Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — VUNESP 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
vu094007
Banca
VUNESP
Órgão
HIAE
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Pré-Requisito em Medicina Intensiva ou Pediatria
Paciente de 3 anos, vítima de acidente automobilístico em um veículo que trafegava a 70 km/h, encontra-se no departamento de emergência. Ao exame físico apresenta-se consciente, com frequência cardíaca de 160 bpm, pressão arterial de 80 x 55 mmHg e tempo de enchimento capilar de 2 segundos, com hematoma em região abdominal.Assinale a alternativa correta em relação aos exames utilizados na avaliação do trauma abdominal pediátrico.
AO lavado peritoneal diagnóstico permanece como exame amplamente indicado na avaliação inicial de crianças com trauma abdominal contuso.
BA tomografia computadorizada de abdome com contraste intravenoso é o exame de escolha para avaliação de lesões abdominais em pacientes pediátricos hemodinamicamente instáveis.
CA avaliação focada com ultrassom no trauma (FAST) é útil para avaliação inicial, mas um resultado negativo não exclui a possibilidade de lesão intra-abdominal.
DA radiografia simples de abdome tem boa sensibilidade para detecção de hemoperitônio e pode ser utilizada como exame de triagem inicial.
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GabaritoC — A avaliação focada com ultrassom no trauma (FAST) é útil para avaliação inicial, mas um resultado negativo não exclui a possibilidade de lesão intra-abdominal.
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Trauma abdominal pediátrico: o papel do FAST e dos demais exames
Gabarito: letra C. No trauma abdominal pediátrico, o FAST (avaliação focada com ultrassom no trauma) é um exame útil na triagem inicial, porém sua sensibilidade é limitada — um resultado negativo não exclui lesão intra-abdominal, especialmente em crianças, nas quais o sangramento pode ser pequeno ou o exame realizado precocemente. Essa é exatamente a afirmação da alternativa correta, alinhada à conduta preconizada pelo ATLS e pela literatura de trauma pediátrico.
O trauma abdominal é uma das principais causas de morbimortalidade em crianças, e a avaliação inicial exige um equilíbrio entre rapidez e acurácia diagnóstica. Diferentemente do adulto, a criança tem maior complacência da parede abdominal e menor reserva fisiológica, o que torna o exame físico menos confiável e a instabilidade hemodinâmica um sinal tardio de sangramento. Por isso, a propedêutica armada é fundamental, e a escolha do exame depende diretamente da estabilidade hemodinâmica do paciente.
O FAST (Focused Assessment with Sonography for Trauma) é um exame de ultrassom point-of-care, realizado à beira do leito, que pesquisa líquido livre na cavidade abdominal (nas janelas hepatorrenal, esplenorrenal e suprapúbica) e derrame pericárdico (janela subxifóidea). Suas grandes vantagens são a rapidez, a não invasividade, a ausência de radiação ionizante e a possibilidade de repetição seriada. No entanto, sua sensibilidade é de cerca de 74%, ou seja, aproximadamente 1 em cada 4 lesões com líquido livre pode não ser detectada — e isso é ainda mais relevante na criança, na qual o sangramento pode ser incipiente ou o exame realizado muito cedo após o trauma. Por isso, um FAST negativo não exclui lesão intra-abdominal, e o paciente deve ser reavaliado ou submetido a outros métodos conforme a evolução clínica.
A tomografia computadorizada (TC) de abdome com contraste é o exame de escolha para a avaliação detalhada de lesões em pacientes hemodinamicamente estáveis, pois permite graduar lesões de órgãos parenquimatosos (fígado, baço, rim) e identificar lesões retroperitoneais. Porém, é contraindicada no paciente instável, pois exige transporte e tempo de aquisição, o que retarda a laparotomia de emergência. No paciente instável, a conduta é a laparotomia exploradora imediata, eventualmente guiada por FAST positivo, e não a TC.
