Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — VUNESP 2025
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
vu112875
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFESP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área: Cardiologia Geral
Um estudante universitário de 21 anos apresenta queixa de palpitações. Esses episódios ocorrem de forma esporádica desde a adolescência, mas pioraram nos últimos 2 anos. Ele descreve sentir uma “batida extra” seguida de batimentos cardíacos acelerados. Às vezes, consegue interromper esses episódios tossindo. Seus antecedentes e exame físico são normais. Foi realizado um eletrocardiograma (ECG) de repouso que está ilustrado a seguir.(Arquivo pessoal; imagem usada com autorização)Considerando os dados expostos, assinale a alternativa que apresenta manobras/intervenções que tornam o achado anormal desse ECG menos aparente.
AElevação passiva das pernas.
BAmil nitrato inalatório.
CExercício físico.
DMetoprolol intravenoso.
EManobra de Valsalva.
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GabaritoC — Exercício físico.
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Síndrome de Wolff-Parkinson-White (WPW) e o ECG de repouso
Gabarito: letra C. O achado anormal do ECG — a pré-excitação ventricular com onda delta e intervalo PR curto, típica da síndrome de Wolff-Parkinson-White (WPW) — torna-se menos aparente com o exercício físico, pois o aumento do tônus simpático e a aceleração da frequência cardíaca encurtam a condução pelo nó AV, fazendo com que uma maior proporção do ventrículo seja ativada pelo sistema His-Purkinje, o que reduz ou até elimina a onda delta. As demais opções (elevação passiva das pernas, amil nitrato, metoprolol EV e manobra de Valsalva) aumentam o tônus vagal ou reduzem a condução nodal, o que acentua a pré-excitação, tornando o achado mais evidente.
A síndrome de Wolff-Parkinson-White é uma causa clássica de palpitações em jovens, caracterizada pela presença de uma via acessória (feixe de Kent) que conecta átrios e ventrículos fora do nó AV. No ECG de repouso, essa via acessória se manifesta por três achados: intervalo PR curto (< 0,12 s), onda delta (empastamento inicial do QRS) e QRS alargado (> 0,12 s). O paciente do enunciado — jovem, com palpitações desde a adolescência, que descreve "batida extra" seguida de aceleração e que consegue interromper os episódios tossindo (manobra vagal) — é o retrato clássico de WPW com taquicardia por reentrada atrioventricular.
A lógica por trás da pergunta é entender como diferentes manobras e fármacos modulam a condução pelas duas vias: a via acessória (condução rápida, não decremental) e o nó AV (condução lenta, decremental, altamente influenciada pelo sistema nervoso autônomo). O que torna a pré-excitação mais ou menos aparente é a proporção de ventrículo ativado por cada via. Se a condução pelo nó AV é acelerada (simpático, exercício), mais ventrículo é ativado pelo sistema normal, e a onda delta diminui. Se a condução pelo nó AV é retardada (vagal, betabloqueador, adenosina, manobra de Valsalva), a via acessória ativa uma proporção maior do ventrículo, e a onda delta se torna mais proeminente.
Na prática clínica, essa fisiologia tem implicações importantes. Em pacientes com WPW e fibrilação atrial, por exemplo, o uso de fármacos que bloqueiam o nó AV (como verapamil, digoxina ou betabloqueadores) é perigoso, pois pode aumentar a condução pela via acessória e precipitar fibrilação ventricular. O exercício físico, por outro lado, é uma manobra fisiológica que "esconde" a pré-excitação, o que pode ser útil em casos duvidosos, embora o diagnóstico seja essencialmente eletrocardiográfico.
A pegadinha desta questão está em inverter a lógica: o candidato pode pensar que qualquer manobra que "acalme" o coração (Valsalva, metoprolol) tornaria o ECG mais normal, quando na verdade essas manobras acentuam o achado anormal. O exercício, que à primeira vista poderia "piorar" o ECG, é justamente o que o normaliza. Guarde a fronteira: tudo que acelera a condução nodal (exercício, atropina, isoproterenol) diminui a onda delta; tudo que retarda a condução nodal (vagal, betabloqueador, adenosina) aumenta a onda delta. É exatamente nessa fronteira que as alternativas se dividem.
