Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — VUNESP 2025
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
vu112876
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFESP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área: Cardiologia Geral
Uma mulher de 37 anos apresenta-se com dois dias de piora na dispneia aos esforços. Ela deu à luz um bebê saudável há 1 semana. Sente-se muito cansada, com dificuldade para dormir, embora não tenha certeza de quanto disso se deve aos cuidados com seu recém- -nascido e outros três filhos. O parto foi cesareana e envolveu laqueadura tubária bilateral. No exame físico, ela apresenta frequência cardíaca irregular de 82 bpm, PA: 135 x 95 mmHg e SpO₂: 91%, que melhora para 99% com 4 L de oxigênio por cateter nasal. O exame pulmonar revela crepitações e sibilos esporádicos. O exame cardíaco mostra um sopro sistólico suave e uma terceira bulha cardíaca (B3). Ela não tem histórico familiar de doença cardiovascular, nem histórico pessoal de cardiopatia. No momento, ela está tomando apenas paracetamol para controle da dor no pós-operatório. O ecocardiograma evidencia disfunção ventricular esquerda grave, com hipocinesia difusa.Nesse contexto, qual das alternativas a seguir indica a causa mais provável desses sintomas.
ACardiomiopatia periparto.
BPré-eclâmpsia.
CEmbolia pulmonar.
DAsma induzida pela gravidez.
EDissecção de artéria coronária.
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GabaritoA — Cardiomiopatia periparto.
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Cardiomiopatia periparto: diagnóstico no puerpério recente
Gabarito: letra A. A cardiomiopatia periparto (CMPP) é a causa mais provável dos sintomas, pois a paciente apresenta insuficiência cardíaca (dispneia, crepitações, B3, disfunção ventricular esquerda grave com hipocinesia difusa) que se manifestou no último mês de gestação ou nos primeiros cinco meses após o parto, em mulher sem cardiopatia prévia — exatamente o quadro descrito. O diagnóstico é clínico e ecocardiográfico, e a apresentação clássica inclui o período periparto, sendo a hipocinesia difusa um achado típico.
A cardiomiopatia periparto é uma forma de miocardiopatia dilatada idiopática que ocorre no final da gestação ou no puerpério, em mulheres previamente hígidas, sem outra causa identificável para a disfunção ventricular. A fisiopatologia envolve mecanismos inflamatórios, autoimunes e hormonais, que culminam em lesão miocárdica e comprometimento da contratilidade. O quadro clínico é de insuficiência cardíaca congestiva: dispneia progressiva, ortopneia, fadiga, edema, crepitações pulmonares, turgência jugular e, à ausculta, B3 (indicativa de disfunção ventricular e sobrecarga de volume) e sopro sistólico (frequentemente por regurgitação mitral funcional, decorrente da dilatação do anel valvar).
O ecocardiograma é o exame fundamental para o diagnóstico, demonstrando disfunção sistólica do ventrículo esquerdo (fração de ejeção reduzida) e, frequentemente, hipocinesia difusa, como no caso. A paciente descrita tem 37 anos, está na primeira semana pós-parto, não tem história de cardiopatia prévia e apresenta disfunção ventricular grave — o que fecha o diagnóstico de CMPP. A ausência de fatores de risco cardiovascular e o contexto temporal são decisivos.
É importante distinguir a CMPP de outras causas de disfunção ventricular no puerpério, como a miocardite viral, a cardiomiopatia induzida por estresse (Takotsubo) e a doença coronariana (incluindo dissecção espontânea de artéria coronária). A hipocinesia difusa, em vez de segmentar, e o contexto periparto favorecem fortemente a CMPP. A dissecção coronariana costuma cursar com dor torácica típica e alterações segmentares, não com hipocinesia difusa.
A banca explora a confusão entre a CMPP e outras condições do puerpério, como a pré-eclâmpsia (que cursa com hipertensão e proteinúria, mas não com disfunção ventricular grave difusa), a embolia pulmonar (que causa dispneia e hipoxemia, mas não hipocinesia difusa ao ecocardiograma) e a asma (que não explica a disfunção ventricular). O reconhecimento do padrão clínico-ecocardiográfico é a chave para a resposta.
Cardiomiopatia periparto (CMPP)
1Critérios diagnósticos
IC no último mês da gestação ou até 5 meses pós-parto
Ausência de cardiopatia prévia
Disfunção ventricular esquerda (FE reduzida)
2Quadro clínico
Dispneia, ortopneia, fadiga
Crepitações, B3, sopro sistólico (IM funcional)
3Ecocardiograma
Hipocinesia difusa
4Diagnósticos diferenciais
Pré-eclâmpsia
hipertensão + proteinúria, sem disfunção difusa
Embolia pulmonar (compromete VD, não VE)
Asma (broncoespasmo, sem disfunção ventricular)
Dissecção coronariana
dor torácica, disfunção segmentar
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A cardiomiopatia periparto é a causa mais provável. A paciente preenche os critérios: insuficiência cardíaca no período periparto (1 semana pós-parto), sem cardiopatia prévia, com disfunção ventricular esquerda grave e hipocinesia difusa ao ecocardiograma. A B3 e as crepitações reforçam o diagnóstico de insuficiência cardíaca congestiva.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A pré-eclâmpsia é uma síndrome hipertensiva da gestação, caracterizada por hipertensão e proteinúria após a 20ª semana. Embora a paciente tenha PA de 135 x 95 mmHg, não há relato de proteinúria nem outros critérios diagnósticos, e a pré-eclâmpsia não explica a disfunção ventricular grave com hipocinesia difusa. A hipertensão pode ser consequência da insuficiência cardíaca, não a causa primária.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A embolia pulmonar causa dispneia e hipoxemia, mas não cursa com disfunção ventricular esquerda grave e hipocinesia difusa ao ecocardiograma. O padrão ecocardiográfico típico da embolia pulmonar é o comprometimento do ventrículo direito (dilatação, hipocinesia de parede livre), não do esquerdo. Além disso, a paciente não apresenta fatores de risco agudos para tromboembolismo além do puerpério, e o quadro é mais compatível com insuficiência cardíaca esquerda.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A asma induzida pela gravidez causaria broncoespasmo, com sibilos difusos e hiperinsuflação, mas não explicaria a disfunção ventricular grave, a B3, as crepitações e a hipocinesia difusa ao ecocardiograma. Os sibilos esporádicos podem ocorrer na insuficiência cardíaca (asma cardíaca) devido ao edema da mucosa brônquica, mas o quadro dominante é o de disfunção miocárdica.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A dissecção espontânea de artéria coronária é causa de síndrome coronariana aguda, com dor torácica típica, alterações eletrocardiográficas e disfunção segmentar (não difusa) ao ecocardiograma. A paciente não apresenta dor torácica, e a hipocinesia difusa é incompatível com um território coronariano específico. A dissecção coronariana é mais comum no puerpério, mas o quadro clínico-ecocardiográfico aponta para CMPP.
Gabarito: letra A — a cardiomiopatia periparto é a causa mais provável, dado o quadro de insuficiência cardíaca no puerpério recente com disfunção ventricular esquerda grave e hipocinesia difusa.