Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — VUNESP 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
vu094088
Banca
VUNESP
Órgão
HIAE
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Pré-Requisito em Pediatria
Uma criança do sexo feminino, 4 anos, é levada ao pronto atendimento com história de febre há 48 horas, de até 38,8 °C. Nas últimas 12 horas, os pais referem alteração do comportamento, incluindo episódios de confusão mental, irritabilidade e sonolência progressiva. Durante a avaliação na sala de emergência, a paciente apresentou pico febril e crise convulsiva focal, com necessidade de midazolam e fenitoína intravenosos para controle de crise. Após estabilização, foram solicitados exames complementares. Considerando o quadro clínico descrito, assinale a alternativa que apresenta as hipóteses diagnósticas mais prováveis.
AMeningoencefalite e convulsão febril complexa.
BMeningite bacteriana e convulsão febril complexa.
CMeningoencefalite e crise convulsiva sintomática aguda.
DMeningite bacteriana e crise convulsiva sintomática aguda.
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GabaritoC — Meningoencefalite e crise convulsiva sintomática aguda.
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Crise convulsiva em criança com febre: meningoencefalite e crise sintomática aguda
Gabarito: letra C. O quadro — febre, alteração do comportamento (confusão, irritabilidade, sonolência), crise convulsiva focal e necessidade de midazolam e fenitoína — aponta para meningoencefalite como causa provável e para a crise como sintomática aguda, e não como convulsão febril complexa. A distinção central está no comprometimento do estado mental e na focalidade da crise, que afastam o diagnóstico de convulsão febril e reforçam a hipótese de doença do sistema nervoso central.
A convulsão febril é definida como uma crise que ocorre em criança entre 1 mês e 5 anos, durante doença febril, sem evidência de infecção do sistema nervoso central e sem história prévia de crises afebris. A crise febril simples é generalizada, breve (< 15 minutos) e não recorre em 24 horas. A crise febril complexa é focal, prolongada (> 15 minutos) ou recorrente no mesmo episódio febril. No caso descrito, a criança apresenta alteração do comportamento e do nível de consciência — confusão mental, irritabilidade e sonolência progressiva — o que sugere comprometimento do parênquima cerebral, ou seja, encefalite ou meningoencefalite. A crise focal, nesse contexto, é uma crise sintomática aguda, secundária à agressão encefálica, e não uma convulsão febril, que por definição ocorre em criança neurologicamente normal e sem doença aguda do SNC.
A meningoencefalite é a inflamação simultânea das meninges e do encéfalo, geralmente de causa infecciosa (viral, bacteriana ou fúngica). O quadro típico inclui febre, cefaleia, rigidez de nuca, fotofobia e, nos casos mais graves, alteração do nível de consciência, crises convulsivas e déficits focais. A crise convulsiva que surge como consequência de uma lesão cerebral aguda — como infecção, trauma, tumor ou distúrbio metabólico — é denominada crise sintomática aguda (ou crise provocada aguda). Ela se distingue da convulsão febril porque há uma causa estrutural ou metabólica identificável, e não apenas a febre como gatilho.
A distinção entre convulsão febril complexa e crise sintomática aguda é sutil, mas crucial. A convulsão febril complexa, embora possa ser focal e prolongada, ocorre em criança sem doença neurológica aguda — a febre é o único gatilho. Já a crise sintomática aguda ocorre em contexto de lesão cerebral ativa, como a meningoencefalite. No caso, a presença de alteração do comportamento e do nível de consciência antes da crise é o dado que aponta para a segunda hipótese. A banca explora exatamente essa fronteira: o aluno que identifica apenas a focalidade da crise pode marcar convulsão febril complexa, mas o comprometimento do estado mental é o diferencial.
A conduta imediata em uma crise convulsiva prolongada ou recorrente inclui a estabilização das vias aéreas, oxigenação e uso de benzodiazepínicos (midazolam) como primeira linha, seguidos de fenitoína ou fenobarbital se a crise persistir. Após a estabilização, a investigação etiológica é essencial: hemograma, glicemia, eletrólitos, hemoculturas, punção lombar para análise do líquido cefalorraquidiano e neuroimagem (tomografia ou ressonância) são fundamentais para confirmar a meningoencefalite e excluir outras causas. O tratamento empírico com antibióticos e aciclovir deve ser iniciado precocemente, antes mesmo da confirmação laboratorial, dada a gravidade do quadro.
Guarde a fronteira que decide esta questão: convulsão febril = febre + crise em criança neurologicamente normal; crise sintomática aguda = crise + lesão cerebral ativa (como meningoencefalite). É exatamente nessa distinção que as alternativas se dividem.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa associa meningoencefalite com convulsão febril complexa. O erro está na segunda parte: se há meningoencefalite, a crise não pode ser classificada como convulsão febril, pois esta exige ausência de doença aguda do SNC. A crise, nesse contexto, é sintomática aguda.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa associa meningite bacteriana com convulsão febril complexa. O erro é duplo: primeiro, o quadro de alteração do comportamento e do nível de consciência sugere comprometimento do parênquima cerebral (encefalite), não apenas das meninges; segundo, a crise não é febril complexa, mas sintomática aguda, por haver doença do SNC.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa associa meningoencefalite com crise convulsiva sintomática aguda. A alteração do comportamento e do nível de consciência indica encefalite, e a crise focal, nesse contexto, é uma crise sintomática aguda, secundária à lesão cerebral. É a combinação que melhor explica o quadro clínico.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa associa meningite bacteriana com crise convulsiva sintomática aguda. Embora a crise sintomática aguda esteja correta, a meningite bacteriana isolada não explica a alteração do comportamento e do nível de consciência, que sugere encefalite ou meningoencefalite. A meningite bacteriana pode cursar com rebaixamento do nível de consciência, mas a presença de confusão mental e irritabilidade progressiva, associada à crise focal, é mais sugestiva de comprometimento do parênquima cerebral.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre convulsão febril complexa e crise sintomática aguda. A crise focal pode levar o aluno a marcar convulsão febril complexa, mas a alteração do comportamento e do nível de consciência antes da crise é o dado que afasta essa hipótese e aponta para doença do SNC. Lembre-se: convulsão febril exige criança neurologicamente normal; crise sintomática aguda ocorre em contexto de lesão cerebral ativa.
PEGA ESSA DICA!
Na hora da prova, para diferenciar convulsão febril de crise sintomática aguda, pergunte-se: há evidência de doença aguda do SNC? Se sim (alteração do nível de consciência, déficit focal, sinais meníngeos), a crise é sintomática aguda. Se não, e a criança é neurologicamente normal, pode ser convulsão febril (simples ou complexa).