Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — VUNESP 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
vu094014
Banca
VUNESP
Órgão
HIAE
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Pré-Requisito em Medicina Intensiva ou Pediatria
Paciente de 3 anos e 2 meses, internado na UTI pediátrica há 4 dias por trauma cranioencefálico grave (queda de televisão em polo cefálico após se apoiar no móvel). Tem tomografia de crânio com edema cerebral grave, inclusive com sinais de herniação. Evolui com coma arreativo e aperceptivo e com pupilas midriáticas fixas; sedação e analgesia contínuas pausadas há 48 horas, com manutenção do comprometimento neurológico. Não apresenta disfunção renal ou hepática. O médico é questionado sobre a abertura do protocolo de morte encefálica. No momento, o paciente está intubado com parâmetros ventilatórios moderados (com FIO2 de 100%), com gasometria arterial com pH = 7,44; pCO₂ = 44; pO₂ = 204; bic = 30; SatO₂ = 98%, recebendo adrenalina a 0,2 mcg/kg/min. Sinais vitais com FC = 142 bpm; PA = 72 x 44 (58) mmHg; FR igual ao do ventilador (está em apneia); temperatura retal = 35,8ºC; SatO2 = 98%. Não apresenta distúrbios eletrolíticos nos últimos exames.Assinale a alternativa que contém a condição apresentada pelo paciente que impede a abertura do protocolo de morte encefálica nesse momento.
AA pCO2 na gasometria arterial abaixo de 45 mmHg.
BA pressão arterial sistólica abaixo de 85 mmHg.
CA temperatura central abaixo de 36ºC.
DO uso de drogas vasoativas.
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GabaritoB — A pressão arterial sistólica abaixo de 85 mmHg.
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Morte encefálica em pediatria: critérios para abertura do protocolo
Gabarito: letra B. A condição que impede a abertura do protocolo de morte encefálica neste momento é a pressão arterial sistólica de 72 mmHg, abaixo do valor mínimo exigido para a faixa etária (≥ 85 mmHg). A Resolução CFM nº 2.173/2017, que regulamenta os critérios de morte encefálica, estabelece que o paciente deve estar hemodinamicamente estável, com pressão arterial sistólica adequada para a idade, antes de se iniciar o protocolo — e a hipotensão pode mimetizar ou confundir a avaliação neurológica, além de comprometer a perfusão cerebral, invalidando o diagnóstico.
A morte encefálica é a cessação irreversível e definitiva das funções do encéfalo, incluindo o tronco cerebral, sendo considerada morte legal no Brasil. O diagnóstico é clínico, baseado em três pilares: (1) coma arreativo e aperceptivo (ausência de resposta a estímulos), (2) ausência de reflexos do tronco cerebral (pupilar, córneo-palpebral, oculocefálico, oculovestibular, de tosse e de gag) e (3) apneia persistente (teste de apneia positivo). Antes de iniciar o protocolo, é obrigatório excluir condições que possam confundir o diagnóstico, como hipotermia, hipotensão, distúrbios metabólicos, intoxicações e uso de drogas depressoras do sistema nervoso central. A Resolução CFM nº 2.173/2017 exige que o paciente esteja estável do ponto de vista hemodinâmico e com temperatura central ≥ 36°C (ou 35°C, conforme a faixa etária) para que o exame neurológico seja confiável. No caso apresentado, a criança tem PA = 72 x 44 (58) mmHg, ou seja, pressão arterial sistólica de 72 mmHg, abaixo do mínimo de 85 mmHg para a idade (3 anos). Essa hipotensão pode ser causa de lesão cerebral secundária e pode mimetizar a ausência de reflexos, tornando o diagnóstico de morte encefálica inseguro e contraindicado naquele momento. A conduta correta é estabilizar hemodinamicamente o paciente (reposição volêmica, drogas vasoativas) e, só então, reavaliar a possibilidade de abrir o protocolo.
A temperatura central de 35,8°C também é um fator que impede a abertura do protocolo, pois a hipotermia (< 36°C) pode deprimir o sistema nervoso central e simular a ausência de reflexos. No entanto, a alternativa C afirma que a temperatura central abaixo de 36°C impede o protocolo — o que é verdadeiro, mas a questão pede a condição apresentada pelo paciente que impede a abertura. O paciente tem temperatura de 35,8°C, que é inferior a 36°C, portanto, essa condição também está presente e também impede o protocolo. A banca, no entanto, considerou a pressão arterial sistólica como a condição que impede, pois é o dado mais crítico e o que está mais claramente abaixo do limite (72 mmHg vs. 85 mmHg). A temperatura de 35,8°C é muito próxima do limite de 36°C, e a banca pode ter considerado que a hipotensão é o fator mais determinante para a não abertura do protocolo. A alternativa C, portanto, é incorreta porque, embora a temperatura abaixo de 36°C seja um impeditivo, a questão pede a condição apresentada que impede — e a temperatura de 35,8°C é um impeditivo, mas a banca optou pela pressão arterial como resposta. A alternativa A (pCO2 = 44 mmHg) está dentro do limite (35-45 mmHg) e não impede o protocolo. A alternativa D (uso de drogas vasoativas) não impede o protocolo, desde que o paciente esteja estável hemodinamicamente; o uso de adrenalina é permitido, desde que a pressão arterial esteja adequada.
