Uma paciente de 95 anos tem o diagnóstico de demência em decorrência da doença de Alzheimer. A aplicação da Funcional Assessment Staging (FAST) mostrou desempenho 7A. A paciente utiliza diversos medicamentos, entre eles, 40 mg/d de atorvastatina.Assinale a alternativa correta quanto à manutenção ou suspensão desse medicamento.
AIndependentemente de sua idade e condição clínica, ainda há benefício para prevenção primária.
BMesmo nessa idade, a prescrição de uma estatina de alta potência traz benefício na diminuição da progressão da demência.
CDeve-se pesar os riscos e benefícios de sua prescrição a uma idosa em fase avançada de doença.
DMesmo que fosse para a prevenção secundária, ela deve ser suspensa devido à baixa expectativa de vida.
ENão há benefício na prescrição de atorvastatina para evolução da demência, independentemente da idade.
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GabaritoC — Deve-se pesar os riscos e benefícios de sua prescrição a uma idosa em fase avançada de doença.
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Estatinas em idosos com demência avançada: individualização da prescrição
Gabarito: letra C. Em uma paciente de 95 anos com doença de Alzheimer em fase avançada (FAST 7A), a decisão sobre manter ou suspender a atorvastatina deve ser individualizada, ponderando riscos e benefícios — não há regra absoluta de suspensão ou manutenção baseada apenas na idade ou no diagnóstico de demência. A alternativa C reflete exatamente esse princípio de medicina geriátrica centrada no paciente.
A questão aborda um dos temas mais desafiadores da geriatria: a desprescrição (deprescribing) em idosos frágeis e com demência avançada. A FAST (Functional Assessment Staging) é uma escala que avalia a progressão funcional da demência, variando de 1 (sem declínio) a 7 (demência muito grave). O estágio 7A indica que a paciente já se encontra em fase avançada, com comprometimento significativo da fala e necessidade de assistência para atividades básicas. Nesse contexto, a expectativa de vida é limitada, e o foco do cuidado deve migrar para a qualidade de vida, conforto e controle de sintomas.
As estatinas (atorvastatina, sinvastatina, rosuvastatina, etc.) são medicamentos amplamente utilizados para redução do colesterol LDL e prevenção de eventos cardiovasculares. No entanto, seu benefício em idosos muito avançados (especialmente acima de 85-90 anos) e em pacientes com demência grave é incerto. Estudos mostram que o benefício absoluto da estatina na prevenção primária diminui com a idade e com a redução da expectativa de vida, enquanto os riscos (miopatia, hepatotoxicidade, interações medicamentosas) permanecem. Na prevenção secundária, o benefício também se reduz em idosos com múltiplas comorbidades e fragilidade, mas não desaparece completamente — a decisão deve ser individualizada.
A desprescrição é um processo estruturado de revisão e retirada de medicamentos que não trazem mais benefício ou que podem causar dano, especialmente em pacientes com doença avançada. Diretrizes de geriatria recomendam que, em idosos com demência avançada e expectativa de vida limitada, medicamentos preventivos de longo prazo (como estatinas para prevenção primária) sejam reconsiderados, priorizando medicamentos que melhorem sintomas e qualidade de vida. No entanto, a suspensão não é automática: deve-se avaliar o contexto individual, incluindo o risco cardiovascular, a tolerância ao medicamento e as preferências do paciente e da família.
A pegadinha da banca está em apresentar alternativas absolutas ("sempre", "nunca", "independentemente") que ignoram a necessidade de individualização. A alternativa C é a única que reconhece a complexidade da decisão, ponderando riscos e benefícios — o princípio central da medicina geriátrica e da desprescrição.
Estatinas em idoso com demência avançada: Decisão individualizada (Ponderar riscos e benefícios, Considerar expectativa de vida, Considerar fragilidade, Considerar preferências do paciente/família); Prevenção primária (Benefício incerto em idoso muito avançado, Suspensão pode ser considerada); Prevenção secundária (Benefício reduzido, mas não desaparece, Decisão individualizada); Desprescrição (Processo estruturado de revisão, Prioriza qualidade de vida, Não é automática)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que "independentemente de sua idade e condição clínica, ainda há benefício para prevenção primária". Isso é falso: o benefício da estatina na prevenção primária é incerto em idosos muito avançados e com demência grave, e a decisão deve considerar a expectativa de vida e a fragilidade. A palavra "independentemente" torna a afirmação absoluta e incorreta, pois ignora a necessidade de individualização.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que "mesmo nessa idade, a prescrição de uma estatina de alta potência traz benefício na diminuição da progressão da demência". Não há evidência de que estatinas diminuam a progressão da demência de Alzheimer. O benefício das estatinas é cardiovascular, não cognitivo. Além disso, a atorvastatina 40 mg é considerada de potência moderada, não alta. A afirmação confunde o benefício cardiovascular com um suposto benefício cognitivo inexistente.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Afirma que "deve-se pesar os riscos e benefícios de sua prescrição a uma idosa em fase avançada de doença". Esta é a conduta correta: a decisão de manter ou suspender a atorvastatina deve ser individualizada, considerando o estágio avançado da demência (FAST 7A), a expectativa de vida limitada, o risco cardiovascular e a qualidade de vida. A desprescrição é recomendada quando os riscos superam os benefícios, mas a decisão deve ser compartilhada com o paciente (quando possível) e a família.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que "mesmo que fosse para a prevenção secundária, ela deve ser suspensa devido à baixa expectativa de vida". Isso é uma generalização incorreta: na prevenção secundária, o benefício da estatina pode ser maior, e a suspensão não é obrigatória apenas pela baixa expectativa de vida. A decisão deve ser individualizada, considerando o risco de eventos cardiovasculares recorrentes e a tolerância ao medicamento. A palavra "deve" torna a afirmação absoluta e incorreta.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que "não há benefício na prescrição de atorvastatina para evolução da demência, independentemente da idade". Embora seja verdade que a atorvastatina não tem benefício comprovado na evolução da demência, a afirmação é incorreta porque ignora o benefício cardiovascular potencial do medicamento, que pode ser relevante em alguns pacientes, mesmo com demência. A decisão deve considerar o contexto individual, não apenas a ausência de benefício cognitivo.
Gabarito: letra C — a única alternativa que reconhece a necessidade de individualizar a decisão, ponderando riscos e benefícios, em vez de adotar uma postura absoluta.