Questão de Medicina — Gastroenterologia — VUNESP 2025
Medicina›Gastroenterologia
Código
vu095713
Banca
VUNESP
Órgão
Prefeitura de Campinas - SP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico - Gastroenterologia
As hepatites fulminantes são situações clínicas extremas e seu reconhecimento precoce e diagnóstico são imprescindíveis para o bom resultado do transplante de fígado. Segundo a legislação brasileira, são imperativos para o diagnóstico da hepatite fulminante:
AINR > 3,5, idade < 10 e > 40 anos, bilirrubina > 17,5 mg/dl.
BpH arterial < 7,3.
Cdosagem de fator V < 30%.
Dsorologias de vírus hepatotrópicos compatíveis com o diagnóstico e a história.
Eencefalopatia hepática em até 8 semanas após o surgimento da icterícia em paciente sem história prévia de doença hepática, excetuando-se os portadores de doença de Wilson, hepatite B e hepatite autoimune.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoE — encefalopatia hepática em até 8 semanas após o surgimento da icterícia em paciente sem história prévia de doença hepática, excetuando-se os portadores de doença de Wilson, hepatite B e hepatite autoimune.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Hepatite fulminante: critérios diagnósticos
Gabarito: letra E. O diagnóstico de hepatite fulminante exige, como critério central e indispensável, o surgimento de encefalopatia hepática em até 8 semanas após o início da icterícia, em paciente sem doença hepática prévia — com as exceções expressas da doença de Wilson, hepatite B e hepatite autoimune. As demais alternativas trazem parâmetros que são marcadores de gravidade ou exames complementares, mas não constituem, isoladamente, critérios diagnósticos da síndrome.
A hepatite fulminante — também chamada de insuficiência hepática aguda grave — é a perda maciça e rápida da função hepática em um paciente sem doença hepática crônica prévia. O conceito é clínico e se ancora em três pilares: (1) encefalopatia hepática (alteração do nível de consciência por falência da detoxificação hepática, com acúmulo de amônia e outras toxinas), (2) disfunção hepática aguda (icterícia, coagulopatia, elevação de transaminases) e (3) ausência de hepatopatia crônica preexistente. O que distingue a forma "fulminante" das demais apresentações de insuficiência hepática aguda é exatamente o intervalo curto entre a icterícia e o aparecimento da encefalopatia — em até 8 semanas. Esse marco temporal é o que define a síndrome e orienta a urgência do transplante hepático, pois a chance de recuperação espontânea é baixa e o tempo é crítico.
A razão de ser do critério temporal é fisiológica: na hepatite fulminante, a necrose hepatocelular é tão extensa e rápida que o fígado não tem tempo de regenerar antes que a encefalopatia se instale. Já na insuficiência hepática crônica agudizada (ACLF), o paciente tem cirrose de base e a encefalopatia pode surgir por outros gatilhos (sangramento, infecção, sepse), sem o mesmo significado prognóstico. Por isso, a exclusão de doença hepática prévia é parte do critério — e as exceções (doença de Wilson, hepatite B e hepatite autoimune) existem porque, nesses casos, a doença pode ser silenciosa e só se manifestar de forma aguda e fulminante, mesmo sem diagnóstico prévio de cirrose.
Na prática clínica, o paciente típico chega com icterícia progressiva, náuseas, vômitos e, em dias, evolui com confusão mental, sonolência ou coma. Os exames mostram INR elevado (coagulopatia), transaminases muito altas (AST/ALT > 1.000), bilirrubina elevada e, nos casos graves, acidose metabólica e hipoglicemia. O fator V é um marcador de síntese hepática útil porque, diferentemente dos fatores dependentes de vitamina K, não é influenciado por colestase ou deficiência nutricional — mas sua dosagem isolada não define o diagnóstico. O pH arterial < 7,3 e o INR > 3,5 são critérios de gravidade e de indicação de transplante (critérios de Clichy e King's College), não critérios diagnósticos. As sorologias ajudam a identificar a etiologia, mas não são imperativas para o diagnóstico da síndrome — a hepatite fulminante pode ser criptogênica (sem causa identificada).