A pegadinha desta questão está em identificar qual condição, entre as apresentadas, é o impeditivo mais relevante. O candidato pode ser tentado a marcar a alternativa C (temperatura), pois a hipotermia é um impeditivo clássico, mas a banca cobra o conhecimento dos valores específicos de pressão arterial para abertura do protocolo em pediatria. A pressão arterial sistólica de 72 mmHg está muito abaixo do mínimo de 85 mmHg, enquanto a temperatura de 35,8°C está apenas 0,2°C abaixo do limite de 36°C. A banca considera que a hipotensão é o fator que mais compromete a confiabilidade do exame neurológico, pois pode causar isquemia cerebral e mimetizar a ausência de reflexos. Portanto, a resposta correta é a letra B.
Condição apresentada
Valor no caso
Valor mínimo exigido
Impede abertura do protocolo?
Pressão arterial sistólica
72 mmHg
≥ 85 mmHg (para 3 anos)
Sim (hipotensão compromete perfusão cerebral e confunde exame)
Temperatura central
35,8°C
≥ 36°C
Sim (hipotermia pode deprimir SNC), porém menos crítico que a PA
pCO₂ na gasometria
44 mmHg
35–45 mmHg
Não (dentro do limite)
Uso de drogas vasoativas
Adrenalina 0,2 mcg/kg/min
Permitido se estável
Não (desde que PA adequada)
Morte encefálica (CFM 2.173/2017): Pré-requisitos (PA sistólica ≥ 85 mmHg (3 anos), Temperatura central ≥ 36°C, Sem drogas depressoras do SNC, pCO2 entre 35 e 45 mmHg); Diagnóstico clínico (Coma arreativo e aperceptivo, Ausência de reflexos de tronco, Teste de apneia positivo); Exames complementares (Angiografia cerebral, EEG, Doppler transcraniano)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A pCO2 de 44 mmHg está dentro do limite aceitável (35-45 mmHg) para a abertura do protocolo. A gasometria mostra pH = 7,44, pCO2 = 44, bic = 30, o que indica alcalose metabólica compensada, mas não é um impeditivo. A pCO2 deve estar entre 35 e 45 mmHg para que o teste de apneia seja válido, e 44 mmHg está dentro dessa faixa. Portanto, essa condição não impede a abertura do protocolo.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A pressão arterial sistólica de 72 mmHg está abaixo do mínimo de 85 mmHg exigido para a faixa etária de 3 anos. A Resolução CFM nº 2.173/2017 estabelece que o paciente deve estar hemodinamicamente estável, com pressão arterial sistólica adequada para a idade, antes de iniciar o protocolo. A hipotensão pode comprometer a perfusão cerebral e mimetizar a ausência de reflexos, tornando o diagnóstico de morte encefálica inseguro. Portanto, essa condição impede a abertura do protocolo neste momento.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A temperatura central de 35,8°C está abaixo de 36°C, o que é um impeditivo para a abertura do protocolo, pois a hipotermia pode deprimir o sistema nervoso central e simular a ausência de reflexos. No entanto, a questão pede a condição apresentada pelo paciente que impede a abertura — e a temperatura de 35,8°C é um impeditivo, mas a banca considerou a pressão arterial sistólica como a resposta correta, pois é o dado mais crítico e o que está mais claramente abaixo do limite. A temperatura de 35,8°C está muito próxima do limite de 36°C, enquanto a PA sistólica de 72 mmHg está muito abaixo do mínimo de 85 mmHg. Portanto, a alternativa C é incorreta porque, embora a temperatura seja um impeditivo, a banca optou pela pressão arterial como a condição que impede.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O uso de drogas vasoativas (adrenalina) não impede a abertura do protocolo, desde que o paciente esteja estável hemodinamicamente. A adrenalina é usada para manter a pressão arterial, e o protocolo pode ser aberto se a PA estiver adequada. No caso, a PA sistólica está baixa (72 mmHg), o que impede o protocolo, mas o uso da droga em si não é um impeditivo. A banca pode tentar confundir o candidato, mas o uso de vasoativos é permitido durante o protocolo, desde que a estabilidade hemodinâmica seja mantida.
Gabarito: letra B — a pressão arterial sistólica de 72 mmHg, abaixo do mínimo de 85 mmHg para a idade, impede a abertura do protocolo de morte encefálica neste momento.