Assinale a alternativa que descreve corretamente os fatores que influenciam o perfil de morbidade e mortalidade na população brasileira, considerando as variáveis epidemiológicas, sociais e de acesso ao sistema de saúde.
AA presença de doenças transmissíveis, como tuberculose e hanseníase, tem mostrado uma tendência a aumentar nas capitais, particularmente em áreas de maior concentração de migrantes, sem relação com o contexto socioeconômico.
BO aumento na prevalência de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), como diabetes e hipertensão, tem ocorrido de forma uniforme em todas as regiões do Brasil, sem considerar os aspectos socioeconômicos.
CO envelhecimento populacional tem sido um fator de baixa relevância para o aumento da mortalidade no Brasil, já que a taxa de mortalidade infantil ainda continua sendo o principal indicador de saúde pública.
DDesigualdades regionais no acesso a cuidados de saúde e a escassez de políticas públicas específicas para as populações vulneráveis explicam em grande parte a concentração da mortalidade por DCNTs nas classes mais baixas da sociedade.
EDoenças respiratórias crônicas, como asma e DPOC, têm maior prevalência em idosos das áreas rurais, devido à maior exposição a fatores ambientais e ao menor acesso à saúde preventiva.
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GabaritoD — Desigualdades regionais no acesso a cuidados de saúde e a escassez de políticas públicas específicas para as populações vulneráveis explicam em grande parte a concentração da mortalidade por DCNTs nas classes mais baixas da sociedade.
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Perfil de morbimortalidade no Brasil: determinantes sociais e iniquidades
Gabarito: letra D. A alternativa correta reconhece que as desigualdades regionais no acesso à saúde e a escassez de políticas públicas específicas para populações vulneráveis explicam, em grande parte, a concentração da mortalidade por DCNTs nas classes mais baixas — exatamente o que a literatura epidemiológica e os dados do Global Burden of Disease (GBD) demonstram para o Brasil. As demais alternativas distorcem a relação entre fatores socioeconômicos e o perfil de saúde da população.
O perfil de morbimortalidade brasileiro passou por uma transição epidemiológica marcante: as doenças transmissíveis, maternas e infantis cederam lugar às doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) como principal causa de carga de doença. Em 2019, as DCNTs responderam por 76% dos óbitos e 84% da morbidade (YLDs) no país. Essa transição, porém, não ocorreu de forma homogênea — ela é profundamente moldada por determinantes sociais da saúde, como renda, escolaridade, moradia, ocupação e acesso a serviços. A dimensão continental do Brasil e suas iniquidades regionais fazem com que os indicadores agregados escondam realidades muito distintas entre regiões e classes sociais.
A relação entre pobreza e DCNTs é um dos achados mais consistentes da epidemiologia moderna. Embora historicamente associadas a países de alta renda, as DCNTs hoje atingem desproporcionalmente os países de baixa e média renda e, dentro deles, as populações mais vulneráveis. No Brasil, a mortalidade por DCNTs concentra-se nas classes mais baixas, não por acaso, mas porque essas populações enfrentam menor acesso a serviços de saúde preventivos e curativos, maior exposição a fatores de risco (tabagismo, alimentação inadequada, obesidade) e menor capacidade de manejo da doença crônica. A Estratégia Saúde da Família (ESF), implantada prioritariamente em áreas de menor IDH, é um exemplo de política que busca reduzir essas iniquidades — e os dados mostram que, em municípios com boa cobertura da ESF, a diferença de mortalidade infantil entre ricos e pobres cai drasticamente.
A pegadinha central desta questão é a tentativa de desvincular o perfil de saúde do contexto socioeconômico. As alternativas A, B e C apresentam afirmações que isolam fatores biológicos ou demográficos de seus determinantes sociais, como se tuberculose, DCNTs ou envelhecimento ocorressem à margem das condições de vida. A alternativa E, por sua vez, comete um erro factual ao atribuir maior prevalência de asma e DPOC a idosos rurais, quando a literatura aponta maior carga dessas doenças em áreas urbanas e industrializadas. A alternativa D é a única que integra corretamente os três eixos mencionados no enunciado: variáveis epidemiológicas (DCNTs), sociais (classes mais baixas) e de acesso ao sistema de saúde (desigualdades regionais e escassez de políticas públicas).
