Questão de Medicina — Urologia — VUNESP 2025
- Código
- vu093854
- Banca
- VUNESP
- Órgão
- HIAE
- Ano
- 2025
- Nível
- Superior
- Cargo
- Pré-Requisito em Cirurgia Geral ou em Área Cirúrgica Básica
- ATadalafil.
- BFinasterida.
- CMirabegrona.
- DTansulosina.
GabaritoD — Tansulosina.
Gabarito: letra D. A tansulosina, um alfabloqueador, deve ser evitada nesse momento porque o paciente está em programação cirúrgica para correção de catarata bilateral — e os alfabloqueadores estão associados à síndrome da íris flácida intraoperatória (IFIS), complicação que aumenta o risco de complicações na cirurgia de catarata. As demais opções (tadalafil, finasterida e mirabegrona) não apresentam essa contraindicação específica relacionada ao procedimento oftalmológico.
O caso clínico descreve um homem de 67 anos com sintomas do trato urinário inferior (STUI) compatíveis com hiperplasia prostática benigna (HPB): jato fraco, esforço miccional, hesitação e urgência esporádica. O PSA de 1,8 ng/dL e a próstata de 45 g à ultrassonografia confirmam o diagnóstico de HPB com volume prostático aumentado. O resíduo pós-miccional de 60 mL é discretamente elevado, mas não indica complicação grave. O ponto central da questão não é o diagnóstico, e sim a interação medicamentosa com a cirurgia de catarata que o paciente irá realizar.
A tansulosina é um antagonista seletivo dos receptores alfa-1 adrenérgicos, amplamente utilizado como tratamento de primeira linha para STUI por HPB. Seu mecanismo de ação envolve o relaxamento da musculatura lisa da próstata e do colo vesical, melhorando o fluxo urinário. No entanto, os alfabloqueadores — especialmente a tansulosina — podem causar a síndrome da íris flácida intraoperatória (IFIS), descrita em 2005 por Chang e Campbell. Essa síndrome se caracteriza por: (1) flacidez da íris durante a cirurgia, (2) prolapso da íris através das incisões cirúrgicas e (3) progressiva constrição pupilar durante o procedimento. Essas alterações aumentam o risco de complicações como ruptura capsular, perda de vítreo e deslocamento de retina.
A IFIS ocorre porque os alfabloqueadores atuam nos receptores alfa-1 presentes na musculatura lisa da íris, inibindo a contração do músculo dilatador da pupila. Por isso, a recomendação atual é que, sempre que possível, a cirurgia de catarata seja realizada antes do início do tratamento com alfabloqueadores, ou que o paciente seja informado do risco e o oftalmologista esteja preparado para manejar a IFIS (com uso de atropina, fenilefrina intracameral ou dispositivos de expansão da íris). A suspensão prévia da tansulosina não elimina completamente o risco, pois o efeito pode persistir por semanas ou até meses.
As demais alternativas não apresentam essa contraindicação específica:
Tadalafil (inibidor da PDE-5): usado para STUI por HPB, não tem associação com IFIS. Porém, deve ser usado com cautela em pacientes que usam nitratos, o que não é o caso.
Finasterida (inibidor da 5-alfa-redutase): reduz o volume prostático, indicada para próstatas > 40 g. Não interfere na cirurgia de catarata.
Mirabegrona (agonista beta-3 adrenérgico): usada para sintomas de armazenamento (urgência, frequência). Não tem relação com IFIS.
A pegadinha da questão está em associar o tratamento da HPB com a cirurgia de catarata, um contexto que foge do raciocínio urológico puro. O candidato que conhece apenas as indicações dos medicamentos para HPB pode não identificar a contraindicação específica da tansulosina no perioperatório de catarata.
A banca explora a associação entre o tratamento da HPB e a cirurgia de catarata. O candidato pode pensar que a contraindicação seria por interação com anti-hipertensivos (já que o paciente tem HAS controlada) ou por efeito na pressão arterial (hipotensão ortostática). No entanto, o motivo correto é a síndrome da íris flácida intraoperatória (IFIS), complicação específica dos alfabloqueadores na cirurgia de catarata. A tansulosina é o alfabloqueador mais associado a essa síndrome.
O tadalafil é um inibidor da fosfodiesterase-5 (PDE-5), aprovado para o tratamento de STUI por HPB. Seu mecanismo de ação envolve o relaxamento da musculatura lisa do trato urinário inferior, melhorando os sintomas de esvaziamento. Não há contraindicação específica para uso no perioperatório de cirurgia de catarata. A principal contraindicação do tadalafil é o uso concomitante de nitratos, o que não se aplica a este paciente. Portanto, o tadalafil não deve ser evitado nesse momento.
A finasterida é um inibidor da 5-alfa-redutase, que reduz a conversão de testosterona em di-hidrotestosterona (DHT), diminuindo o volume prostático. É indicada para pacientes com próstata > 40 g, como é o caso (45 g). Não há associação entre finasterida e complicações na cirurgia de catarata. Seu uso é seguro nesse contexto, embora o efeito terapêutico demore meses para aparecer. Portanto, a finasterida não deve ser evitada.
A mirabegrona é um agonista do receptor beta-3 adrenérgico, que promove relaxamento do detrusor durante a fase de armazenamento, aumentando a capacidade vesical. É indicada para sintomas de armazenamento (urgência, frequência, noctúria), que o paciente apresenta de forma esporádica. Não há contraindicação para uso no perioperatório de cirurgia de catarata. Portanto, a mirabegrona não deve ser evitada.
A tansulosina é um alfabloqueador seletivo alfa-1, tratamento de primeira linha para STUI por HPB. No entanto, está associada à síndrome da íris flácida intraoperatória (IFIS), que aumenta o risco de complicações na cirurgia de catarata. Como o paciente está em programação cirúrgica para correção de catarata bilateral, a tansulosina deve ser evitada nesse momento. O manejo recomendado é realizar a cirurgia de catarata antes de iniciar o alfabloqueador, ou, se já estiver em uso, informar o oftalmologista para que ele se prepare para a IFIS.
Gabarito: letra D — a tansulosina deve ser evitada devido ao risco de síndrome da íris flácida intraoperatória na cirurgia de catarata.
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