão, apresenta quadro de dor abdominal intensa, procurando o pronto-socorro. Apresenta-se com abdome distendido, doloroso à palpação de mesogastro, ruídos hidroaéreos ausentes. FC: 113 bpm e PA: 107 x 74 mmHg. Exames relevantes: hemoglobina: 12 g/dL; hematócrito: 36%; leucócitos: 18.500/mm³ ; neutrófilos segmentados: 85%; bastonetes: 10%; plaquetas: 420.000/mm³ ; PCR: 220 mg/L. Realizou ainda a tomografia de abdome demonstrada a seguir:(Arquivo pessoal; imagem usada com autorização)Durante a abordagem, no intraoperatório, encontra-se extensa infiltração mesentérica.Dessa forma, qual conduta deve ser priorizada?
ARessecção em monobloco completa com reconstrução vascular.
BRessecção limitada ao segmento perfurado, mesmo com margem no mesentério comprometida.
CRafia em dois planos do local perfurado e drenagem da cavidade.
DLavagem da cavidade e drenagem externa da área perfurada para nortear fístula enterocutânea.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoB — Ressecção limitada ao segmento perfurado, mesmo com margem no mesentério comprometida.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Perfuração intestinal em linfoma não Hodgkin: conduta cirúrgica
Gabarito: letra B. Em paciente com linfoma difuso de grandes células B (LDGCB) em quimioterapia que apresenta abdome agudo perfurativo, a conduta cirúrgica prioritária é a ressecção limitada ao segmento perfurado, mesmo que a margem no mesentério esteja comprometida — prioriza-se o controle da sepse de foco abdominal, adiando a radicalidade oncológica para um segundo momento, quando o paciente estiver em melhores condições clínicas e a quimioterapia puder ser retomada. As demais alternativas ou são excessivamente radicais (risco cirúrgico inaceitável) ou insuficientes (não controlam adequadamente o foco séptico).
O linfoma difuso de grandes células B é o subtipo mais comum de linfoma não Hodgkin agressivo, e o tratamento padrão é o esquema CHOP (ciclofosfamida, doxorrubicina, vincristina e prednisona), frequentemente associado ao rituximabe (R-CHOP). Uma complicação grave e conhecida da quimioterapia nesses pacientes é a perfuração intestinal, especialmente quando há doença volumosa acometendo o mesentério ou o trato gastrointestinal. O mecanismo é a necrose tumoral rápida induzida pela quimioterapia: as células linfomatosas que infiltravam a parede intestinal morrem em massa, deixando uma área de fragilidade que pode evoluir para perfuração. O quadro clínico clássico é o de abdome agudo perfurativo: dor abdominal intensa, distensão, ausência de ruídos hidroaéreos, sinais de peritonite e resposta inflamatória sistêmica (leucocitose com desvio à esquerda, PCR elevada, taquicardia).
O grande dilema cirúrgico nesse cenário é o conflito entre a radicalidade oncológica (ressecar toda a doença com margens amplas) e a segurança do paciente (que está imunossuprimido, desnutrido e em plena resposta inflamatória). A literatura e a prática cirúrgica consagrada indicam que, na vigência de peritonite por perfuração em paciente oncológico em quimioterapia, o objetivo imediato é salvar a vida, controlando o foco séptico com o menor trauma cirúrgico possível. Uma ressecção extensa em monobloco, com reconstrução vascular, seria tecnicamente possível, mas o risco de morbimortalidade é proibitivo — o paciente não toleraria uma cirurgia de grande porte nesse momento. Por outro lado, uma conduta apenas conservadora (rafia ou drenagem) não é adequada, pois a parede intestinal perfurada está infiltrada por linfoma e necrótica, não cicatrizando bem e deixando um foco séptico persistente.
A conduta ideal, portanto, é a ressecção segmentar do intestino perfurado, com anastomose primária ou ostomia, dependendo das condições locais e sistêmicas. A margem cirúrgica no mesentério pode ficar comprometida — isso é aceitável e até esperado, pois o objetivo não é a cura oncológica naquele momento, mas sim o controle da emergência. A doença residual será tratada posteriormente com a continuação da quimioterapia, que é o tratamento sistêmico definitivo do linfoma. Essa abordagem é conhecida como "cirurgia de dano controlado" ou "cirurgia de resgate" no contexto oncológico, priorizando a fisiologia do paciente sobre a radicalidade anatômica.
A pegadinha central desta questão é a inversão de prioridades: o candidato pode ser tentado a escolher a alternativa A (ressecção em monobloco completa), que seria a conduta oncológica ideal em um paciente estável, sem peritonite e sem imunossupressão. No entanto, o enunciado descreve exatamente o oposto: um paciente em quimioterapia, com abdome agudo perfurativo e instabilidade hemodinâmica iminente (FC 113 bpm, PA limítrofe). Nesse cenário, a radicalidade é contraindicada. A alternativa C (rafia) e a D (drenagem) são insuficientes, pois não removem o segmento necrótico, deixando um foco de sepse persistente. A alternativa B é a que melhor equilibra o controle do foco séptico com a segurança do paciente.
Guarde o critério decisivo: em abdome agudo perfurativo por linfoma em quimioterapia, a prioridade é o controle da sepse, não a radicalidade oncológica. É exatamente essa distinção que separa a alternativa correta das demais.
1Priorizar controle da sepse
2Ressecção segmentar do segmento perfurado
3Margem comprometida é aceitável
4Doença residual tratada com quimioterapia
LEVEL · soulevel.com.br
Alternativa A — ❌ Incorreta
A ressecção em monobloco completa com reconstrução vascular é a conduta oncológica ideal em um paciente estável, sem peritonite e sem imunossupressão. No entanto, o paciente do enunciado apresenta abdome agudo perfurativo, instabilidade hemodinâmica iminente e está em plena quimioterapia (imunossuprimido). Uma cirurgia de grande porte com reconstrução vascular nesse cenário teria morbimortalidade proibitiva. A prioridade é o controle do foco séptico, não a radicalidade oncológica.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A ressecção limitada ao segmento perfurado, mesmo com margem no mesentério comprometida, é a conduta correta. Ela remove o foco séptico (segmento necrótico e perfurado), controla a peritonite e é tecnicamente factível em um paciente crítico. A margem comprometida é aceitável, pois a doença residual será tratada com a continuação da quimioterapia, que é o tratamento sistêmico definitivo do linfoma. Prioriza-se a fisiologia do paciente sobre a radicalidade anatômica.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A rafia em dois planos do local perfurado é insuficiente, pois a parede intestinal está infiltrada por linfoma e necrótica, não cicatrizando bem. A sutura em tecido doente tende a deiscar, perpetuando o foco séptico. Além disso, a drenagem da cavidade não remove o segmento necrótico, que continua sendo uma fonte de contaminação. A ressecção do segmento perfurado é mandatória.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A lavagem da cavidade e drenagem externa da área perfurada para nortear fístula enterocutânea é uma conduta paliativa, indicada apenas em casos extremos, quando o paciente não tolera qualquer ressecção (ex.: instabilidade hemodinâmica refratária). No paciente do enunciado, embora crítico, ainda é possível realizar uma ressecção segmentar, que é o tratamento definitivo do foco séptico. A drenagem apenas deixaria uma fístula enterocutânea, com morbidade prolongada e risco de infecção persistente.