Guarde este critério para julgar as alternativas: o perfil de morbimortalidade brasileiro é determinado pela interação entre transição epidemiológica, envelhecimento populacional e iniquidades sociais — qualquer afirmação que negue ou minimize o papel dos fatores socioeconômicos está, por definição, incorreta.
Perfil de morbimortalidade no Brasil
1Transição epidemiológica
DCNTs: 76% dos óbitos (2019)
Doenças transmissíveis cedem lugar
2Determinantes sociais
Renda, escolaridade, moradia
Acesso a serviços de saúde
Iniquidades regionais
3DCNTs e pobreza
Concentração nas classes baixas
Menor acesso preventivo/curativo
Maior exposição a fatores de risco
4Políticas públicas
ESF prioriza áreas de menor IDH
Reduz iniquidades
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que tuberculose e hanseníase aumentam nas capitais "sem relação com o contexto socioeconômico". Isso contraria frontalmente a literatura: a transmissão e o adoecimento por tuberculose são influenciados por fatores demográficos, sociais e econômicos, como urbanização desordenada, desigualdade de renda, moradias precárias, superlotação, insegurança alimentar, baixa escolaridade e dificuldade de acesso aos serviços. A pobreza é um dos principais determinantes da TB — não um fator irrelevante.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Diz que o aumento da prevalência de DCNTs (diabetes, hipertensão) ocorre "de forma uniforme em todas as regiões, sem considerar os aspectos socioeconômicos". É o oposto da realidade: a carga de DCNTs é maior nos países de baixa e média renda e, no Brasil, concentra-se nas populações mais pobres e menos escolarizadas. A mortalidade por DCNTs é fortemente influenciada por fatores como renda, educação e acesso a serviços de saúde — não há uniformidade alguma.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Minimiza o envelhecimento populacional como fator de mortalidade e afirma que a mortalidade infantil "ainda continua sendo o principal indicador de saúde pública". O envelhecimento é um dos principais motores da transição epidemiológica — a mortalidade proporcional por DCNTs subiu de 49% para 76% entre 1980 e 2019, impulsionada justamente pelo envelhecimento. A mortalidade infantil, embora tenha caído drasticamente (de 146,6/1.000 em 1940 para 12,8/1.000 em 2018), não é mais o principal indicador de saúde pública — as DCNTs e causas externas dominam o perfil de mortalidade.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa está correta ao afirmar que desigualdades regionais no acesso a cuidados de saúde e a escassez de políticas públicas específicas para populações vulneráveis explicam, em grande parte, a concentração da mortalidade por DCNTs nas classes mais baixas. Isso é corroborado pelos dados: as DCNTs são a principal causa de carga de doença no Brasil, mas seu impacto é desproporcionalmente maior entre os mais pobres, que enfrentam barreiras de acesso, menor cobertura de serviços preventivos e maior exposição a fatores de risco. A Estratégia Saúde da Família, ao priorizar áreas de menor IDH, é um exemplo de política que busca reverter essa iniquidade.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que asma e DPOC têm maior prevalência em idosos de áreas rurais devido à exposição ambiental e menor acesso à saúde preventiva. Embora o acesso à saúde preventiva seja um fator relevante, a maior carga de doenças respiratórias crônicas está associada a áreas urbanas e industrializadas, onde há maior exposição à poluição atmosférica e a poluentes ocupacionais. A alternativa inverte a distribuição epidemiológica dessas doenças.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta fazer o candidato acreditar que fatores biológicos (doenças, envelhecimento) operam de forma independente do contexto social. A alternativa A nega a relação da tuberculose com a pobreza; a B afirma uniformidade das DCNTs; a C minimiza o envelhecimento; e a E inverte a distribuição urbano-rural das doenças respiratórias. A chave é lembrar que determinantes sociais da saúde — renda, escolaridade, moradia, acesso — são o pano de fundo de todo o perfil de morbimortalidade brasileiro. Com esse filtro, a alternativa D salta aos olhos como a única que integra corretamente os três eixos do enunciado.