Questão de Medicina — Endocrinologia — VUNESP 2025
Medicina›Endocrinologia
Código
vu095646
Banca
VUNESP
Órgão
Prefeitura de Campinas - SP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico - Endocrinologia
Mulher, 25 anos, comparece ao pronto-socorro referindo agitação, palpitações, tremores e calor intenso. Ao exame físico, apresenta FC: 120 bpm, fibrilação atrial, T: 38 ºC, tiroide difusamente aumentada (4 vezes o volume normal), tremores intensos nas mãos e exoftalmia bilateral.Assinale a alternativa correta com relação a esse caso.
AA paciente deve ser encaminhada urgentemente para cirurgia antes da administração de qualquer medicação para controle da tirotoxicose.
BAntes de se administrar qualquer medicação, deve-se solicitar e aguardar os resultados dos níveis séricos dos hormônios tiroidianos para a confirmação do provável quadro clínico de tirotoxicose grave.
CCaso se opte por usar lugol, ele deve ser administrado antes da administração do antitiroidiano.
DO uso de hidrocortisona está formalmente contraindicado.
EO betabloqueio com propranolol está indicado pela redução na conversão de T4 a T3 induzida por essa medicação.
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GabaritoE — O betabloqueio com propranolol está indicado pela redução na conversão de T4 a T3 induzida por essa medicação.
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Tempestade tireoidiana: manejo emergencial
Gabarito: letra E. O betabloqueio com propranolol está indicado na tempestade tireoidiana não apenas pelo controle adrenérgico (taquicardia, agitação, tremor), mas também porque o propranolol, em altas doses, reduz a conversão periférica de T4 em T3 — mecanismo que a alternativa E corretamente descreve. O quadro clínico (fibrilação atrial, febre, bócio difuso, exoftalmia) configura emergência tireoidiana, cujo manejo exige tratamento imediato e combinado, sem aguardar confirmação laboratorial.
A tempestade tireoidiana (ou crise tireotóxica) é a forma mais grave de tireotoxicose, uma emergência endocrinológica com mortalidade significativa se não tratada precocemente. O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado em sinais de disfunção orgânica: febre, taquicardia ou fibrilação atrial, agitação, tremores, vômitos, diarreia e, nos casos graves, delirium ou coma. O tratamento deve ser iniciado imediatamente, em ambiente de terapia intensiva, com medidas que atuam em quatro frentes: (1) inibição da síntese hormonal com tionamidas (propiltiouracil ou metimazol); (2) bloqueio da liberação hormonal com iodo (lugol ou iodeto de potássio), que só deve ser administrado após o bloqueio da síntese; (3) bloqueio adrenérgico com betabloqueador (propranolol); e (4) corticoterapia (hidrocortisona ou dexametasona) para inibir a conversão periférica de T4 em T3 e prevenir insuficiência adrenal relativa. O propranolol é o betabloqueador de escolha justamente por sua ação adicional de inibir a 5'-desiodinase, reduzindo a conversão de T4 em T3 — efeito que não é compartilhado por betabloqueadores cardioseletivos como o atenolol. Essa é a base farmacológica da alternativa E.
A sequência correta do manejo medicamentoso é crucial: primeiro a tionamida (para bloquear a síntese), e só depois o iodo (para bloquear a liberação). Se o iodo for administrado antes, ele será incorporado à glândula e servirá de substrato para ainda mais síntese hormonal, piorando o quadro. A cirurgia (tireoidectomia) está reservada para casos refratários ou contraindicações ao tratamento clínico, e nunca deve ser realizada antes da estabilização clínica com medicações. A hidrocortisona, ao contrário do que afirma a alternativa D, é formalmente indicada, não contraindicada. E, embora a dosagem de hormônios tireoidianos (TSH, T4 livre, T3) seja útil para confirmar o diagnóstico, o tratamento não pode aguardar esses resultados — a demora pode ser fatal.
A pegadinha central desta questão é a inversão da sequência terapêutica e a confusão entre o papel de cada medicação. O candidato que sabe que o iodo é usado na crise, mas não lembra que ele deve vir DEPOIS da tionamida, cai na alternativa C. Quem sabe que o propranolol controla os sintomas adrenérgicos, mas não conhece o mecanismo adicional de inibição da conversão T4→T3, pode hesitar na E. A banca explora exatamente essas lacunas de raciocínio farmacológico.
Guarde a lógica do manejo: estabilizar o paciente (betabloqueio + corticoides) enquanto se bloqueia a produção (tionamida) e depois a liberação (iodo) — é essa sequência que as alternativas tentam confundir.
1Betabloqueio (propranolol)
2Tionamida (bloqueia síntese)
3Iodo/lugol (bloqueia liberação)
4Corticoide (T4→T3)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A cirurgia de urgência está contraindicada na fase aguda da tempestade tireoidiana. O paciente deve ser estabilizado clinicamente antes de qualquer procedimento cirúrgico, pois a manipulação da glândula hiperativa pode liberar ainda mais hormônios e agravar a crise. A tireoidectomia só é considerada após o controle do quadro tireotóxico, geralmente como tratamento definitivo da causa de base (ex.: doença de Graves refratária).
Alternativa B — ❌ Incorreta
Aguardar os resultados dos hormônios tireoidianos para iniciar o tratamento é conduta inadequada e perigosa. A tempestade tireoidiana é uma emergência clínica com risco de vida; o diagnóstico é clínico e o tratamento deve ser iniciado imediatamente, em paralelo à coleta dos exames. Os níveis hormonais podem até não estar tão elevados quanto o esperado, mas o quadro clínico manda tratar.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O lugol (iodo) deve ser administrado DEPOIS do antitiroidiano (tionamida), nunca antes. A lógica é: primeiro bloqueia-se a síntese de novos hormônios com a tionamida; só então o iodo é dado para bloquear a liberação dos hormônios já armazenados. Se o iodo vier antes, ele será captado pela glândula e usado como substrato para ainda mais síntese, piorando a tireotoxicose.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A hidrocortisona é formalmente INDICADA, não contraindicada, na tempestade tireoidiana. Ela atua inibindo a conversão periférica de T4 em T3 e prevenindo insuficiência adrenal relativa, que pode ocorrer pelo hipermetabolismo. A corticoterapia faz parte do arsenal terapêutico padrão da crise tireotóxica.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O propranolol é o betabloqueador de escolha na tempestade tireoidiana por dois mecanismos: (1) bloqueio adrenérgico, controlando taquicardia, agitação e tremor; e (2) inibição da 5'-desiodinase, reduzindo a conversão periférica de T4 em T3 — o hormônio mais ativo. Essa dupla ação é exclusiva do propranolol entre os betabloqueadores e é exatamente o que a alternativa descreve.
NÃO CAIA NESSA!
A banca inverte a sequência do manejo (iodo antes da tionamida) e troca o papel da hidrocortisona (apresenta como contraindicada o que é indicada). A alternativa E exige conhecer o mecanismo farmacológico adicional do propranolol — não basta saber que ele controla os sintomas adrenérgicos; é preciso lembrar da inibição da conversão T4→T3.
PEGA ESSA DICA!
Para fixar a sequência do manejo da tempestade tireoidiana, use o mnemônico "Bloqueio Adrenérgico, Bloqueio Sintético, Bloqueio Liberação, Corticoide" — ou simplesmente lembre: "primeiro impede a produção, depois impede a liberação". E associe propranolol à conversão T4→T3: é o único betabloqueador com esse efeito adicional.