Questão de Medicina — Alergia e Imunologia — VUNESP 2025
Medicina›Alergia e Imunologia
Código
vu112848
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFESP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área: Alergia e Imunologia Pediátrica
Menina, de 18 meses de vida, nascida a termo, apresentou duas otites médias supuradas (aos 6 meses e aos 10 meses) após a entrada na creche. O pediatra pediu a dosagem de imunoglobulinas, que revelou IgA < 7 mg/dL (normal: 22–178 mg/dL), IgM: 62 mg/dL (normal: 41– 200 mg/dL) e IgG: 306 mg/dL (normal: 400–1.250 mg/dL). Imunizações em dia e sem eventos adversos.Os exames complementares necessários para confirmar que se trata de um quadro de hipogamaglobulinemia transitória da infância são:
Acontagem de CD19 na citometria e avaliação de resposta vacinal.
Bcitometria para contagem de CD4, CD8, CD56 e hemograma.
Cdosagem de iso-hemaglutininas IgM anti-A e anti-B.
Dcultura de linfócitos estimulados pela fito-hemaglutinina.
Edosagem de complemento hemolítico (CH50), C3 e C4.
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GabaritoA — contagem de CD19 na citometria e avaliação de resposta vacinal.
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Hipogamaglobulinemia transitória da infância: diagnóstico diferencial
Gabarito: letra A. Para confirmar a hipogamaglobulinemia transitória da infância (HTI), é essencial demonstrar que a criança tem linfócitos B (CD19) em número normal e que é capaz de montar resposta vacinal adequada — ou seja, que a deficiência de imunoglobulinas é transitória e não decorre de uma imunodeficiência primária mais grave. A alternativa A reúne exatamente esses dois exames: contagem de CD19 na citometria e avaliação de resposta vacinal.
A hipogamaglobulinemia transitória da infância é uma imunodeficiência primária temporária e benigna, caracterizada por níveis baixos de IgG (e às vezes IgA e outras classes) em lactentes, devido a um atraso fisiológico na produção endógena de imunoglobulinas. Normalmente, o bebê nasce com IgG materna transferida pela placenta, que confere proteção nos primeiros meses. Entre 3 e 6 meses, essa IgG materna cai, e a produção própria da criança deveria assumir. Na HTI, há um retardo nessa transição, resultando em hipogamaglobulinemia, mas com linfócitos B e T em número e função normais e resposta vacinal preservada. O diagnóstico é essencialmente de exclusão: é preciso afastar outras causas de hipogamaglobulinemia, como a imunodeficiência comum variável (ICV), a agamaglobulinemia ligada ao X (doença de Bruton) e a imunodeficiência combinada grave (SCID).
O quadro clínico apresentado — otites de repetição após entrada na creche, com IgA e IgG baixas, mas IgM normal — é típico. A criança tem 18 meses, idade em que a IgG materna já desapareceu e a produção própria deveria estar plena. A confirmação da HTI exige, portanto, provar que o sistema imunológico é competente: que há linfócitos B maduros (CD19+) e que a criança responde a vacinas (produz anticorpos específicos após imunização). Se ambos estiverem normais, o diagnóstico de HTI é firmado e o prognóstico é excelente, com resolução espontânea geralmente até os 2-4 anos de idade.
A distinção crucial é entre HTI e as imunodeficiências primárias permanentes. Na agamaglobulinemia ligada ao X, por exemplo, há ausência de linfócitos B (CD19 muito baixo ou ausente) e ausência de resposta vacinal — exatamente o oposto do que se espera na HTI. Na ICV, o diagnóstico costuma ser feito mais tardiamente (após os 2 anos) e também cursa com resposta vacinal prejudicada. Por isso, a avaliação da contagem de linfócitos B e da resposta a vacinas é o passo fundamental para diferenciar a HTI das formas permanentes. A banca explora justamente essa fronteira: o aluno que sabe que a HTI é transitória e benigna reconhece que os exames devem confirmar a competência imunológica, não investigar defeitos profundos.
Guarde o critério decisivo: na HTI, o defeito é quantitativo e transitório (imunoglobulinas baixas), mas a função imunológica é preservada (linfócitos B presentes, resposta vacinal presente). É exatamente essa combinação que as alternativas testam.
