Questão de Medicina — Medicina Intensiva — VUNESP 2025
Medicina›Medicina Intensiva
Código
vu110246
Banca
VUNESP
Órgão
SES - SP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Pré-Requisito em Pediatria ou Medicina Intensiva
Paciente do sexo feminino, de 76 anos, portadora de hipertensão arterial e diabetes mellitus do tipo 2, é admitida na UTI por dispneia intensa e edema agudo de pulmão. O ecocardiograma à beira do leito mostra fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE) de 60%, hipertrofia concêntrica e átrio esquerdo dilatado. A monitorização invasiva com cateter de artéria pulmonar evidencia:• pressão capilar pulmonar de oclusão (PCP): 26 mmHg;• pressão arterial pulmonar média (PAPm): 35 mmHg;• índice cardíaco (IC): 2,2 L/min/m²;• pressão venosa central (PVC): 12 mmHg;• resistência vascular sistêmica (RVS): 1.700 dinas/seg/cm⁵.Apesar da congestão, a paciente mantém lactato sérico de 1,6 mmol/L e saturação venosa central (ScvO₂) de 70%.Com base na fisiopatologia micro-hemodinâmica da ICFEP descompensada, assinale a alternativa correta.
AA elevação da PCP reflete aumento do volume diastólico final do ventrículo esquerdo, com dilatação significativa e redução do índice cardíaco.
BO padrão micro-hemodinâmico caracteriza hipoperfusão tecidual precoce, com baixo fluxo capilar e aumento do gradiente arteriovenoso de O₂.
COcorre desacoplamento entre a rigidez ventricular e a complacência vascular, levando à elevação retrógrada de pressões pulmonares e à congestão com perfusão sistêmica relativamente preservada.
DA disfunção microcirculatória é tipicamente distributiva, com redução difusa da resistência vascular sistêmica e aumento do débito cardíaco.
EO quadro é definido por hipocontratilidade global e baixo volume sistólico, determinando choque cardiogênico franco.
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GabaritoC — Ocorre desacoplamento entre a rigidez ventricular e a complacência vascular, levando à elevação retrógrada de pressões pulmonares e à congestão com perfusão sistêmica relativamente preservada.
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Insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEp) descompensada
Gabarito: letra C. A paciente apresenta ICFEp (FEVE 60%, hipertrofia concêntrica, átrio esquerdo dilatado) com congestão pulmonar (PCP 26 mmHg, PAPm 35 mmHg) e perfusão sistêmica preservada (IC 2,2 L/min/m², lactato 1,6 mmol/L, ScvO₂ 70%). O quadro é de desacoplamento entre a rigidez ventricular e a complacência vascular, com elevação retrógrada das pressões pulmonares e congestão, sem hipoperfusão tecidual significativa.
A insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEp) é uma síndrome clínica em que o coração se contrai normalmente (FEVE ≥ 50%), mas apresenta déficit de relaxamento, ou seja, disfunção diastólica. O débito cardíaco desses pacientes, especialmente durante o exercício ou crises hipertensivas, é limitado pelas características anormais de enchimento ventricular. Para um determinado volume, as pressões ventriculares se elevam, gerando congestão pulmonar e dispneia. A hipertrofia concêntrica do ventrículo esquerdo, presente na paciente, é um marcador típico dessa condição, refletindo o aumento da rigidez ventricular.
A fisiopatologia da ICFEp descompensada envolve um desacoplamento entre a rigidez ventricular e a complacência vascular. O ventrículo esquerdo hipertrofiado e rígido não consegue acomodar o volume diastólico sem elevar excessivamente a pressão diastólica final. Essa elevação de pressão se transmite retrogradamente ao átrio esquerdo, às veias pulmonares e aos capilares pulmonares, resultando em congestão pulmonar e edema. Ao mesmo tempo, a complacência vascular reduzida (aumento da rigidez arterial) contribui para a intolerância a pequenas variações de volume e para a elevação da pressão arterial, perpetuando o ciclo.
Na paciente, os dados hemodinâmicos confirmam esse padrão: PCP elevada (26 mmHg) indica congestão pulmonar; PAPm elevada (35 mmHg) reflete hipertensão pulmonar passiva secundária à elevação retrógrada de pressões; IC de 2,2 L/min/m², embora no limite inferior da normalidade, não caracteriza baixo débito franco; PVC de 12 mmHg sugere congestão sistêmica; RVS de 1.700 dinas/seg/cm⁵ está elevada, refletindo vasoconstrição compensatória. O lactato normal (1,6 mmol/L) e a ScvO₂ de 70% indicam que a perfusão tecidual está preservada, afastando hipoperfusão significativa.
