Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — VUNESP 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
vu094092
Banca
VUNESP
Órgão
HIAE
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Pré-Requisito em Pediatria
Lactente de 6 meses, irmão de criança com alergia alimentar grave a castanhas, encontra-se em fase de introdução alimentar. Considerando o risco aumentado para alergia alimentar, qual a orientação adequada, conforme as diretrizes atuais?
AMensurar as IgE específicas para os alimentos mais alergênicos (leite, ovo, peixes, amendoim e castanhas) antes da introdução.
BPostergar a introdução de alimentos potencialmente alergênicos para depois do primeiro ano de vida.
CIniciar qualquer alimento a partir deste momento, respeitando valor nutricional e cultura alimentar.
DEvitar castanhas e utilizar fórmula extensamente hidrolisada caso seja necessário complementar o leite materno.
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GabaritoC — Iniciar qualquer alimento a partir deste momento, respeitando valor nutricional e cultura alimentar.
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Alergia alimentar e introdução alimentar: o que as diretrizes atuais recomendam
Gabarito: letra C. As diretrizes atuais (Sociedade Brasileira de Pediatria, Academia Americana de Pediatria e órgãos internacionais) recomendam que todos os alimentos, inclusive os potencialmente alergênicos, sejam introduzidos a partir dos 6 meses, sem necessidade de postergar ou de realizar testes preditivos de rotina, mesmo em crianças com histórico familiar de alergia — desde que não haja alergia já diagnosticada na própria criança. A orientação é iniciar qualquer alimento respeitando valor nutricional e cultura alimentar, exatamente como afirma a alternativa C.
O tema central é a prevenção de alergia alimentar na introdução alimentar. Por décadas, acreditou-se que atrasar a oferta de alimentos alergênicos (amendoim, ovo, leite de vaca, peixe, castanhas) reduziria o risco de sensibilização. Essa visão foi completamente superada por evidências científicas robustas, incluindo estudos como o LEAP (Learning Early About Peanut Allergy), que demonstraram o contrário: a introdução precoce e regular desses alimentos, em pequenas quantidades, induz tolerância oral e diminui o risco de desenvolver alergia alimentar. O sistema imunológico do lactente, ao ser exposto de forma contínua e controlada ao antígeno alimentar via trato gastrointestinal, aprende a reconhecê-lo como inofensivo, em vez de montar uma resposta alérgica.
Na prática, a recomendação atual é clara: não há necessidade de adiar a introdução de alimentos alergênicos para depois do primeiro ano de vida. Alimentos como amendoim, ovo, peixe, trigo, soja e castanhas podem — e devem — ser oferecidos desde o início da alimentação complementar, por volta dos 6 meses, respeitando a maturidade fisiológica da criança (capacidade de sentar com apoio, sustentação da cabeça, coordenação olhos-mãos-boca e deglutição segura). A introdução deve ser feita de forma gradual, um alimento de cada vez, em pequenas quantidades, e mantida de forma regular na dieta. Para crianças com risco aumentado (como irmão com alergia alimentar grave), a conduta é a mesma: não há indicação de rastreamento com dosagem de IgE específica antes da introdução, nem de evitar os alimentos. A exceção é a criança que já apresenta alergia diagnosticada — nesse caso, o alimento específico deve ser evitado e o plano alimentar individualizado.
A pegadinha desta questão está em confundir "risco aumentado" com "necessidade de adiar ou testar". O candidato pode ser tentado a escolher a alternativa A (dosar IgE antes) ou a B (postergar), mas ambas contrariam frontalmente as diretrizes atuais. A alternativa D também erra ao sugerir evitar castanhas e usar fórmula extensamente hidrolisada profilaticamente — medidas que não são recomendadas como prevenção primária. A alternativa C é a única que reflete a ciência atual: iniciar qualquer alimento a partir dos 6 meses, respeitando valor nutricional e cultura alimentar.
Guarde este critério decisivo: risco aumentado ≠ alergia diagnosticada. Para prevenção primária, a regra é introduzir precocemente; para tratamento de alergia já estabelecida, a regra é evitar o alérgeno específico. É exatamente nessa fronteira que as alternativas se dividem.
Prevenção de alergia alimentar
1Risco aumentado (histórico familiar)
Introdução precoce (6 meses)
Todos os alimentos
Sem testes preditivos
Sem restrições profiláticas
2Alergia já diagnosticada
Evitar o alérgeno específico
Tratamento individualizado
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A dosagem de IgE específica para alimentos antes da introdução não é recomendada como estratégia de prevenção primária, mesmo em crianças com histórico familiar de alergia. A presença de IgE específica (sensibilização) não é sinônimo de alergia clínica — muitas crianças sensibilizadas toleram o alimento. Além disso, não há evidência de que o rastreamento prévio reduza o risco de desenvolver alergia. A conduta correta é a introdução precoce e regular, sem testes preditivos de rotina. A dosagem de IgE específica tem papel no diagnóstico de alergia já suspeitada, não na prevenção.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Postergar a introdução de alimentos potencialmente alergênicos para depois do primeiro ano de vida é exatamente o oposto do que as diretrizes atuais recomendam. Estudos demonstraram que a introdução precoce (a partir dos 6 meses) de alimentos como amendoim e ovo diminui o risco de alergia, enquanto o atraso pode aumentar o risco de sensibilização. A janela de tolerância oral é justamente na fase de introdução alimentar, e adiar perde essa oportunidade. Essa recomendação antiga foi abandonada por falta de evidência e por evidência contrária.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta é a orientação alinhada com as diretrizes atuais. A partir dos 6 meses, todos os alimentos podem ser oferecidos, inclusive os potencialmente alergênicos, respeitando o valor nutricional e a cultura alimentar da família. A introdução deve ser feita de forma gradual, com alimentos in natura ou minimamente processados, e mantida de forma regular. Mesmo em crianças com risco aumentado (irmão com alergia), a conduta é a mesma: não há necessidade de adiar, evitar ou testar previamente. A única exceção é a criança com alergia já diagnosticada, que deve evitar o alérgeno específico.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Evitar castanhas e usar fórmula extensamente hidrolisada como prevenção primária não é recomendado. A restrição de alimentos alergênicos na dieta da criança sem diagnóstico de alergia não previne o desenvolvimento de alergia e pode, inclusive, aumentar o risco. A fórmula extensamente hidrolisada é indicada para o tratamento de alergia à proteína do leite de vaca já diagnosticada, não como medida profilática em crianças sem alergia. Além disso, o aleitamento materno deve ser mantido e encorajado, e a introdução de castanhas pode ser feita normalmente, respeitando a consistência adequada para a idade.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre prevenção primária (evitar que a alergia apareça) e tratamento (lidar com alergia já diagnosticada). Nas alternativas A, B e D, ela oferece condutas que parecem "cautelosas" para uma criança de risco, mas que são justamente as práticas abandonadas pela ciência. A pegadinha é: risco aumentado não muda a recomendação de introdução precoce. Memorize: prevenção = introduzir cedo; alergia diagnosticada = evitar o alérgeno. Com esse par na cabeça, você elimina as três distratoras na hora.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de alergia alimentar na introdução alimentar, decore o tripé da conduta atual: (1) introduzir todos os alimentos a partir dos 6 meses, (2) sem testes preditivos de rotina, (3) sem restrições profiláticas (nem dieta materna, nem fórmulas especiais, nem adiamento). Se a alternativa trouxer qualquer uma dessas três "medidas de proteção" como prevenção, ela está errada. A única exceção que a banca pode cobrar é a criança com alergia já diagnosticada — aí sim, evita-se o alérgeno específico.