Questão de Medicina — Intoxicações Exógenas — VUNESP 2025
Medicina›Intoxicações Exógenas
Código
vu093916
Banca
VUNESP
Órgão
HIAE
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Pré-Requisito em Clínica Médica
Homem de 45 anos, previamente hígido, procura o pronto-socorro após consumir cachaça em um bar de alto padrão. Relata visão borrada, cefaleia intensa e náuseas iniciadas algumas horas após a ingestão. No exame físico, apresenta taquipneia e hálito alcoólico.Exames laboratoriais:• Na: 140 mEq/L;• Cl: 100 mEq/L;• HCO₃ : 10 mEq/L;• glicemia: 90 mg/dL;• ureia: 40 mg/dL;• creatinina: 1,0 mg/dL;• osmolaridade medida: 340 mOsm/kg.Gasometria arterial:• pH: 7,20;• pCO₂ : 25 mmHg;• HCO₃ : 10 mEq/L;• pO₂ : 90 mmHg.Dado: fórmula para osmolaridade predita:2 x Na + glicose/18 + ureia/2,8Qual é o diagnóstico mais provável?
AHipoglicemia alcoólica.
BAcidente vascular cerebral isquêmico.
CIntoxicação por metanol.
DIntoxicação por etanol.
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GabaritoC — Intoxicação por metanol.
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Intoxicação por metanol: o diagnóstico pelo gap osmolar
Gabarito: letra C. O quadro de acidose metabólica com ânion-gap elevado, associado a gap osmolar aumentado (osmolaridade medida 340 mOsm/kg muito acima da predita) e sintomas visuais (visão borrada), após ingestão de bebida alcoólica, é a tríade clássica da intoxicação por metanol. O cálculo da osmolaridade predita confirma: 2×140 + 90/18 + 40/2,8 = 280 + 5 + 14,3 = 299,3 mOsm/kg, resultando em um gap osmolar de aproximadamente 40 mOsm/kg (normal < 10-15), o que aponta para a presença de um álcool de baixo peso molecular no sangue.
A intoxicação por metanol é uma emergência médica que ocorre pela ingestão de metanol, um álcool tóxico frequentemente encontrado como adulterante em bebidas alcoólicas, combustíveis, fluidos de limpeza e solventes. O metanol em si é relativamente inócuo, mas é metabolizado no fígado pela enzima álcool-desidrogenase em formaldeído e, posteriormente, pela aldeído-desidrogenase em ácido fórmico. São esses metabólitos, especialmente o ácido fórmico, os responsáveis pela toxicidade: eles causam acidose metabólica grave e lesões no nervo óptico e no sistema nervoso central, explicando os sintomas visuais e neurológicos do paciente.
O diagnóstico é essencialmente clínico-laboratorial. A suspeita surge diante de um paciente com história de ingestão de álcool (especialmente de procedência duvidosa) que apresenta acidose metabólica com ânion-gap aumentado, sem outra causa aparente, e sintomas como alterações visuais, dor abdominal e rebaixamento do nível de consciência. O gap osmolar é a ferramenta-chave: ele representa a diferença entre a osmolaridade medida no laboratório e a osmolaridade calculada pela fórmula (2×Na + glicose/18 + ureia/2,8). Um gap osmolar elevado (> 10-15 mOsm/kg) indica a presença de substâncias osmoticamente ativas não medidas, como o próprio metanol, etilenoglicol ou outros álcoois. No caso, o gap de ~40 mOsm/kg é altamente sugestivo.
A confirmação definitiva seria a dosagem sérica de metanol, mas o tratamento não deve esperar por ela, pois os resultados demoram. A presença de acidose metabólica com ânion-gap aumentado, gap osmolar aumentado e alterações visuais é suficiente para iniciar o manejo empírico com antídoto (fomepizol ou etanol) e considerar hemodiálise, especialmente se houver acidose grave (pH < 7,15) ou déficit visual.
A distinção entre as intoxicações por metanol e etanol é crucial. O etanol causa depressão do SNC, mas raramente acidose metabólica grave com ânion-gap aumentado nas fases iniciais, e não causa os sintomas visuais característicos. O etanol também eleva a osmolaridade, mas o gap osmolar tende a ser menor para o mesmo nível de intoxicação, e a acidose, quando presente, é geralmente por causas associadas (cetoacidose, hipoglicemia). A presença de visão borrada e acidose metabólica com gap osmolar elevado é o que separa o metanol do etanol.
A pegadinha que a banca explora aqui é a tentação de atribuir o quadro ao etanol, já que o paciente consumiu cachaça e tem hálito alcoólico. No entanto, o hálito alcoólico não exclui a co-ingestão de metanol, e os achados de acidose metabólica grave com ânion-gap aumentado, gap osmolar elevado e sintomas visuais são a assinatura do metanol, não do etanol. Guarde a tríade: acidose metabólica com ânion-gap aumentado + gap osmolar aumentado + sintomas visuais = metanol até prova em contrário.
1Acidose metabólica com ânion-gap elevado
2Gap osmolar aumentado (> 10-15)
3Sintomas visuais (visão borrada)
4História de ingestão de álcool
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A hipoglicemia alcoólica ocorre por depleção de glicogênio e inibição da gliconeogênese, mas o paciente apresenta glicemia de 90 mg/dL, valor normal. Além disso, a hipoglicemia não explica a acidose metabólica com ânion-gap aumentado nem o gap osmolar elevado. A hipoglicemia alcoólica cursa com sintomas adrenérgicos e neuroglicopênicos, não com visão borrada e acidose grave.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O AVC isquêmico pode causar déficits neurológicos focais, mas não explica o padrão laboratorial: acidose metabólica com ânion-gap aumentado, gap osmolar elevado e sintomas visuais bilaterais. O AVC não causa acidose metabólica nem eleva o gap osmolar. A visão borrada no metanol é por toxicidade direta do ácido fórmico no nervo óptico, não por isquemia cerebral.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A combinação de acidose metabólica com ânion-gap aumentado (pH 7,20, HCO₃ 10 mEq/L), gap osmolar elevado (osmolaridade medida 340 vs. predita ~299 mOsm/kg, gap ~40) e sintomas visuais (visão borrada) após ingestão de bebida alcoólica é a apresentação clássica da intoxicação por metanol. O metanol é metabolizado a ácido fórmico, que causa acidose e lesão do nervo óptico. O gap osmolar elevado reflete a presença do álcool não medido no sangue.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A intoxicação por etanol causa depressão do SNC, ataxia e hálito alcoólico, mas não cursa com acidose metabólica grave com ânion-gap aumentado nem com gap osmolar tão elevado nas fases iniciais. O etanol pode causar hipoglicemia e cetoacidose alcoólica, mas o padrão aqui — acidose grave + gap osmolar alto + sintomas visuais — é incompatível com etanol isolado. O hálito alcoólico é um distrator: o paciente pode ter ingerido cachaça adulterada com metanol.