Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — VUNESP 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
vu094076
Banca
VUNESP
Órgão
HIAE
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Pré-Requisito em Pediatria
Menina de 13 anos, que teve menarca há seis meses, procura atendimento por apresentar sangramento menstrual intenso e prolongado desde o início dos ciclos menstruais. O pai dela tem diagnóstico de hemofilia, mas a menina nunca foi investigada. Refere também equimoses frequentes desde a infância. Relata ausência de atividade sexual.Considerando a história clínica e familiar, qual é a hipótese diagnóstica mais provável e o principal achado laboratorial esperado, correta e respectivamente?
ASíndrome dos ovários policísticos; aumento da testosterona total e LH/FSH > 2.
BDoença de Von Willebrand; TTPa reduzido e aumento da atividade de ristocetina.
CCoagulopatia hereditária (hemofilia A); TTPa prolongado e fator VIII reduzido.
DAnovulação fisiológica; elevação discreta de TSH e prolactina.
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GabaritoC — Coagulopatia hereditária (hemofilia A); TTPa prolongado e fator VIII reduzido.
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Sangramento uterino anormal na adolescência: hemofilia A
Gabarito: letra C. A hipótese mais provável é coagulopatia hereditária (hemofilia A), com TTPa prolongado e fator VIII reduzido — o pai tem hemofilia (herança recessiva ligada ao X), a menina apresenta sangramento menstrual intenso desde a menarca e equimoses frequentes desde a infância, e o principal achado laboratorial esperado é exatamente o prolongamento do TTPa com redução do fator VIII. A alternativa C espelha com precisão a tríade história familiar + manifestação hemorrágica precoce + perfil laboratorial da hemofilia A.
O sangramento uterino anormal (SUA) na adolescência é um desafio diagnóstico porque, na maioria das vezes, a causa é a imaturidade fisiológica do eixo hipotálamo-hipófise-ovário (HHO), que leva a ciclos anovulatórios — estima-se que 55 a 82% dos ciclos sejam anovulatórios nos 2 primeiros anos após a menarca. No entanto, a presença de história familiar positiva para distúrbio hemorrágico hereditário e de manifestações hemorrágicas desde a infância (equimoses frequentes) muda completamente o raciocínio: esses dados apontam para uma discrasia sanguínea, não para anovulação fisiológica. A hemofilia A é uma deficiência do fator VIII da coagulação, com herança recessiva ligada ao X — o pai afetado transmite o gene mutado para todas as filhas (que serão portadoras obrigatórias), e a menina, sendo portadora, pode manifestar sangramentos, especialmente em situações de desafio hemostático como a menstruação.
O diagnóstico laboratorial da hemofilia A se baseia na dosagem do fator VIII e na avaliação da coagulação. O TTPa (tempo de tromboplastina parcial ativada) avalia a via intrínseca da coagulação, que depende dos fatores VIII, IX, XI e XII — por isso, na deficiência de fator VIII, o TTPa está prolongado. Já o TP (tempo de protrombina) avalia a via extrínseca e permanece normal. A doença de von Willebrand, por sua vez, é o distúrbio hemorrágico hereditário mais comum e também pode causar menorragia, mas o perfil laboratorial é diferente: o TTPa costuma estar normal ou discretamente prolongado (dependendo do nível de fator VIII), e o diagnóstico se faz pela dosagem do antígeno e da atividade do fator de von Willebrand, além da atividade da ristocetina — que está reduzida, não aumentada.
A distinção entre hemofilia A e doença de von Willebrand é o ponto central desta questão. A hemofilia A é uma coagulopatia da hemostasia secundária (deficiência de fator VIII), com sangramento em tecidos profundos (hemartroses, hematomas musculares) e TTPa prolongado. A doença de von Willebrand é um distúrbio da hemostasia primária (disfunção plaquetária por deficiência do fator de von Willebrand), com sangramento mucocutâneo (epistaxe, menorragia, equimoses) e, em geral, TTPa normal. A história de equimoses frequentes e menorragia desde a menarca é compatível com ambas, mas a história familiar de hemofilia no pai é o dado que direciona para a hemofilia A — e o achado laboratorial esperado (TTPa prolongado + fator VIII reduzido) confirma.
A banca explora aqui a confusão entre as duas coagulopatias hereditárias mais comuns. A alternativa B (doença de Von Willebrand) é o distrator mais forte, pois também causa menorragia e equimoses — mas o perfil laboratorial descrito está invertido: na doença de von Willebrand, a atividade de ristocetina está reduzida (não aumentada), e o TTPa costuma estar normal (não reduzido). A alternativa A (síndrome dos ovários policísticos) e a D (anovulação fisiológica) são causas de SUA por disfunção ovulatória, mas não explicam as equimoses desde a infância nem a história familiar de hemofilia. Guarde a fronteira: história familiar de hemofilia + sangramento desde a infância + TTPa prolongado = hemofilia A; sangramento mucocutâneo + TTPa normal + atividade de ristocetina reduzida = doença de von Willebrand.