O lavado peritoneal diagnóstico (LPD) foi historicamente utilizado, mas caiu em desuso na avaliação inicial da criança, pois é invasivo, tem baixa especificidade e interfere na interpretação de exames subsequentes — sendo substituído pelo FAST. A radiografia simples de abdome, por sua vez, tem baixíssima sensibilidade para hemoperitônio, sendo útil apenas para avaliar pneumoperitônio, corpos estranhos ou fraturas, não como triagem de sangramento intra-abdominal.
A pegadinha central desta questão é a inversão do papel de cada exame conforme a hemodinâmica: a banca tenta fazer o candidato aplicar a lógica do adulto (TC como exame universal) ou valorizar exames ultrapassados (LPD, radiografia), quando a regra no trauma pediátrico é: instável → FAST/laparotomia; estável → TC. Guarde essa fronteira: é exatamente nela que as alternativas se dividem.
Exame
Indicação no trauma pediátrico
Limitação/observação
FAST
Triagem inicial à beira do leito (paciente instável ou estável)
Sensibilidade ~74%; negativo não exclui lesão intra-abdominal
TC com contraste
Exame de escolha no paciente hemodinamicamente estável
Contraindicado no instável (retarda laparotomia)
Lavado peritoneal (LPD)
Uso restrito/em desuso na criança
Invasivo, baixa especificidade, interfere em exames subsequentes
Radiografia simples de abdome
Apenas para pneumoperitônio, fraturas, corpos estranhos
Baixíssima sensibilidade para hemoperitônio; não serve como triagem
Trauma abdominal pediátrico: Hemodinamicamente instável (FAST à beira do leito, Laparotomia de emergência); Hemodinamicamente estável (TC com contraste (padrão-ouro), FAST negativo não exclui lesão); Exames superados (Lavado peritoneal (invasivo), Radiografia simples (baixa sensibilidade))
Alternativa A — ❌ Incorreta
O lavado peritoneal diagnóstico (LPD) não permanece como exame amplamente indicado na avaliação inicial de crianças com trauma abdominal contuso. Ele foi substituído pelo FAST, por ser invasivo, de baixa especificidade e por interferir na interpretação de exames subsequentes (como a TC). Na prática atual, o LPD tem indicação restrita, geralmente em situações em que o FAST não está disponível ou em pacientes instáveis sem acesso imediato ao centro cirúrgico — não é a regra na criança.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A tomografia computadorizada de abdome com contraste é o exame de escolha para avaliação de lesões abdominais em pacientes pediátricos hemodinamicamente estáveis, não instáveis. No paciente instável, o tempo para realizar a TC aumenta a mortalidade — a conduta é a laparotomia exploradora imediata (ou FAST positivo como gatilho cirúrgico). A alternativa inverte exatamente a indicação: troca o cenário de estabilidade pelo de instabilidade.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A afirmação está correta: o FAST é útil na avaliação inicial do trauma abdominal pediátrico, mas um resultado negativo não exclui lesão intra-abdominal. Isso decorre da sensibilidade limitada do exame (cerca de 74%), que pode não detectar pequenos volumes de líquido livre, especialmente se realizado precocemente ou por examinador inexperiente. Na criança, essa limitação é ainda mais crítica, pois o sangramento pode ser pequeno e o exame físico pouco confiável. Portanto, FAST negativo deve ser interpretado com cautela, com reavaliação clínica seriada ou complementação por TC no paciente estável.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A radiografia simples de abdome tem baixíssima sensibilidade para detecção de hemoperitônio — ela não visualiza líquido livre de forma confiável. Sua utilidade se restringe à avaliação de pneumoperitônio, corpos estranhos, fraturas pélvicas ou desvio de alças, não servindo como exame de triagem para sangramento intra-abdominal. O exame de triagem inicial para líquido livre é o FAST, não a radiografia.
Gabarito: letra C — o FAST é útil na triagem, mas FAST negativo não exclui lesão intra-abdominal no trauma pediátrico.