Questão de Medicina — Doenças Infecto-Parasitárias — VUNESP 2025
Medicina›Doenças Infecto-Parasitárias
Código
vu112573
Banca
VUNESP
Órgão
UNESP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
V - - Médico (Área de atuação: Toxicologia)
Mulher de 38 anos apresenta quadro de vômitos, cólicas abdominais intensas e diarreia aquosa intensa com duração de 12 horas. Relata ter participado de um churrasco 24 horas antes, no qual carne bovina e suína foram consumidas para alimentar cerca de 100 convidados. Ela ouviu de vários amigos, também presentes no churrasco, que, pelo menos, mais 13 indivíduos desenvolveram sintomas semelhantes. Exame físico: temperatura: 37,1 ºC; frequência cardíaca: 88 bpm; pressão arterial: 132 x 72 mmHg; membranas mucosas úmidas; leve sensibilidade abdominal difusa em todos os quadrantes, sem descompressão brusca, defesa, rigidez ou distensão; restante do exame é inespecífico.Em relação à principal hipótese diagnóstica, é correto afirmar:
Aa maioria das infecções é resultado da exposição cutânea ou inalação de esporos infectados.
Ba infecção resulta em quase 20% de todas as mortes por doenças transmitidas por alimentos, com possível desenvolvimento de sequelas neurológicas devido ao envolvimento do Sistema Nervoso Central (SNC).
Ca diarreia ocorre como consequência da secreção intestinal estimulada por toxinas no duodeno, mediada por alterações no cálcio intracelular.
Da diarreia ocorre devido a uma enterotoxina termolábil (citotoxina secretora) que tem atividade máxima no intestino delgado.
Eo modo de transmissão é geralmente originado do manipulador de alimentos para o produto alimentício.
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GabaritoD — a diarreia ocorre devido a uma enterotoxina termolábil (citotoxina secretora) que tem atividade máxima no intestino delgado.
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Intoxicação alimentar por toxina pré-formada de Staphylococcus aureus
Gabarito: letra D. O quadro clínico — vômitos, cólicas e diarreia aquosa intensa iniciados 12 horas após um churrasco com carne bovina e suína, afetando múltiplos convidados — é clássico de intoxicação alimentar por toxina pré-formada de *Staphylococcus aureus*, cuja diarreia é causada por uma enterotoxina termolábil (citotoxina secretora) com atividade máxima no intestino delgado, exatamente como descreve a alternativa D. O diagnóstico é eminentemente clínico-epidemiológico, e o tratamento é de suporte, com hidratação.
A intoxicação alimentar estafilocócica é uma das causas mais comuns de doença transmitida por alimentos no mundo. O mecanismo é a ingestão da enterotoxina pré-formada no alimento contaminado, e não a infecção pela bactéria em si. O S. aureus é um coco Gram-positivo que coloniza pele e mucosas de humanos e animais; quando um manipulador contaminado toca o alimento e este permanece em temperatura inadequada, a bactéria se multiplica e produz a toxina. O período de incubação é curto — de 1 a 6 horas —, e os sintomas (vômitos, cólicas e diarreia) duram tipicamente menos de 24 horas, sendo autolimitados. A toxina é termoestável, ou seja, resiste ao reaquecimento do alimento, o que explica surtos mesmo após o cozimento.
A fisiopatologia da diarreia nesse contexto é o ponto central da questão. A enterotoxina estafilocócica atua como uma superantígeno e, no trato gastrointestinal, estimula a secreção intestinal de água e eletrótrólitos no intestino delgado, sem causar invasão da mucosa — por isso as fezes são aquosas, sem sangue ou pus, e os leucócitos fecais são negativos. Essa secreção é mediada por aumento do AMPc intracelular (e não do cálcio, como afirma a alternativa C), levando à ativação de canais de cloro e à saída de água para a luz intestinal. A toxina é termolábil no sentido de que é inativada por aquecimento a 60°C por 30 minutos, mas, na prática, o que importa é que ela já está formada no alimento antes do consumo.