Manobra/Intervenção
Efeito sobre a condução nodal AV
Efeito sobre a onda delta (pré-excitação)
Resultado no ECG
Exercício físico (C)
Acelera (aumenta tônus simpático)
Diminui ou desaparece
Torna o achado menos aparente
Elevação passiva das pernas (A)
Retarda (aumenta tônus vagal)
Acentua
Torna o achado mais aparente
Amil nitrato inalatório (B)
Efeito variável (reflexo simpático, mas não consistente)
Não reduz de forma clássica
Não é a manobra clássica para mascarar
Metoprolol intravenoso (D)
Retarda (betabloqueio)
Acentua
Torna o achado mais aparente
Manobra de Valsalva (E)
Retarda (aumenta tônus vagal)
Acentua
Torna o achado mais aparente
Pré-excitação ventricular (WPW)
1Onda delta e PR curto
Acentuam (retardo nodal)
Manobra de Valsalva
Metoprolol EV
Amil nitrato
Elevação passiva das pernas
Atenuam (aceleração nodal)
Exercício físico
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A elevação passiva das pernas aumenta o retorno venoso e, por reflexo, pode aumentar o tônus vagal (reflexo de Bainbridge é complexo, mas o efeito líquido em repouso tende a favorecer o componente vagal). Isso retarda a condução pelo nó AV, fazendo com que a via acessória ative uma proporção maior do ventrículo, o que acentua a onda delta e o QRS alargado. Portanto, torna o achado anormal mais aparente, não menos.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O amil nitrato é um vasodilatador que causa hipotensão e taquicardia reflexa. Embora a taquicardia reflexa seja mediada por simpático, o efeito predominante sobre a pré-excitação em WPW é variável, mas classicamente o amil nitrato não é utilizado para mascarar a onda delta. Na prática, a redução da pós-carga e o reflexo simpático podem até aumentar a condução nodal, mas o efeito não é consistente nem é a manobra clássica para tornar a pré-excitação menos aparente. A resposta esperada é o exercício físico, que é o método fisiológico consagrado para esse fim.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O exercício físico aumenta o tônus simpático e reduz o tônus vagal, acelerando a condução pelo nó AV. Com isso, uma proporção maior do ventrículo é ativada pelo sistema His-Purkinje, e a via acessória contribui menos para a despolarização ventricular. O resultado é a diminuição ou desaparecimento da onda delta e a normalização do intervalo PR e da duração do QRS. Esse é o efeito clássico descrito na literatura: a pré-excitação torna-se menos aparente com o esforço.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O metoprolol é um betabloqueador que reduz a frequência cardíaca e retarda a condução pelo nó AV (aumenta o tônus vagal efetivo). Isso faz com que a via acessória ative uma proporção maior do ventrículo, acentuando a onda delta e o QRS alargado. Portanto, torna o achado anormal mais aparente, não menos. Além disso, em pacientes com WPW e fibrilação atrial, betabloqueadores são contraindicados por esse mesmo motivo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A manobra de Valsalva aumenta o tônus vagal (fase de esforço e liberação), retardando a condução pelo nó AV. Isso faz com que a via acessória ative uma proporção maior do ventrículo, acentuando a onda delta e o QRS alargado. Portanto, torna o achado anormal mais aparente, não menos. O paciente do enunciado usa a tosse (outra manobra vagal) para interromper a taquicardia, o que confirma o mecanismo de reentrada dependente do nó AV.
NÃO CAIA NESSA!
A banca inverte a lógica fisiológica. O candidato pode pensar que manobras que "acalmam" o coração (Valsalva, metoprolol) normalizariam o ECG, mas o oposto é verdadeiro: tudo que retarda a condução nodal acentua a pré-excitação. O exercício, que parece "acelerar" o coração, é justamente o que esconde a onda delta. Lembre-se: a via acessória é rápida e não decremental; o nó AV é lento e regulado pelo autônomo. Quem manda na proporção de ventrículo ativado é a velocidade da condução nodal.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de WPW, monte uma tabela mental de duas colunas: aumenta condução nodal (exercício, atropina, isoproterenol) → diminui onda delta; diminui condução nodal (Valsalva, adenosina, betabloqueador, verapamil, digoxina) → aumenta onda delta. Na dúvida, pergunte-se: "essa manobra acelera ou retarda o nó AV?" — a resposta decide a alternativa.