Enterocolite Neutropênica (Tiflite)
Gabarito: letra A. O quadro clínico descrito — paciente neutropênico (410 neutrófilos/mm³) em quimioterapia para leucemia mieloide aguda, com dor abdominal em quadrante inferior direito, febre, hipotensão e taquicardia, associado a espessamento do ceco e pneumatose intestinal na tomografia — é altamente sugestivo de enterocolite neutropênica (tiflite) complicada por isquemia intestinal. O diagnóstico é essencialmente clínico-radiológico, e a pneumatose intestinal é um sinal de gravidade que indica isquemia da parede intestinal.
A enterocolite neutropênica, também chamada de tiflite, é uma condição que acomete predominantemente pacientes imunossuprimidos, especialmente aqueles em quimioterapia para neoplasias hematológicas, como a leucemia mieloide aguda. A neutropenia profunda (contagem de neutrófilos < 500/mm³) é o principal fator de risco, pois a mucosa intestinal, já lesada pela quimioterapia, torna-se vulnerável à invasão bacteriana e fúngica, levando a um processo inflamatório e necrótico que pode comprometer a viabilidade da parede intestinal.
O termo "tiflite" deriva do grego typhlon (cego), referindo-se ao ceco, que é o local mais comumente afetado. A fisiopatologia envolve a destruição da barreira mucosa intestinal pela quimioterapia, seguida de translocação bacteriana e proliferação de microrganismos na parede intestinal, resultando em inflamação, edema, ulceração e, nos casos graves, necrose e perfuração. A isquemia intestinal, evidenciada pela pneumatose (presença de gás na parede intestinal), é uma complicação temida, pois indica comprometimento vascular e risco iminente de perfuração.
O diagnóstico é baseado na tríade clássica: febre, dor abdominal e neutropenia. Os exames de imagem, especialmente a tomografia computadorizada, são fundamentais para confirmar a suspeita e avaliar complicações. Os achados tomográficos típicos incluem espessamento da parede intestinal, especialmente do ceco, e a presença de pneumatose intestinal, que é um sinal de mau prognóstico. O tratamento é conservador na maioria dos casos, com antibioticoterapia de amplo espectro, suporte hemodinâmico e correção da neutropenia com fatores de crescimento de granulócitos. A cirurgia é reservada para complicações como perfuração, sangramento incontrolável ou necrose extensa.
A distinção entre a enterocolite neutropênica e outras causas de abdome agudo é crucial, pois o manejo difere significativamente. Enquanto a apendicite e a diverticulite são tratadas cirurgicamente na maioria dos casos, a tiflite é inicialmente manejada de forma conservadora. A colite pseudomembranosa, por sua vez, está associada ao uso de antibióticos e à infecção por Clostridioides difficile, apresentando quadro clínico distinto. A banca explora exatamente essa diferenciação, e o reconhecimento dos fatores de risco e dos achados de imagem é o que permite ao candidato chegar ao diagnóstico correto.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa descreve com precisão a condição do paciente. A enterocolite neutropênica é uma complicação clássica da quimioterapia para leucemias agudas, caracterizada por febre, dor abdominal e neutropenia profunda. O espessamento do ceco e a pneumatose intestinal na tomografia são achados típicos e indicam isquemia intestinal, uma complicação grave da doença. A associação desses elementos fecha o diagnóstico.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A diverticulite aguda é uma inflamação dos divertículos do cólon, mais comum em pacientes idosos e tipicamente localizada no quadrante inferior esquerdo (cólon sigmoide). Embora o paciente apresente dor abdominal e febre, a localização da dor no quadrante inferior direito, a neutropenia profunda e o espessamento do ceco com pneumatose não são compatíveis com diverticulite. Além disso, a diverticulite não é uma complicação típica da quimioterapia.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A apendicite aguda é uma inflamação do apêndice cecal, que pode causar dor no quadrante inferior direito e febre. No entanto, o paciente apresenta neutropenia grave, um fator de risco para enterocolite neutropênica, e a tomografia mostra espessamento do ceco e pneumatose intestinal, achados que não são característicos de apendicite. A apendicite é mais comum em pacientes jovens e não está diretamente relacionada à quimioterapia.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A colite pseudomembranosa é uma infecção do cólon causada pela toxina do Clostridioides difficile, geralmente associada ao uso recente de antibióticos. O quadro clínico típico inclui diarreia aquosa, febre e dor abdominal, mas a tomografia costuma mostrar espessamento difuso da parede do cólon, sem predileção pelo ceco, e a pneumatose intestinal não é um achado comum. Além disso, o paciente não tem história de uso de antibióticos, e a neutropenia profunda é um fator de risco mais forte para enterocolite neutropênica.
Gabarito: letra A