Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — VUNESP 2025
Medicina›Clínica Médica Humana
Código
vu093891
Banca
VUNESP
Órgão
HIAE
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Pré-Requisito em Clínica Médica
Homem de 72 anos, portador de diabetes tipo 2 de longa data, é admitido no pronto-socorro com sonolência progressiva, desidratação intensa e taquipneia leve. Exames laboratoriais mostram: glicemia 980 mg/dL; sódio sérico 152 mEq/L; potássio sérico 4,1 mEq/L; bicarbonato 20 mEq/L; osmolaridade plasmática calculada 360 mOsm/kg; corpos cetônicos negativos no sangue e urina.Tendo em vista tais informações, qual das condutas a seguir é a mais adequada?
AIniciar reposição volêmica com solução salina 0,45%, garantindo correção da hipernatremia e hipovolemia nas primeiras 6 horas de tratamento.
BCorrigir a hiperglicemia com bólus inicial de insulina intravenosa, seguido de infusão contínua, concomitante à reposição volêmica, para reduzir a osmolaridade plasmática.
CIniciar reposição volêmica associada à reposição de potássio e insulinoterapia endovenosa em infusão contínua, objetivando glicemias entre 200 e 250 mg/dL.
DEvitar a administração de potássio até que os níveis séricos estejam <3,5 mEq/L, já que, na ausência de cetoacidose, não ocorre depleção significativa de potássio em estado hiperglicêmico hiperosmolar.
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GabaritoC — Iniciar reposição volêmica associada à reposição de potássio e insulinoterapia endovenosa em infusão contínua, objetivando glicemias entre 200 e 250 mg/dL.
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Estado Hiperosmolar Hiperglicêmico (EHH): manejo inicial
Gabarito: letra C. O quadro descrito é de estado hiperosmolar hiperglicêmico (EHH) — glicemia 980 mg/dL, osmolaridade 360 mOsm/kg, sódio 152 mEq/L, sem cetose — e o manejo inicial correto combina reposição volêmica, reposição de potássio e insulinoterapia endovenosa contínua, com meta glicêmica de 200–250 mg/dL até a resolução do quadro. A conduta se baseia nos consensos de emergências hiperglicêmicas (ADA/EASD), que orientam exatamente essa tríade terapêutica.
O estado hiperosmolar hiperglicêmico é uma emergência metabólica que ocorre tipicamente em idosos com diabetes tipo 2, como o paciente do caso (72 anos). A fisiopatologia é a hiperglicemia extrema (> 600 mg/dL) que gera diurese osmótica, levando a desidratação intensa, hipernatremia e hiperosmolaridade. Diferentemente da cetoacidose diabética (CAD), no EHH há secreção residual de insulina suficiente para suprimir a cetogênese, mas insuficiente para controlar a glicemia — por isso os corpos cetônicos são negativos. A osmolaridade efetiva calculada (2 × Na + glicose/18) é o marcador central: valores > 320 mOsm/kg confirmam hiperosmolaridade, e o rebaixamento do nível de consciência correlaciona-se diretamente com esse valor.
O tratamento do EHH segue três pilares simultâneos, e é exatamente essa combinação que a alternativa C descreve:
Reposição volêmica — a prioridade absoluta. Inicia-se com solução salina 0,9% (isotônica) em ritmo rápido (1 L na primeira hora) para restaurar a volemia, pois a hipovolemia é a principal ameaça à vida. Só depois da estabilização hemodinâmica, se o sódio estiver elevado, troca-se para solução salina 0,45% (hipotônica) para corrigir o déficit de água livre.
Reposição de potássio — apesar do K+ sérico inicial de 4,1 mEq/L (normal), há depleção total de potássio no organismo, pois a diurese osmótica elimina grandes quantidades desse íon. O potássio sérico normal ou baixo é indicação de reposição precoce, pois a insulinoterapia e a correção da acidose (mesmo leve) deslocam o potássio para o intracelular, podendo causar hipocalemia grave e arritmias.
Insulinoterapia — após excluir hipocalemia (K+ < 3,3 mEq/L), inicia-se insulina regular em infusão contínua (0,1 UI/kg/h), sem necessidade de bólus inicial no EHH (diferente da CAD). O objetivo é reduzir a glicemia de forma gradual (50–75 mg/dL/h), e quando a glicemia atinge ~200–250 mg/dL, adiciona-se glicose à solução para evitar hipoglicemia, mantendo a glicemia nessa faixa até a resolução.
