Overuse (sobreutilização) em Geriatria
Gabarito: letra D. O overuse caracteriza-se pela indicação inapropriada ou uso desnecessário de recursos diagnósticos ou terapêuticos, e a realização de ultrassom e doppler de carótidas em idosos assintomáticos é um exemplo clássico dessa condição, pois não há benefício comprovado no rastreamento de estenose carotídea assintomática nessa população. As demais alternativas representam práticas de rastreamento e prevenção recomendadas para idosos, portanto não configuram sobreutilização.
O conceito de overuse (ou sobreutilização) é central na medicina baseada em evidências e na segurança do paciente. Ele se refere à aplicação de intervenções (exames, procedimentos, medicamentos) sem indicação clínica apropriada, ou seja, quando os riscos e custos superam os potenciais benefícios. No contexto da geriatria, esse conceito é particularmente relevante, pois os idosos são mais vulneráveis a danos iatrogênicos, como complicações de procedimentos desnecessários, efeitos adversos de medicamentos e aumento dos custos de saúde. A sobreutilização pode ocorrer em diversas situações, como na solicitação de exames de imagem sem sintomas ou sinais de alerta, na prescrição de medicamentos sem evidência de benefício, ou na realização de procedimentos invasivos sem indicação precisa.
A alternativa D exemplifica perfeitamente o overuse: a realização de ultrassom e doppler de carótidas em idosos assintomáticos. O rastreamento de estenose carotídea em pacientes sem sintomas (como AIT ou AVC prévio) ou sem sopro carotídeo não é recomendado pelas principais diretrizes, pois não há evidência de que essa prática reduza a incidência de AVC ou melhore a sobrevida. Além disso, o exame pode levar a achados incidentais que geram ansiedade, procedimentos adicionais desnecessários (como angiografias ou cirurgias) e aumento de custos. Portanto, essa é uma conduta claramente caracterizada como sobreutilização.
As demais alternativas representam práticas de prevenção e rastreamento recomendadas para idosos, conforme diretrizes de saúde pública e geriatria. O rastreio de hipertensão arterial (A) é fundamental para o diagnóstico precoce e tratamento, reduzindo eventos cardiovasculares. A avaliação do risco de quedas (B) é uma recomendação universal para idosos, pois quedas são uma das principais causas de morbimortalidade nessa população. O rastreio de intolerância à glicose e diabetes mellitus (C) também é recomendado, pois o diagnóstico precoce permite intervenções que previnem complicações. A prescrição de estatina para prevenção primária (E) é indicada em idosos com risco cardiovascular elevado, conforme avaliação individualizada, e não configura sobreutilização quando baseada em evidências.
A pegadinha desta questão está em distinguir rastreamento/prevenção recomendada de sobreutilização. O candidato pode ser tentado a marcar a alternativa E (estatina), pensando que a prevenção primária em idosos é sempre inadequada, mas isso não é verdade: a decisão deve ser individualizada, considerando risco cardiovascular, expectativa de vida e preferências do paciente. Já a alternativa D é inequívoca, pois o rastreamento de carótidas em assintomáticos é explicitamente desaconselhado. Guarde essa distinção: rastreamento recomendado ≠ sobreutilização; a sobreutilização ocorre quando a intervenção não tem benefício comprovado e pode causar dano.
Alternativa A — ❌ Incorreta
O rastreio de hipertensão arterial é uma prática recomendada em idosos, pois a hipertensão é um fator de risco major para doenças cardiovasculares, e o diagnóstico precoce permite tratamento que reduz morbimortalidade. Não configura overuse, mas sim prevenção primária adequada.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A avaliação do risco de quedas é uma recomendação universal na avaliação geriátrica, pois quedas são uma síndrome geriátrica comum e prevenível. Essa avaliação é parte do cuidado de qualidade ao idoso, não sendo considerada sobreutilização.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O rastreio de intolerância à glicose e diabetes mellitus é recomendado em idosos, pois o diabetes é prevalente e o diagnóstico precoce permite intervenções que previnem complicações micro e macrovasculares. É uma prática de prevenção, não de sobreutilização.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A realização de ultrassom e doppler de carótidas em idosos assintomáticos é um exemplo clássico de overuse. Não há evidência de benefício no rastreamento de estenose carotídea assintomática, e o exame pode levar a achados incidentais, procedimentos desnecessários e aumento de custos, sem redução de eventos cerebrovasculares. Essa prática é explicitamente desaconselhada pelas diretrizes.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A prescrição de estatina para prevenção primária pode ser indicada em idosos com risco cardiovascular elevado, conforme avaliação individualizada. Não é, por si só, sobreutilização; a decisão deve considerar benefícios, riscos e expectativa de vida. A alternativa D é a única que representa claramente uma intervenção desnecessária.
Gabarito: letra D