Critério
Hemofilia A (gabarito)
Doença de Von Willebrand (distrator)
Herança
Recessiva ligada ao X
Autossômica dominante
Defeito
Deficiência do fator VIII
Deficiência/disfunção do fator de von Willebrand
Hemostasia afetada
Secundária (coagulação)
Primária (plaquetária)
TTPa
Prolongado
Normal ou discretamente prolongado
Atividade de ristocetina
Normal
Reduzida
Padrão de sangramento
Tecidos profundos (hemartroses, hematomas)
Mucocutâneo (epistaxe, menorragia, equimoses)
Hemofilia A
1Herança recessiva ligada ao X
Pai afetado → filhas portadoras
2Hemostasia secundária
Deficiência do fator VIII
TTPa prolongado
TP normal
3Sangramento em tecidos profundos
Hemartroses
Hematomas musculares
4Doença de Von Willebrand
Distúrbio mais comum
Hemostasia primária
Deficiência do fator de von Willebrand
Atividade de ristocetina reduzida
TTPa normal
Sangramento mucocutâneo
Epistaxe
Menorragia
Equimoses
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A síndrome dos ovários policísticos (SOP) é uma causa de SUA por disfunção ovulatória, comum na adolescência, mas o quadro descrito não a sustenta: a menina não apresenta sinais de hiperandrogenismo (acne, hirsutismo, alopecia) nem obesidade/acantose nigricans, e o dado decisivo — equimoses frequentes desde a infância + pai com hemofilia — aponta para discrasia sanguínea, não para distúrbio ovulatório. Além disso, o perfil laboratorial descrito (aumento de testosterona total e LH/FSH > 2) é típico da SOP, mas não se aplica ao caso, pois a hipótese diagnóstica principal é outra. A banca oferece essa alternativa para testar se o candidato reconhece que, apesar de a anovulação ser a causa mais comum de SUA na adolescência, a história familiar e as equimoses redirecionam o diagnóstico.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A doença de Von Willebrand (dWv) é o distúrbio hemorrágico hereditário mais comum e uma causa importante de menorragia na adolescência — o que a torna um distrator forte. No entanto, o perfil laboratorial descrito está errado em dois pontos: (1) o TTPa na dWv costuma estar normal (ou discretamente prolongado, apenas se o fator VIII estiver muito reduzido), não reduzido; (2) a atividade de ristocetina está reduzida (pois há deficiência ou disfunção do fator de von Willebrand, que é o ligante para a agregação plaquetária induzida pela ristocetina), não aumentada. Além disso, a história familiar de hemofilia no pai direciona para a hemofilia A, não para a dWv — embora a dWv também possa ter história familiar positiva, o padrão de herança autossômico dominante e o perfil laboratorial descrito não se encaixam. A pegadinha está em trocar o sentido dos achados laboratoriais: a banca inverteu "reduzido" por "aumentado" na atividade de ristocetina.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A hemofilia A é uma coagulopatia hereditária por deficiência do fator VIII, com herança recessiva ligada ao X — o pai afetado transmite o gene mutado para todas as filhas, que são portadoras obrigatórias e podem manifestar sangramentos, especialmente em situações de desafio hemostático como a menstruação. A menina apresenta os três elementos que sustentam o diagnóstico: (1) história familiar positiva (pai com hemofilia); (2) manifestações hemorrágicas desde a infância (equimoses frequentes); (3) sangramento menstrual intenso e prolongado desde a menarca. O principal achado laboratorial esperado é o TTPa prolongado (a via intrínseca depende do fator VIII) com fator VIII reduzido — exatamente o que a alternativa descreve. A ausência de atividade sexual afasta causas ginecológicas locais e reforça a hipótese de discrasia sanguínea.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A anovulação fisiológica é a causa mais comum de SUA nos primeiros anos após a menarca, devido à imaturidade do eixo HHO — e, de fato, a menina está no primeiro ano pós-menarca. No entanto, essa alternativa ignora os dois dados que redirecionam o diagnóstico: as equimoses frequentes desde a infância e a história familiar de hemofilia no pai. A anovulação explica o sangramento uterino, mas não explica as equimoses — que são manifestação de distúrbio hemostático. Além disso, o perfil laboratorial descrito (elevação discreta de TSH e prolactina) não é o esperado na anovulação fisiológica, que cursa com níveis hormonais normais. A banca oferece essa alternativa para testar se o candidato reconhece que, apesar de a anovulação ser comum, a presença de sinais de discrasia sanguínea exige investigação de coagulopatia.
Gabarito: letra C — coagulopatia hereditária (hemofilia A) com TTPa prolongado e fator VIII reduzido.