A pegadinha central desta questão é a confusão entre critério diagnóstico e critério de gravidade/prognóstico. A banca oferece parâmetros que são reais e importantes na avaliação do paciente com hepatite fulminante — INR, pH, fator V, sorologias — mas que não respondem à pergunta "o que é imperativo para o diagnóstico?". O diagnóstico é essencialmente clínico e temporal: encefalopatia + icterícia em até 8 semanas + ausência de doença hepática prévia. Guarde essa tríade: é ela que separa a alternativa correta das demais.
Alternativa A — ❌ Incorreta
O INR > 3,5 é um critério de gravidade e de indicação de transplante (presente nos critérios de King's College para hepatite fulminante por paracetamol e outras causas), não um critério diagnóstico. A idade < 10 e > 40 anos é um fator de pior prognóstico (idade extrema), e a bilirrubina > 17,5 mg/dl é um marcador de colestase/icterícia intensa — nenhum desses valores define a síndrome. A alternativa mistura parâmetros prognósticos com a falsa ideia de que seriam diagnósticos.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O pH arterial < 7,3 (acidose metabólica) é um critério de gravidade — presente nos critérios de King's College como indicador de mau prognóstico e de necessidade de transplante — mas não é um critério diagnóstico de hepatite fulminante. A acidose pode estar ausente em muitos pacientes com a síndrome, especialmente nos estágios iniciais.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A dosagem de fator V < 30% é um marcador de síntese hepática e de gravidade (usado nos critérios de Clichy), mas não é um critério diagnóstico isolado. O fator V é útil para avaliar a função de síntese do fígado — e tem a vantagem de não depender de vitamina K — porém, sozinho, não define a hepatite fulminante. A alternativa confunde um exame prognóstico com um critério diagnóstico.
Alternativa D — ❌ Incorreta
As sorologias de vírus hepatotrópicos são importantes para identificar a etiologia da hepatite (A, B, C, E, EBV, CMV, HSV etc.), mas não são imperativas para o diagnóstico da síndrome. A hepatite fulminante pode ser criptogênica (sem causa identificada em até 20% dos casos) ou causada por drogas/toxinas (como paracetamol), sem sorologia positiva. A alternativa troca o diagnóstico etiológico pelo diagnóstico sindrômico.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta é a definição clássica e correta de hepatite fulminante: encefalopatia hepática em até 8 semanas após o início da icterícia, em paciente sem doença hepática prévia. As exceções citadas — doença de Wilson, hepatite B e hepatite autoimune — são precisas: nesses casos, a doença hepática pode ser silenciosa e se manifestar de forma aguda, sem diagnóstico prévio de cirrose, mas ainda assim o quadro é considerado hepatite fulminante. A alternativa espelha exatamente o critério diagnóstico consagrado na literatura e na prática clínica.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre critério diagnóstico e critério de gravidade/prognóstico. INR > 3,5, pH < 7,3 e fator V < 30% são parâmetros reais e importantes — mas servem para avaliar a gravidade e indicar transplante, não para fechar o diagnóstico. O diagnóstico é clínico e temporal: encefalopatia + icterícia em até 8 semanas + ausência de hepatopatia prévia. Na prova, quando a pergunta for "critério diagnóstico", procure o elemento que define a síndrome — não o que mede sua gravidade.
PEGA ESSA DICA!
Para fixar, monte o esquema mental: Diagnóstico = encefalopatia + tempo (≤ 8 semanas) + sem doença prévia. Gravidade/Transplante = INR, pH, fator V, idade extrema, bilirrubina. Quando a questão perguntar "diagnóstico", pense na tríade clínica; quando perguntar "prognóstico/transplante", pense nos marcadores laboratoriais. Essa distinção resolve a maioria das questões sobre hepatite fulminante.