A distinção crucial é entre ICFEp e ICFEr. Na ICFEr, há remodelamento patológico com perda de contratilidade e dilatação ventricular, levando a baixo débito cardíaco e hipoperfusão tecidual. Na ICFEp, a contratilidade está preservada, mas o enchimento ventricular está comprometido pela rigidez, resultando em congestão com débito cardíaco relativamente mantido. Essa diferença fisiopatológica é o que separa as alternativas corretas das incorretas.
A pegadinha da banca está em confundir o perfil hemodinâmico da ICFEp com o da ICFEr ou com o choque cardiogênico. A paciente tem congestão (PCP elevada) e perfusão preservada (lactato normal, ScvO₂ normal), o que a classifica como perfil B (quente e úmido) na classificação de Stevenson, e não como perfil C (frio e úmido) ou L (frio e seco). A alternativa C captura exatamente essa fisiopatologia: desacoplamento entre rigidez ventricular e complacência vascular, com congestão e perfusão preservada.
Guarde a fronteira entre ICFEp e ICFEr: é exatamente nela que as alternativas se dividem. A ICFEp é caracterizada por congestão com débito cardíaco preservado, enquanto a ICFEr é caracterizada por baixo débito com congestão. A alternativa correta deve refletir essa distinção.
Critério
ICFEp (caso da paciente)
ICFEr (diagnóstico diferencial)
Fração de ejeção
Preservada (60%)
Reduzida (< 40%)
Remodelamento ventricular
Hipertrofia concêntrica, sem dilatação
Dilatação ventricular
Fisiopatologia
Rigidez diastólica, desacoplamento com complacência vascular
Perda de contratilidade, baixo débito
Perfil hemodinâmico
Congestão com perfusão preservada (quente e úmido)
A elevação da PCP na ICFEp não reflete aumento do volume diastólico final com dilatação significativa do ventrículo esquerdo. Na ICFEp, o ventrículo esquerdo é hipertrofiado e rígido, com volume diastólico final normal ou reduzido, mas com pressão diastólica final elevada. A dilatação ventricular é característica da ICFEr, não da ICFEp. Além disso, o índice cardíaco de 2,2 L/min/m² não está significativamente reduzido, e a paciente não apresenta dilatação ventricular ao ecocardiograma (hipertrofia concêntrica, sem dilatação).
Alternativa B — ❌ Incorreta
O padrão micro-hemodinâmico não caracteriza hipoperfusão tecidual precoce. A paciente apresenta lactato sérico normal (1,6 mmol/L) e ScvO₂ de 70%, ambos indicativos de perfusão tecidual adequada. O gradiente arteriovenoso de O₂ não está aumentado, pois a extração de oxigênio pelos tecidos está normal. A hipoperfusão tecidual seria caracterizada por lactato elevado, ScvO₂ reduzida (< 65%) e baixo fluxo capilar, o que não está presente no caso.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa descreve corretamente a fisiopatologia da ICFEp descompensada. O desacoplamento entre a rigidez ventricular e a complacência vascular leva à elevação retrógrada das pressões pulmonares (PCP 26 mmHg, PAPm 35 mmHg) e à congestão, com perfusão sistêmica relativamente preservada (IC 2,2 L/min/m², lactato 1,6 mmol/L, ScvO₂ 70%). A paciente apresenta congestão pulmonar e sistêmica (PVC 12 mmHg) sem evidência de hipoperfusão tecidual, confirmando o padrão de ICFEp descompensada.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A disfunção microcirculatória na ICFEp não é tipicamente distributiva. O choque distributivo é caracterizado por vasodilatação difusa e aumento do débito cardíaco, como ocorre na sepse. Na paciente, a RVS está elevada (1.700 dinas/seg/cm⁵), indicando vasoconstrição, e o débito cardíaco não está aumentado. O padrão é de congestão com vasoconstrição compensatória, não de vasodilatação distributiva.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O quadro não é definido por hipocontratilidade global e baixo volume sistólico, determinando choque cardiogênico franco. A FEVE é de 60%, indicando contratilidade preservada. O índice cardíaco de 2,2 L/min/m², embora no limite inferior, não caracteriza choque cardiogênico, que exige IC < 2,2 L/min/m² com hipoperfusão tecidual (lactato elevado, ScvO₂ reduzida). A paciente tem congestão, mas perfusão preservada, afastando o diagnóstico de choque cardiogênico.