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Questão de Português — Morfologia - Verbos — VUNESP 2025

PortuguêsMorfologia - Verbos
Código
vu110347
Banca
VUNESP
Órgão
TCE-SP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Auditor de Controle Externo

Leia o texto para responder à questão.


O Sobrado



Que pessoa estranha, dona Rosalina. Ela o deixava desconcertado não apenas pela ambivalência de sua conduta mas pelo mistério mesmo do seu ser. Como é que uma pessoa era assim? Ele não entendia, por mais que verrumasse1 a cabeça não conseguia entender. Ela lhe dava a impressão de duas numa só: quando ele pensava conhecer uma, via que se enganara, era outra que estava falando. Às vezes mais de uma, tão imprevista nos modos, nos jeitos de parecer. Um ajuntamento confuso de Rosalinas numa só Rosalina.


 Ele passava horas ouvindo dona Rosalina, vendo-lhe os mínimos gestos, o mais leve movimento dos lábios e dos olhos. Via-a de todas as posições, seguia-lhe os passos, e ela nunca parecia ser uma, a mesma pessoa. E depois, no quarto, procurava botar em ordem as ideias, compor com os fiapos que pegava no ar uma só figura de dona Rosalina: uma dona Rosalina impossível de ser. Na rua não pensava em dona Rosalina, se esquecia inteiramente dela. Aprendeu que, por mais que perguntassem, não podia falar nunca naquela mulher tão sozinha. Sua boca devia ser por vontade calada, como era por desígnio de Deus a boca de Quiquina. Se às vezes na rua lhe assaltava a lembrança de dona Rosalina, afastava-a ligeiro, porque, distante, a sua figura ganhava em estranheza e cores sombrias. E ele queria o ar puro da rua, a claridade do dia, onde as horas passavam, a vida era o comum da vida da gente, sem nenhum outro mistério e sobressalto senão o mistério mesmo de existir. O sobrado era o túmulo, as voçorocas2 , as veredas sombrias.


(Autran Dourado. Ópera dos Mortos)


1refletisse

2escavações no solo ou em rocha decomposta causadas por erosão do lençol de escoamento de águas pluviais

Considerando-se o sentido do texto e a norma-padrão de flexão verbal e de colocação pronominal, as passagens destacadas em – ... quando ele pensava conhecer uma, via que se enganara... (1º parágrafo) – e – Na rua não pensava em dona Rosalina, se esquecia inteiramente dela. (2º parágrafo) –, admitem as seguintes reescritas:
  1. Avia que se houvera enganado; não lembrava-se completamente dela.
  2. Bvia que se houve enganado; não se lembrava obviamente dela.
  3. Cvia que havia enganado-se; não se lembrava totalmente dela.
  4. Dvia que houvera enganado-se; não lembrava-se certamente dela.
  5. Evia que se havia enganado; não se lembrava absolutamente dela.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — via que se havia enganado; não se lembrava absolutamente dela.

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Reescrita de passagens – flexão verbal e colocação pronominal

Gabarito: letra E. A única alternativa que preserva o sentido original e respeita a norma-padrão em ambas as reescritas: no primeiro trecho, mantém o pretérito mais-que-perfeito (perífrase com havia) com próclise correta após que; no segundo, coloca o pronome antes do verbo por atração do advérbio não e substitui inteiramente por absolutamente, termo de sentido equivalente.

Análise das alternativas

Primeiro trecho original: ...via que se enganara. (pretérito mais-que-perfeito sintético + próclise obrigatória após que)

Segundo trecho original: Na rua não pensava em dona Rosalina, se esquecia inteiramente dela. (próclise após vírgula? Na verdade, a próclise em se esquecia é facultativa, mas o advérbio não na oração anterior cria atração indireta; a reescrita deve usar lembrar-se com não e manter o advérbio de intensidade)

Alternativa A – ❌ Incorreta. Primeira parte: se houvera enganado – correto (pretérito mais-que-perfeito composto com próclise). Segunda parte: não lembrava-se – erro de colocação, pois o advérbio não exige próclise: o correto é não se lembrava. Além disso, completamente não é sinônimo exato de inteiramente embora próximo, mas o erro de colocação já invalida.

Alternativa B – ❌ Incorreta. Primeira parte: se houve enganado – erro de tempo verbal. Houve é pretérito perfeito, não mais-que-perfeito; a forma correta seria havia ou houvera. Segunda parte: não se lembrava – colocação correta, mas o advérbio obviamente altera o sentido original (inteiramente). Portanto, duplo erro.

Alternativa C – ❌ Incorreta. Primeira parte: havia enganado-se – erro de colocação pronominal. Em tempos compostos, o pronome não deve ficar enclítico ao particípio; o correto é se havia enganado (próclise ao auxiliar) ou havia-se enganado (ênclise ao auxiliar). Segunda parte: não se lembrava totalmente – colocação correta e totalmente é sinônimo de inteiramente. Apenas a primeira parte já torna a alternativa errada.

Alternativa D – ❌ Incorreta. Primeira parte: houvera enganado-se – mesmo erro de C (pronome após particípio). Houvera é forma sintética mais-que-perfeita, mas a colocação está errada. Segunda parte: não lembrava-se certamente – colocação errada pelo não e advérbio certamente não equivalente. Duplo erro.

Alternativa E – ✅ Correta. Primeira parte: se havia enganado – perífrase correta do pretérito mais-que-perfeito com próclise adequada após que. Segunda parte: não se lembrava absolutamente dela – colocação proclítica obrigatória após não; absolutamente é advérbio de intensidade equivalente a inteiramente, mantendo o sentido original. A reescrita é gramatical e semanticamente fiel.

Conclusão: Somente a alternativa E atende simultaneamente à equivalência temporal (mais-que-perfeito), à colocação pronominal padrão e à manutenção do sentido com advérbio sinônimo.

PEGA ESSA DICA!

Em reescritas, verifique sempre a correspondência de tempo verbal e a regra de colocação pronominal (próclise com palavras atrativas como que, não).

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