Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — VUNESP 2025
Medicina›Clínica Médica Humana
Código
vu102409
Banca
VUNESP
Órgão
Prefeitura de Sorocaba - SP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico I - Clínico Geral
Homem, 40 anos de idade, assintomático, fez exames laboratoriais para avaliação da saúde. Apresenta sorologia para HIV positiva, confirmada por mais de um método.Assinale a alternativa correta sobre a terapia antirretroviral para esse paciente.
AIniciar apenas após realização de genotipagem.
BIniciar se CD4 < 350 céls/mm³ .
CIniciar se CD4 < 200 céls/mm³ .
DIniciar se CD4 < 100 céls/mm³ .
EIniciar independentemente de outros exames laboratoriais.
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GabaritoE — Iniciar independentemente de outros exames laboratoriais.
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Terapia antirretroviral (TARV) no HIV: indicação universal
Gabarito: letra E. A recomendação atual é iniciar a TARV para todas as pessoas vivendo com HIV, independentemente da contagem de CD4, carga viral ou presença de sintomas — o tratamento precoce reduz doenças oportunistas, complicações não infecciosas e a transmissão do vírus. Essa diretriz consta do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde para manejo da infecção pelo HIV em adultos.
A terapia antirretroviral (TARV) é o tratamento medicamentoso da infecção pelo HIV, composto por uma combinação de medicamentos que suprimem a replicação viral, permitindo a recuperação imunológica e prevenindo a progressão para a aids. Historicamente, o início do tratamento era condicionado a contagens de CD4 abaixo de determinados limiares, refletindo o grau de imunossupressão. Contudo, essa lógica mudou radicalmente.
A recomendação atual, baseada em fortes evidências científicas, é a de que toda pessoa com diagnóstico de HIV deve iniciar a TARV o quanto antes, independentemente da contagem de CD4 ou da presença de sintomas. Essa mudança de paradigma decorre de dois benefícios principais: o benefício individual, com a redução da morbimortalidade associada à infecção (menos doenças oportunistas e complicações não infecciosas), e o benefício coletivo, pois o tratamento suprime a carga viral, tornando a pessoa não transmissora do vírus (conceito de "tratamento como prevenção" ou Indetectável = Intransmissível).
Na prática, o fluxo é: confirmado o diagnóstico, o paciente é avaliado clinicamente e são solicitados exames complementares (carga viral, CD4, genotipagem em situações específicas, hemograma, função hepática e renal, rastreio de coinfecções). Nenhum desses exames é pré-requisito para o início da TARV — eles servem para orientar a escolha do esquema, monitorar a resposta e identificar comorbidades, mas o tratamento deve começar imediatamente, sem aguardar resultados. A genotipagem pré-tratamento, por exemplo, é indicada em situações específicas (gestantes, coinfecção TB/HIV, crianças, uso prévio de PrEP, parceria em uso de TARV), mas não é obrigatória para todos e, mesmo quando indicada, não se deve postergar o início da TARV até seu resultado.
A pegadinha central desta questão é a desatualização do conhecimento: as alternativas A a D refletem condutas de eras passadas, em que o início da TARV dependia de contagens de CD4 ou da genotipagem. O candidato que não atualizou o conhecimento pode marcar uma dessas alternativas, mas a diretriz vigente é clara: tratar todos, sem exceção, o mais precocemente possível. Guarde este princípio: o CD4 não é mais critério para iniciar TARV; ele é usado para avaliar o grau de imunossupressão, indicar profilaxias e monitorar a evolução.
1Diagnóstico confirmado
2Avaliação clínica
3Solicitar exames complementares
4Iniciar TARV imediatamente
5Exames orientam esquema e monitoramento
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a TARV deve ser iniciada apenas após a realização de genotipagem. A genotipagem pré-tratamento é um exame que identifica mutações de resistência do vírus aos antirretrovirais, sendo útil para orientar a escolha do esquema inicial. Contudo, ela é indicada apenas em situações específicas (gestantes, coinfecção TB/HIV, crianças e adolescentes, pessoas com soroconversão durante uso de PrEP, parceria em uso de TARV) e, mesmo nesses casos, não se deve aguardar seu resultado para iniciar o tratamento. O atraso no início da TARV expõe o paciente a riscos desnecessários de progressão da doença.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Condiciona o início da TARV a CD4 < 350 céls/mm³. Esse limiar era utilizado em diretrizes antigas, mas foi superado. A recomendação atual é tratar todas as pessoas com HIV, independentemente da contagem de CD4. O valor de 350 céls/mm³ ainda é relevante na prática clínica, mas como referência para monitoramento (por exemplo, a periodicidade de solicitação do CD4 em pessoas em uso de TARV assintomáticas com carga viral indetectável é semestral se CD4 < 350, anual se entre 350 e 500, e não é mais necessário se > 500 em dois exames consecutivos) e para indicação de profilaxias, não como critério para iniciar tratamento.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Condiciona o início da TARV a CD4 < 200 céls/mm³. Este é um limiar ainda mais antigo e restritivo. O valor de 200 céls/mm³ é um marco importante na história natural da doença, pois abaixo dele o risco de infecções oportunistas graves (como pneumocistose e toxoplasmose) aumenta significativamente, indicando imunossupressão grave. Por isso, é utilizado para indicar profilaxias primárias (por exemplo, para Pneumocystis jirovecii e Toxoplasma gondii) e para definir a urgência do início da TARV, mas não é mais um critério para decidir se o paciente deve ou não receber tratamento — todos devem receber.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Condiciona o início da TARV a CD4 < 100 céls/mm³. Este é o limiar mais restritivo entre as alternativas e também está completamente superado. O valor de 100 céls/mm³ é utilizado na prática clínica para indicar profilaxia primária para toxoplasmose (IgG positiva para Toxoplasma gondii e CD4 < 100) e para doença criptocócica (CD4 < 200), mas jamais como critério para iniciar TARV. A lógica de esperar o CD4 cair a níveis tão baixos para tratar é exatamente o oposto da recomendação atual, que busca iniciar o tratamento o mais precocemente possível para evitar a imunossupressão.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa está correta ao afirmar que a TARV deve ser iniciada independentemente de outros exames laboratoriais. Após o diagnóstico confirmado de HIV, o tratamento é indicado para todas as pessoas, sem necessidade de aguardar resultados de CD4, carga viral ou genotipagem. Essa recomendação é baseada em evidências de que o tratamento precoce reduz a morbimortalidade e a transmissão do vírus. Os exames complementares são solicitados na avaliação inicial, mas não condicionam o início da terapia — eles servem para orientar a escolha do esquema, monitorar a resposta e identificar comorbidades.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a desatualização do conhecimento. As alternativas A a D trazem critérios que foram válidos no passado (iniciar TARV apenas com CD4 baixo ou após genotipagem), mas que não correspondem à recomendação vigente. O candidato que estudou por materiais antigos ou que não acompanhou a evolução das diretrizes pode cair na armadilha de marcar uma dessas alternativas. A regra de ouro atual é: diagnóstico de HIV = início imediato da TARV, independentemente de qualquer exame laboratorial. Memorize isso e você não errará mais questões sobre este tema.