Questão de Português — Interpretação de Textos — VUNESP 2025
Português›Interpretação de Textos
Código
vu111091
Banca
VUNESP
Órgão
UEA
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Sistema de Ingresso Seriado - 2ª Série do Ensino Médio - Prova de Acompanhamento II
Para responder à questão, leia o início do capítulo VI do romance Iracema, do escritor José de Alencar.
Martim vai a passo e passo por entre os altos juazeiros
que cercam a cabana do Pajé.
Era o tempo em que o doce aracati1
chega do mar e derrama a deliciosa frescura pelo árido sertão. A planta respira;
um suave arrepio erriça2
a verde coma3
da floresta.
O cristão contempla o ocaso do sol. A sombra, que desce
dos montes e cobre o vale, penetra sua alma. Lembra-se do
lugar onde nasceu, dos entes queridos que ali deixou. Sabe
ele se tornará a vê-los algum dia?
Em torno carpe4
a natureza o dia que expira. Soluça a
onda trépida5
e lacrimosa; geme a brisa na folhagem [...].
Iracema parou em face do jovem guerreiro:
— É a presença de Iracema que perturba a serenidade
no rosto do estrangeiro?
Martim pousou brandos olhos na face da virgem:
— Não, filha de Araquém; tua presença alegra como a luz
da manhã. Foi a lembrança da pátria que trouxe a saudade
ao coração presago6
.
— Uma noiva te espera?
O forasteiro desviou os olhos. Iracema dobrou a cabeça
sobre a espádua como a tenra7
palma da carnaúba, quando
a chuva peneira8
na várzea.
— Ela não é mais doce do que Iracema, a virgem dos
lábios de mel, nem mais formosa! murmurou o estrangeiro.
— A flor da mata é formosa quando tem rama que a abrigue e tronco onde se enlace. Iracema não vive n’alma de um
guerreiro: nunca sentiu a frescura do seu sorriso.
Emudeceram ambos, com os olhos no chão, escutando a
palpitação dos seios que batiam opressos.
(Iracema, 2006.)
1 aracati: brisa do vento.
2 erriçar: arrepiar.
3 coma: copa de árvores frondosas.
4 carpir: lamentar.
5 trépido: trêmulo.
6 presago: que adivinha.
7 tenro: delicado.
8 peneirar: chuviscar.
A voz do personagem Martim parece se mesclar intimamente à voz do narrador no seguinte trecho:
A“O cristão contempla o ocaso do sol.” (3° parágrafo)
B“A sombra, que desce dos montes e cobre o vale, penetra sua alma.” (3° parágrafo)
C“Sabe ele se tornará a vê-los algum dia?” (3° parágrafo)
D“— Não, filha de Araquém; tua presença alegra como a luz da manhã.” (8° parágrafo)
E“O forasteiro desviou os olhos.” (10° parágrafo)
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GabaritoC — “Sabe ele se tornará a vê-los algum dia?” (3° parágrafo)
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Fusão de vozes narrativas em Iracema
Gabarito: letra C. O trecho em que a voz do narrador se mescla intimamente à voz de Martim é "Sabe ele se tornará a vê-los algum dia?" (3º parágrafo). A pergunta é feita pelo narrador, mas expressa a dúvida íntima do personagem, caracterizando o discurso indireto livre — recurso em que a subjetividade do personagem invade a fala do narrador sem marcas de separação.
A análise do comando: a questão pede o momento em que as vozes se "mesclam intimamente", ou seja, quando não há distinção clara entre o que o narrador diz e o que o personagem pensa. O discurso direto (travessão) ou a narração puramente objetiva não atendem a esse critério.
Alternativa A — ❌ Incorreta
"O cristão contempla o ocaso do sol." (3º parágrafo)
Aqui o narrador descreve uma ação externa de Martim ("contempla"), sem invadir seus pensamentos. É narração impessoal, típica do narrador onisciente, mas sem fusão de vozes. Erro: não há mescla — é descrição pura.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"A sombra, que desce dos montes e cobre o vale, penetra sua alma." (3º parágrafo)
Embora "penetra sua alma" indique interioridade, a frase ainda é narrada em 3ª pessoa, com o narrador relatando um efeito psicológico. Não há um pensamento ou fala do personagem incorporada; o narrador mantém seu tom. Erro: ainda predomina a voz do narrador sem que Martim "fale" através dela.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Sabe ele se tornará a vê-los algum dia?" (3º parágrafo)
A interrogação, introduzida sem verbo de elocução ("perguntou-se", "pensou"), é a dúvida do personagem Martim, mas é enunciada pelo narrador, que funde sua voz à do guerreiro. O pronome "ele" e o verbo "sabe" (3ª pessoa) ainda mantêm a estrutura narrativa, mas a pergunta reflete diretamente a consciência de Martim. Esse é o exemplo clássico de discurso indireto livre.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"— Não, filha de Araquém; tua presença alegra como a luz da manhã." (8º parágrafo)
É fala direta de Martim, marcada por travessão. Aqui as vozes são separadas — o narrador apenas transcreve a fala do personagem. Erro: discurso direto, não há mescla.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"O forasteiro desviou os olhos." (10º parágrafo)
Narração de ação externa, objetiva. O narrador descreve um gesto, sem qualquer manifestação da subjetividade de Martim. Erro: ausência de interioridade.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre narração psicológica (alternativa B) e o discurso indireto livre (alternativa C). Em B, o narrador ainda "fala" sobre a alma do personagem; em C, ele "deixa" o personagem falar por meio de sua própria voz narrativa.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar o discurso indireto livre, procure perguntas ou exclamações sem aspas ou travessão, que expressem emoção ou pensamento do personagem, mantendo a 3ª pessoa do narrador.