A grande pegadinha desta questão é a prioridade terapêutica. Muitos candidatos pensam que, diante de glicemia de 980 mg/dL, o primeiro passo é "atacar" a hiperglicemia com insulina. Na verdade, a reposição volêmica vem primeiro — a insulina só funciona adequadamente após a reidratação, e a correção rápida da glicemia sem volume adequado pode precipitar choque e piorar a hipernatremia. Além disso, a meta glicêmica no EHH não é a normoglicemia imediata, mas sim 200–250 mg/dL, para evitar oscilações osmóticas que causem edema cerebral.
Outro ponto crítico é a escolha da solução inicial. A alternativa A sugere salina 0,45% desde o início, o que é um erro grave: em paciente hipovolêmico, a solução hipotônica não expande adequadamente o volume intravascular e pode causar queda rápida da osmolaridade, com risco de edema cerebral. A regra é: primeiro salina 0,9% para restaurar a volemia; depois, conforme o sódio sérico, decide-se entre 0,45% ou 0,9%.
Guarde a sequência mental: volume → potássio → insulina → glicose quando glicemia < 250 mg/dL. É essa ordem que separa a alternativa correta das demais.
1Volume: salina 0,9% 1º
2Potássio: repor se K+ normal/baixo
3Insulina: infusão contínua, sem bólus
4Glicose: quando glicemia < 250 mg/dL
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Erra ao indicar solução salina 0,45% como primeira escolha para reposição volêmica. Em paciente com hipovolemia intensa (desidratação grave, sonolência), a conduta inicial deve ser com solução salina 0,9% (isotônica), em ritmo rápido (1 L na primeira hora), para restaurar o volume circulatório. A solução 0,45% (hipotônica) só deve ser usada após a estabilização hemodinâmica, quando o sódio sérico estiver elevado, para corrigir o déficit de água livre. Além disso, a correção da hipernatremia não deve ser feita "nas primeiras 6 horas" de forma agressiva — em hipernatremia crônica (como no EHH), a correção deve ser lenta (≤ 0,5 mEq/L/h) para evitar edema cerebral.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erra ao priorizar o bólus inicial de insulina intravenosa como primeira medida. No EHH, a prioridade é a reposição volêmica; a insulina só deve ser iniciada após a reidratação inicial e após verificar o potássio sérico (excluir K+ < 3,3 mEq/L). Além disso, no EHH, o bólus de insulina geralmente não é necessário — inicia-se diretamente com infusão contínua (0,1 UI/kg/h). A alternativa também não menciona a reposição de potássio, que é parte essencial do manejo. A insulina sem volume adequado pode causar choque e piorar o quadro.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Descreve corretamente o manejo do EHH: reposição volêmica (primeiro passo), reposição de potássio (apesar do K+ normal, há depleção total) e insulinoterapia endovenosa contínua (sem bólus, 0,1 UI/kg/h), com meta glicêmica de 200–250 mg/dL. Essa é exatamente a conduta recomendada pelos consensos (ADA/EASD) para emergências hiperglicêmicas. A meta de 200–250 mg/dL é crucial: quando a glicemia atinge esse valor, adiciona-se glicose à solução para evitar hipoglicemia, mantendo a glicemia nessa faixa até a resolução do quadro.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erra ao afirmar que "na ausência de cetoacidose, não ocorre depleção significativa de potássio". No EHH, há depleção total de potássio devido à diurese osmótica, mesmo com potássio sérico normal ou até elevado. A conduta correta é repor potássio precocemente quando o K+ sérico estiver normal ou baixo (como no caso, 4,1 mEq/L), pois a insulinoterapia e a correção da hiperglicemia deslocam o potássio para o intracelular, podendo causar hipocalemia grave e arritmias. A alternativa inverte a lógica: não se espera o K+ cair para < 3,5 mEq/L para repor — repõe-se antes, preventivamente.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a inversão de prioridades. O candidato desatento acha que, com glicemia de 980 mg/dL, o primeiro passo é "corrigir a glicose" com insulina em bólus (alternativa B). Na verdade, a reposição volêmica vem primeiro — sem volume, a insulina não age bem e o paciente pode entrar em choque. Outra armadilha é a solução inicial: muitos escolhem 0,45% (alternativa A) por causa da hipernatremia, mas em hipovolemia grave o certo é salina 0,9% primeiro. E a alternativa D tenta convencer que potássio normal = sem depleção, o que é falso no EHH. Com treino, você enxerga essas trocas de longe 💪
PEGA ESSA DICA!
Para questões de emergências hiperglicêmicas, memorize a sequência V-P-I-G: Volume (salina 0,9% primeiro) → Potássio (repor se K+ normal ou baixo) → Insulina (infusão contínua, sem bólus no EHH) → Glicose (adicionar quando glicemia < 250 mg/dL). E lembre: a meta glicêmica no EHH é 200–250 mg/dL, não a normoglicemia. Compare com a CAD, onde o bólus de insulina é indicado e a meta é 150–200 mg/dL.