Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — VUNESP 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
vu093987
Banca
VUNESP
Órgão
HIAE
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Pré-Requisito em Medicina Intensiva ou Pediatria
Lactente de 6 meses, irmão de criança com alergia alimentar grave a castanhas, encontra-se em fase de introdução alimentar. Considerando o risco aumentado para alergia alimentar, qual a orientação adequada, conforme as diretrizes atuais?
AMensurar as IgE específicas para os alimentos mais alergênicos (leite, ovo, peixes, amendoim e castanhas) antes da introdução.
BPostergar a introdução de alimentos potencialmente alergênicos para depois do primeiro ano de vida.
CIniciar qualquer alimento a partir deste momento, respeitando valor nutricional e cultura alimentar.
DEvitar castanhas e utilizar fórmula extensamente hidrolisada caso seja necessário complementar o leite materno.
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GabaritoC — Iniciar qualquer alimento a partir deste momento, respeitando valor nutricional e cultura alimentar.
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Alergia alimentar e introdução alimentar: diretrizes atuais
Gabarito: letra C. As diretrizes atuais recomendam que a introdução de alimentos potencialmente alergênicos não seja adiada, devendo ocorrer a partir dos 6 meses, respeitando o valor nutricional e a cultura alimentar da família. A orientação de postergar a introdução de alimentos alergênicos para após o primeiro ano de vida foi abandonada, pois evidências mostram que a introdução precoce, em pequenas quantidades e de forma repetida, induz tolerância oral e reduz o risco de alergia alimentar.
A alergia alimentar é uma reação adversa mediada por mecanismos imunológicos, que pode ser IgE-mediada, não-IgE-mediada ou mista. No lactente, os alimentos mais frequentemente implicados são leite de vaca, ovo, amendoim, soja, trigo, peixes e castanhas. Historicamente, acreditava-se que atrasar a introdução desses alimentos diminuiria o risco de sensibilização. No entanto, estudos como o LEAP (Learning Early About Peanut Allergy) demonstraram o oposto: a introdução precoce do amendoim, entre 4 e 11 meses, em crianças de alto risco, reduziu significativamente a incidência de alergia ao amendoim. Esse paradigma foi incorporado pelas principais sociedades de pediatria e alergia, incluindo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que passou a recomendar a introdução de todos os alimentos, inclusive os alergênicos, a partir dos 6 meses, sem necessidade de adiamento.
A orientação atual para a prevenção de alergia alimentar em lactentes de risco (como irmãos de crianças com alergia grave) é:
Não atrasar a introdução de alimentos alergênicos.
Iniciar a alimentação complementar aos 6 meses, com alimentos in natura ou minimamente processados.
Oferecer os alimentos alergênicos de forma precoce, em pequenas quantidades e de forma contínua, para induzir tolerância oral.
Manter o aleitamento materno, que tem efeito protetor, mas não é suficiente para prevenir alergia alimentar isoladamente.
Não realizar testes de IgE específica de rotina antes da introdução, pois a sensibilização (IgE positiva) não é sinônimo de alergia clínica.
Não evitar alimentos alergênicos na dieta materna durante a gestação ou lactação, salvo se o lactente já apresentar sintomas de alergia.
A alternativa C reflete exatamente essa recomendação: iniciar qualquer alimento a partir dos 6 meses, respeitando valor nutricional e cultura alimentar. As demais alternativas representam condutas ultrapassadas ou inadequadas.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre sensibilização (IgE positiva, que é comum e nem sempre causa sintomas) e alergia clínica (reação após exposição). A alternativa A sugere medir IgE antes da introdução, o que levaria a restrições desnecessárias e não é recomendado. A alternativa B reflete a orientação antiga, já superada. A alternativa D propõe evitar castanhas e usar fórmula extensamente hidrolisada, o que não é indicado profilaticamente. A pegadinha é o candidato lembrar da recomendação antiga de adiar a introdução de alergênicos, quando a diretriz atual é justamente o oposto.
Prevenção de alergia alimentar
1Diretriz atual
Introdução precoce (4-6 meses)
Todos os alimentos, inclusive alergênicos
Pequenas quantidades, de forma contínua
Induz tolerância oral
2Condutas superadas
Adiar alergênicos após 1 ano
Evitar alimentos na gestação/lactação
IgE específica de rotina antes de introduzir
Fórmula extensamente hidrolisada profilática
3Conceitos-chave
Sensibilização (IgE+) ≠ alergia clínica
Diagnóstico é clínico
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A mensuração de IgE específica antes da introdução não é recomendada como rotina. A presença de IgE específica (sensibilização) não prediz alergia clínica; muitos lactentes sensibilizados toleram o alimento. O diagnóstico de alergia alimentar é clínico, e a investigação laboratorial é reservada para casos selecionados, após história sugestiva. A conduta correta é introduzir os alimentos normalmente, observando reações.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Postergar a introdução de alimentos potencialmente alergênicos para após o primeiro ano de vida é uma recomendação superada. Estudos demonstraram que a introdução precoce (a partir dos 6 meses) de alimentos como amendoim e ovo diminui o risco de alergia alimentar, por induzir tolerância oral. A janela de oportunidade para indução de tolerância é justamente entre 4 e 6 meses de vida.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta é a orientação atual. A introdução alimentar deve começar aos 6 meses, com todos os alimentos, incluindo os alergênicos, respeitando o valor nutricional e a cultura alimentar. Não há necessidade de adiar ou evitar alimentos específicos, mesmo em lactentes com histórico familiar de alergia. A introdução precoce e contínua, em pequenas quantidades, é a estratégia recomendada para prevenção.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Evitar castanhas e usar fórmula extensamente hidrolisada profilaticamente não é recomendado. A restrição de alimentos alergênicos na dieta do lactente sem diagnóstico de alergia não previne a alergia e pode levar a deficiências nutricionais. A fórmula extensamente hidrolisada é indicada para o tratamento de alergia à proteína do leite de vaca, não para prevenção em lactentes sem sintomas. O aleitamento materno deve ser mantido e complementado com alimentos sólidos a partir dos 6 meses.