Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — VUNESP 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
vu093986
Banca
VUNESP
Órgão
HIAE
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Pré-Requisito em Medicina Intensiva ou Pediatria
Menino de 14 anos apresenta febre alta há 7 dias, dor de garganta e surgimento de exantema maculopapular disseminado. Nega uso recente de antibióticos. Ao exame físico, observam-se exsudato amarelado em amídalas, linfadenopatia generalizada, esplenomegalia e hepatomegalia discretas. O exantema acomete tronco, face e membros, sem prurido.Considerando a principal hipótese diagnóstica, qual achado laboratorial é mais característico?
AAnemia normocítica com reticulocitose.
BLeucopenia intensa com neutropenia absoluta.
CEosinofilia periférica significativa.
DLinfocitose com presença de linfócitos atípicos.
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GabaritoD — Linfocitose com presença de linfócitos atípicos.
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Mononucleose infecciosa: o quadro clínico e o hemograma
Gabarito: letra D. O quadro descrito — febre alta há 7 dias, exsudato amigdaliano, linfadenopatia generalizada, esplenomegalia e hepatomegalia discretas, exantema maculopapular sem prurido em adolescente que nega uso de antibióticos — é clássico de mononucleose infecciosa (vírus Epstein-Barr, EBV). O achado laboratorial mais característico é a linfocitose com linfócitos atípicos no hemograma, exatamente o que a alternativa D afirma.
A mononucleose infecciosa é uma doença viral aguda causada pelo vírus Epstein-Barr (EBV), um herpesvírus que infecta linfócitos B. Acomete principalmente adolescentes e adultos jovens, e sua apresentação clássica é a tríade febre, faringoamigdalite exsudativa e linfadenopatia cervical — mas o quadro pode ser muito mais amplo, como no caso do enunciado, que soma esplenomegalia, hepatomegalia e exantema. O exantema da mononucleose é variável e inconstante, e ganha notoriedade quando o paciente faz uso de aminopenicilinas (amoxicilina, ampicilina): nesses casos, cerca de 80-100% desenvolvem exantema maculopapular, o que é um dado clínico importante. No paciente do enunciado, o exantema aparece sem uso recente de antibióticos, o que reforça que a doença viral em si pode cursar com exantema em 5-10% dos casos, como registrado na literatura pediátrica.
O diagnóstico é essencialmente clínico, mas o hemograma é o exame laboratorial que mais auxilia. Na mononucleose, o hemograma típico mostra:
Leucocitose (geralmente 10.000-20.000/mm³, podendo chegar a 50.000/mm³), com linfocitose — linfócitos e linfócitos atípicos (células de Downey) costumam ultrapassar 50% dos leucócitos, e os atípicos representam mais de 10%.
Os linfócitos atípicos são linfócitos T citotóxicos reativos, ativados contra as células B infectadas pelo EBV. São células grandes, com citoplasma abundante e basofílico, núcleo irregular e, por vezes, nucléolos visíveis.
Pode haver trombocitopenia leve e anemia discreta, mas não são os achados centrais.
A confirmação sorológica é feita pela pesquisa de anticorpos heterófilos (teste de Paul-Bunnell ou Monoteste) ou por sorologia específica para EBV (anti-VCA IgM e IgG, anti-EBNA). O anticorpo heterófilo é positivo em cerca de 80-90% dos adolescentes e adultos, mas pode ser negativo em crianças pequenas.
A distinção que importa aqui é entre a mononucleose e outras causas de febre e exantema com linfadenopatia e hepatoesplenomegalia. O diagnóstico diferencial inclui:
Citomegalovírus (CMV): quadro semelhante, mas geralmente sem exsudato amigdaliano proeminente e com menos linfócitos atípicos; o anticorpo heterófilo é negativo.
Toxoplasmose: linfadenopatia cervical, febre, mas exantema menos comum; sorologia específica.
Infecção pelo HIV aguda: síndrome retroviral aguda com febre, faringite, linfadenopatia e exantema maculopapular — o hemograma pode mostrar linfocitose com atípicos, mas a confirmação é por carga viral ou antígeno p24.
Escarlatina: exantema puntiforme áspero, descamação, língua em framboesa, causada por estreptococo do grupo A; o hemograma mostra leucocitose com neutrofilia, não linfocitose.
Reações medicamentosas: exantema maculopapular com febre e adenopatia, mas o paciente nega uso de antibióticos.
A pegadinha da banca está em oferecer alternativas que correspondem a outros quadros hematológicos: anemia hemolítica com reticulocitose (alternativa A), leucopenia intensa com neutropenia (alternativa B, típica de algumas viroses como dengue ou de aplasia medular) e eosinofilia (alternativa C, associada a parasitoses ou alergias). O candidato que reconhece a mononucleose pelo quadro clínico identifica sem dificuldade que o hemograma esperado é a linfocitose com atípicos.
Guarde a associação: adolescente + febre + faringite exsudativa + linfadenopatia + esplenomegalia = mononucleose → linfócitos atípicos no hemograma. É esse o critério que separa a alternativa correta das demais.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Anemia normocítica com reticulocitose sugere anemia hemolítica (ex.: anemia falciforme, esferocitose, anemia hemolítica autoimune). Na mononucleose, a anemia não é um achado característico — pode haver anemia discreta por supressão medular ou por sequestro esplênico, mas não é o padrão laboratorial que define a doença. A banca oferece essa alternativa para confundir com quadros de hemólise que cursam com esplenomegalia, mas o restante do quadro (faringite, linfadenopatia, exantema) não se encaixa.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Leucopenia intensa com neutropenia absoluta é típica de infecções virais como dengue, ou de condições como aplasia de medula óssea e algumas leucemias. Na mononucleose, o padrão é o oposto: leucocitose com linfocitose, não leucopenia. A neutropenia pode ocorrer de forma leve e transitória, mas nunca é o achado mais característico. A banca explora a confusão com outras viroses que cursam com leucopenia.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Eosinofilia periférica significativa está associada a parasitoses intestinais, alergias, asma, drogas e algumas neoplasias (ex.: síndrome hipereosinofílica). Na mononucleose infecciosa, a eosinofilia não faz parte do quadro — o que se observa é linfocitose. A alternativa tenta desviar a atenção para um achado que não tem relação com a doença em questão.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A linfocitose com presença de linfócitos atípicos é o achado laboratorial mais característico da mononucleose infecciosa. O EBV infecta linfócitos B, desencadeando uma resposta imune celular intensa com proliferação de linfócitos T citotóxicos — os chamados linfócitos atípicos (células de Downey). No hemograma, observa-se leucocitose com linfocitose absoluta e mais de 10% de linfócitos atípicos. Esse padrão, somado ao quadro clínico de febre, faringite exsudativa, linfadenopatia e esplenomegalia em adolescente, fecha o diagnóstico de mononucleose infecciosa.
PEGA ESSA DICA!
Na prova, ao ver um adolescente com febre, dor de garganta com exsudato, linfadenopatia generalizada e esplenomegalia, pense em mononucleose e procure no hemograma a linfocitose com atípicos. Lembre-se: o exantema na mononucleose é mais comum quando há uso de aminopenicilinas, mas pode ocorrer espontaneamente em 5-10% dos casos — não descarte o diagnóstico só por causa do exantema.