A distinção entre intoxicação (toxina pré-formada) e infecção (ingestão do microrganismo que se multiplica no intestino) é fundamental. Na intoxicação por S. aureus, o período de incubação é de 1 a 6 horas; na infecção por Salmonella ou Campylobacter, é de 12 a 72 horas. O quadro da paciente, com início 12 horas após o churrasco, é compatível com ambas as possibilidades, mas a presença de vômitos proeminentes e a rápida evolução favorecem a toxina pré-formada. A alternativa D descreve com precisão o mecanismo da toxina estafilocócica: enterotoxina termolábil, citotoxina secretora, com atividade máxima no intestino delgado.
A pegadinha da banca está em trocar o mecanismo da toxina estafilocócica (secreção por AMPc) pelo da toxina colérica (que também age por AMPc, mas é termoestável e tem atividade no duodeno) e em atribuir à toxina estafilocócica características de outras toxinas, como a termoestabilidade (que é da toxina do Bacillus cereus e do C. perfringens). Além disso, a alternativa A descreve a transmissão de Bacillus anthracis (antraz), e a alternativa E descreve a transmissão de Shigella ou Salmonella por manipulador, que não é o mecanismo da intoxicação estafilocócica.
Característica
Toxina estafilocócica (S. aureus)
Toxina colérica (Vibrio cholerae)
Mecanismo de ação
Enterotoxina termolábil (citotoxina secretora)
Enterotoxina termoestável
Local de atividade
Intestino delgado (jejuno e íleo)
Duodeno
Mediador intracelular
AMPc
AMPc
Transmissão
Ingestão de toxina pré-formada no alimento
Ingestão de água/alimento contaminado com a bactéria
Toxina estafilocócica (S. aureus): Mecanismo (Enterotoxina termolábil, Citotoxina secretora, Atividade no intestino delgado); Fisiopatologia (Aumento de AMPc, Secreção de água e eletrólitos, Sem invasão da mucosa); Transmissão (Toxina pré-formada no alimento, Manipulador contaminado, Alimento em temperatura inadequada)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa descreve a transmissão por exposição cutânea ou inalação de esporos, que é o mecanismo do antraz (Bacillus anthracis), não da intoxicação alimentar estafilocócica. O S. aureus é transmitido por ingestão de alimentos contaminados com a toxina pré-formada, geralmente por manipulação inadequada. A confusão é entre agentes de transmissão respiratória/cutânea e o agente de transmissão alimentar.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a infecção resulta em quase 20% das mortes por doenças transmitidas por alimentos e que pode causar sequelas neurológicas por envolvimento do SNC. Isso não se aplica à intoxicação estafilocócica, que é autolimitada e raramente fatal em indivíduos saudáveis. As sequelas neurológicas (como a síndrome de Guillain-Barré) estão associadas a Campylobacter jejuni, e a mortalidade por doenças diarreicas é mais relevante em crianças em países em desenvolvimento, não em surtos de intoxicação alimentar em adultos.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa descreve a diarreia como consequência de secreção intestinal estimulada por toxinas no duodeno, mediada por alterações no cálcio intracelular. Isso se refere à toxina colérica, que age no duodeno e aumenta o AMPc (não o cálcio). A toxina estafilocócica também aumenta o AMPc, mas a alternativa erra ao citar o cálcio como mediador e ao localizar a atividade no duodeno, quando a toxina estafilocócica tem atividade máxima no intestino delgado (jejuno e íleo).
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa descreve corretamente o mecanismo da diarreia na intoxicação por S. aureus: enterotoxina termolábil (citotoxina secretora) com atividade máxima no intestino delgado. A toxina estimula a secreção de água e eletrólitos na luz intestinal, sem invasão da mucosa, resultando em diarreia aquosa. O termo "termolábil" refere-se à inativação da toxina pelo calor, embora na prática ela seja resistente ao reaquecimento; o importante é que a toxina é produzida no alimento e ingerida pré-formada.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o modo de transmissão é geralmente do manipulador de alimentos para o produto alimentício. Embora o S. aureus possa ser transmitido por manipuladores contaminados, a alternativa está incorreta porque generaliza o modo de transmissão para todas as doenças transmitidas por alimentos, quando na verdade a transmissão por manipulador é característica de Shigella e Salmonella (via fecal-oral), não da intoxicação estafilocócica, que ocorre pela ingestão da toxina pré-formada no alimento. Além disso, a transmissão por manipulador não é o mecanismo exclusivo ou principal da intoxicação estafilocócica.