Hipogamaglobulinemia transitória da infância (HTI): Defeito (Quantitativo e transitório, Imunoglobulinas baixas); Função preservada (Linfócitos B (CD19) normais, Resposta vacinal presente); Diagnóstico de exclusão (Afasta ICV, Afasta agamaglobulinemia ligada ao X, Afasta SCID); Exames que confirmam (Contagem de CD19 (citometria), Avaliação de resposta vacinal)
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A contagem de CD19 na citometria de fluxo avalia a população de linfócitos B maduros. Na HTI, essa contagem é normal, o que ajuda a excluir a agamaglobulinemia ligada ao X (onde CD19 é ausente ou muito baixo). A avaliação de resposta vacinal (por exemplo, dosagem de anticorpos pós-vacinação contra antígenos proteicos e polissacarídeos) demonstra que a criança é capaz de produzir anticorpos específicos quando estimulada — ou seja, que o sistema imunológico funciona, apenas com atraso na produção espontânea. Juntos, esses dois exames confirmam o caráter transitório e benigno da hipogamaglobulinemia, fechando o diagnóstico de HTI.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A citometria para contagem de CD4, CD8, CD56 e hemograma avalia a imunidade celular (linfócitos T CD4 e CD8, células NK CD56) e as séries hematológicas. Na HTI, a imunidade celular é normal — o defeito é predominantemente humoral (produção de anticorpos). Esses exames seriam úteis para investigar imunodeficiências combinadas (SCID) ou defeitos de células T/NK, mas não são os exames que confirmam a HTI. A banca troca a avaliação da imunidade humoral (CD19) pela celular (CD4/CD8/CD56), uma pegadinha clássica.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A dosagem de iso-hemaglutininas IgM anti-A e anti-B avalia a produção de anticorpos naturais (do grupo sanguíneo ABO). Em lactentes, esses anticorpos ainda não estão plenamente desenvolvidos (normalmente aparecem entre 6 e 12 meses), então sua ausência ou baixa titulação é esperada e não tem valor diagnóstico para HTI. Além disso, a IgM está normal no caso (62 mg/dL), e a dosagem de iso-hemaglutininas não diferencia HTI de outras imunodeficiências. É um exame que avalia resposta humoral, mas não é o exame-chave para confirmar o diagnóstico.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A cultura de linfócitos estimulados pela fito-hemaglutinina (PHA) avalia a proliferação de linfócitos T em resposta a um mitógeno. Esse teste é usado para investigar defeitos de imunidade celular, como na SCID. Na HTI, a função dos linfócitos T é normal, portanto esse exame não é necessário para confirmar o diagnóstico. A banca oferece um exame de imunidade celular como distrator, quando o foco da HTI é a imunidade humoral.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A dosagem de complemento hemolítico (CH50), C3 e C4 avalia o sistema complemento, que faz parte da imunidade inata. Deficiências de complemento estão associadas a infecções de repetição (especialmente por bactérias encapsuladas, como Neisseria), mas não cursam com hipogamaglobulinemia. No caso, o quadro é de deficiência de imunoglobulinas, não de complemento. Esse exame seria útil para investigar outras causas de infecções recorrentes, mas não confirma HTI.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre imunidade humoral (produção de anticorpos — o defeito na HTI) e imunidade celular (linfócitos T/NK — normal na HTI). As alternativas B e D oferecem exames de imunidade celular, que são irrelevantes para confirmar HTI. Lembre-se: na HTI, o que precisa ser provado é que os linfócitos B estão presentes (CD19) e que a resposta vacinal está preservada — ou seja, que o sistema imunológico é competente, apenas com atraso na produção espontânea de imunoglobulinas. Com esse raciocínio, você elimina as alternativas que investigam outros braços da imunidade.
PEGA ESSA DICA!
Para memorizar os exames que confirmam HTI, pense: "B de B" — Baixa imunoglobulina, mas Bons linfócitos B (CD19) e Boa resposta vacinal. Se a criança tem CD19 normal e responde a vacinas, a hipogamaglobulinemia é transitória. Se CD19 está ausente ou a resposta vacinal é ausente, pense em imunodeficiência primária permanente (como agamaglobulinemia ligada ao X). Essa é a chave para diferenciar as duas condições na prova.